O paradoxo de ‘A Ascensão Skywalker’: roteiro falho, elenco impecável

Analisamos o paradoxo de ‘A Ascensão Skywalker’: enquanto o roteiro sucumbe ao pânico e ao fan service, o elenco entrega atuações que salvam o filme. Entenda como atores como Adam Driver e Harrison Ford elevam uma narrativa falha a um espetáculo actoral.

Existe uma frustração muito particular em ver um filme que custou mais de 250 milhões de dólares, sabe exatamente como contratar os melhores atores do mercado, mas esquece de contratar alguém para costurar a história. ‘A Ascensão Skywalker’ é o caso definitivo de um produto que fracassa como narrativa, mas que se salva — e muito — como espetáculo actoral. É o tipo de filme que te deixa furado com o roteiro, mas incapaz de tirar os olhos do palco.

O nono episódio da Saga Skywalker carregava nas costas a missão impossível de agradar aos fãs que odiaram ‘Os Últimos Jedi’ e, ao mesmo tempo, encerrar uma trilogia inteira. O resultado? Um pânico narrativo que atira em todas as direções. A decisão de ressuscitar o Imperador Palpatine do nada e a mudança de última hora na linhagem de Rey — de uma ninguém para neta do maior vilão da galáxia — são soluções que beiram o amadorismo. Contudo, há um paradoxo brutal aqui: o elenco reunido é tão talentoso que quase faz você acreditar que essas escolhas fazem sentido.

O pânico narrativo: quando ‘maior’ substitui ‘melhor’

O pânico narrativo: quando 'maior' substitui 'melhor'

Vamos ser diretos: os números não mentem, mas eles contam histórias diferentes. ‘A Ascensão Skywalker’ faturou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias e ostenta um respeitável 86% de aprovação do público no Rotten Tomatoes. Mas a nota entre os críticos? Um mísero 51%. Por que esse divórcio? Porque o público geral foi ao cinema ver os personagens que amam em um parque de diversões visualmente deslumbrante. Os críticos, por outro lado, viram a engrenagem engasgando.

O filme sofre de um mal comum em franquias gigantes: confunde ‘maior’ com ‘melhor’. J.J. Abrams assumiu a cadeira de diretor e, assustado com a polarização do filme de Rian Johnson, decidiu apelar para o fan service mais óbvio. O retorno de Palpatine não é construído com suspense ou teoria da Força; é jogado na tela com a naturalidade de um meme da internet. ‘De certa forma, Palpatine retornou’ é o tipo de linha que não sobreviveria a uma primeira leitura de roteiro, muito menos a uma sala de cinema. É uma narrativa que respira ansiedade, com medo de silêncios e de ambiguidades.

Como o elenco faz cirurgia estética no roteiro

Se o roteiro é a fraude, o elenco é a redenção. A Disney juntou um time que qualquer diretor de casting mataria para ter. E não estou falando apenas de escalação, mas de entrega. Daisy Ridley, Adam Driver, Oscar Isaac e John Boyega receberam um material cheio de furos, e o que fizeram com ele foi cirurgia estética.

Adam Driver, em particular, construiu um dos arcos de vilão mais trágicos e densos da franquia. Kylo Ren/Ben Solo não é um Darth Vader de segunda; ele é uma ferida aberta. A forma como Driver usa o corpo — aqueles ombros caídos, a respiração pesada que dá lugar a um alívio quase infantil quando ele finalmente abandona o lado sombrio — é um exercício magistral de atuação física. Ele e Daisy Ridley têm uma química de tela que transcende a direção de arte digital. Quando eles se enfrentam ou se conectam através da Força, há um peso emocional real que o roteiro não conquistou no papel.

E o filme não para de escalar o nível de seus atores convidados. Keri Russell, que provou seu valor dramático em ‘The Americans’, entrega uma performance mascarada como a pirata Zorii Bliss que transborda carisma, mesmo com o rosto coberto. Temos ainda o veterano Ian McDiarmid devorando o cenário com um prazer doentio como Palpatine, e nomes como Lupita Nyong’o, Domhnall Gleeson e Richard E. Grant adicionando camadas de gravidade a um universo que muitas vezes se contenta com o superficial.

A cena que define o paradoxo: Driver, Ford e a memória

O fator emocional mais potente do longa não vem da resolução do conflito com Palpatine, mas da intersecção das trilogias. Ver Mark Hamill como um Fantasma da Força cansado e sábio, ou Billy Dee Williams retornando como Lando Calrissian com a mesma elegância de 1983, são momentos que funcionam porque os atores carregam décadas de história nos ombros.

Mas a cena que define o paradoxo deste filme é o diálogo entre Kylo Ren e a memória de Han Solo. Harrison Ford retorna não como um holograma de CGI, mas como uma projeção da memória do filho. A direção de Abrams é esperta ao manter o enquadramento fechado no rosto de Driver, recusando o excesso de pixels em favor da expressão humana. A dor, o luto e a redenção de Ben Solo funcionam não porque o roteiro justificou sua virada, mas porque a atuação de Driver e o peso da presença de Ford te forçam a aceitar. Eu segurei o choro nessa cena, não pela genialidade da escrita, mas pela entrega visceral dos atores. A presença de Carrie Fisher, montada com maestria a partir de imagens de arquivo de ‘O Despertar da Força’, é o toque final de uma ponte que, apesar de toda a fragilidade estrutural, sustenta o coração do filme.

O legado do elenco e o futuro da franquia no cinema

É impossível negar que a controvérsia em torno de ‘A Ascensão Skywalker’ foi tóxica o suficiente para congelar o cinema da franquia. Desde 2019, a Star Wars não lançou um único filme nas telonas. A franquia se refugiou no brilhantismo televisivo de ‘The Mandalorian’ e em outras séries da Disney+, evitando o risco de mais uma decepção.

Mas o tempo passa e a saudade aperta. A expectativa para ‘The Mandalorian & Grogu’, que chega aos cinemas em 22 de maio, é enorme. E o mais interessante? O filme continua a tendência de escalação impecável deixada pelo Episódio IX. Com atores como Jeremy Allen White, o fenômeno de ‘O Urso’, e a lenda Sigourney Weaver de ‘Alien’, a Lucasfilm parece ter percebido o que ‘A Ascensão Skywalker’ provou: você pode ter um roteiro que deixa a desejar, mas se colocar atores de peso absoluto na tela, o público vai esticar a suspensão de descrença.

‘Star Wars: A Ascensão Skywalker’ é uma obra frustrante. Ela falha em entregar a conclusão épica e coerente que a saga merecia, tropeçando em suas próprias tentativas de agradar a todos. Porém, como vitrine de talentos, ela é impecável. Se você consegue separar o absurdo do roteiro da dedicação do elenco, sobra um filme que vale a pena ser revisto. A pergunta que fica no ar é: quantas franquias teriam a coragem de admitir que seus atores são melhores que suas histórias?

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Perguntas Frequentes sobre ‘A Ascensão Skywalker’

Onde assistir ‘A Ascensão Skywalker’?

O filme está disponível exclusivamente na Disney+, plataforma de streaming que concentra todas as produções da franquia Star Wars.

Precisa ver os filmes anteriores para entender ‘A Ascensão Skywalker’?

Sim. Como o nono episódio da Saga Skywalker, o filme assume que o público conhece os arcos de Kylo Ren, Rey e a história de Palpatine. Ver pelo menos a trilogia anterior (Episódios VII e VIII) é essencial.

Como Carrie Fisher aparece no filme após seu falecimento?

A General Leia Organa foi montada utilizando cenas de arquivo inéditas de Carrie Fisher gravadas durante ‘O Despertar da Força’ e ‘Os Últimos Jedi’. O roteiro foi adaptado para que essas cenas se encaixassem na nova história sem recorrer a CGI.

Por que a volta do Imperador Palpatine foi tão criticada?

A crítica principal é a falta de construção. A volta do vilão é anunciada subitamente no texto de abertura do filme e justificada com uma única fala, sem nenhum suspense ou desenvolvimento prévio na trilogia, parecendo uma solução de emergência para amarrar a narrativa.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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