Em ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026, Emerald Fennell corta Hindley e toda a segunda geração para adaptar não o texto de Brontë, mas a “lembrança cultural” do romance. Explicamos o que essa amputação muda na vingança de Heathcliff — e o que o filme ganha em intensidade.
Há uma arrogância necessária em adaptar um clássico. Emerald Fennell, que já havia provocado com Promising Young Woman e Saltburn, leva essa ousadia ao extremo em ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026. Ela não apenas enxugou a trama de Emily Brontë — ela operou uma cirurgia radical, removendo personagens que ocupam centenas de páginas no original. Hindley Earnshaw some. Os filhos — de Cathy, de Heathcliff, de Hindley — que sustentam toda a segunda metade do romance, evaporam. Sobrou o núcleo tóxico: duas pessoas que se amam como quem incendeia uma casa e insiste que é calor.
A pergunta central desta versão não é “o que foi cortado?”, mas por que Fennell achou que podia — e deveria — cortar. Em entrevista à ScreenRant, a diretora descreveu um método que explica a mutilação com franqueza rara: antes de reler o livro, escreveu tudo o que lembrava dele. “Parte era real, parte era minha própria imaginação e memória, da mesma forma que acho que a música de Kate Bush é uma resposta ao livro”, disse. O resultado é um Wuthering Heights que não disputa fidelidade com o texto, e sim com a sensação pop que o romance deixou no imaginário: a ideia de duas almas feitas da mesma matéria — uma tese que o filme trata como única verdade possível.
Por que cortar Hindley muda o eixo moral da história (e não só o elenco)
No romance, Hindley é o detonador. Ao degradar Heathcliff depois da morte do pai, ele transforma diferença social em humilhação íntima — e dá forma à vingança que vai corroer gerações. Sem Hindley, a engrenagem precisa de outro motor. Aqui, o pai de Cathy (Martin Clunes) absorve a função de abusador e guardião de classe: o desprezo por Heathcliff vira uma sentença “de sangue”, direta e imediata, não uma crueldade que se acumula no cotidiano de um irmão ressentido.
Essa troca muda o tom. Hindley, em Brontë, é patético e terrível: alguém que cai, se alcooliza, destrói a própria casa e ainda assim mantém poder. Quando o pai ocupa esse lugar, a violência parece mais “institucional” e menos degradada — menos sobre decadência familiar por dentro, mais sobre uma barreira de pedigree que já nasce intransponível. É uma solução limpa para um romance que, originalmente, é sujo de propósito.
O corte da segunda geração é a decisão que define o filme: sem futuro, só febre
Eliminar os filhos é um gesto ainda mais definitivo. No livro, Cathy Linton (a filha), Linton Heathcliff e Hareton Earnshaw funcionam como espelho quebrado da geração anterior: a repetição do trauma é testada contra a possibilidade de mudança. Brontë não oferece conforto fácil, mas oferece estrutura — causa, efeito, herança, correção imperfeita.
Fennell escolhe o contrário: ela encerra a história antes que exista a chance de qualquer legado virar aprendizado. Sem descendência, o amor obsessivo deixa de ser uma maldição que atravessa décadas e vira uma combustão em tempo real. É um filme que não quer perguntar “o que isso faz com os filhos?”, e sim “o que isso faz com a pele, com o olhar, com o quarto onde os dois estão presos?”.
Fennell adapta a lembrança cultural do livro — e isso vira estética
A referência à Kate Bush não é enfeite. A canção Wuthering Heights (1978) cristalizou aquilo que muita gente “lembra” do romance: Cathy como fantasma romântico, o amor como assombração, a paixão como destino. Pouca gente cita com o mesmo fervor as engrenagens de herança, tutela, propriedade e educação — justamente o que dá ao livro seu terror social.
Ao escolher a “memória seletiva” como fundamento, Fennell ganha foco e perde arquitetura. O foco aparece na maneira como a encenação insiste em intimidade: menos personagens em cena, mais tempo para close-ups e para a coreografia de aproximação/repulsa entre Margot Robbie e Jacob Elordi. A narrativa passa a funcionar como câmara de pressão: em vez de acompanhar a vingança como estratégia ao longo dos anos, o filme aposta na sensação de que cada conversa pode virar ferida aberta.
E isso pede técnica. Em uma adaptação tão comprimida, montagem e som são o que substituem o que o roteiro cortou: elipses agressivas para sugerir passagem de tempo sem explicar, silêncios longos que deixam o desconforto “ficar” na sala, e uma trilha (quando entra) menos ilustrativa e mais invasiva — empurrando o romance para perto do horror psicológico. A ideia é simples: se você tirou as ramificações, precisa tornar o tronco sufocante.
O que sobra quando o épico vira dano colateral: Isabella, Nelly e o preço imediato
Com o elenco reduzido, quem permanece precisa carregar função dramática com mais peso. Nelly Dean (Hong Chau) mantém o papel de testemunha — e, crucialmente, de narradora pouco confiável: alguém que observa, comenta, racionaliza, mas também filtra o horror com moralismo e autoproteção. Edgar Linton (Shazad Latif) segue como o polo “civilizado”, mais frágil do que virtuoso, um homem que acredita que boas maneiras são escudo.
Mas é Isabella Linton (Alison Oliver) quem melhor revela por que essa versão existe. Ao ser atraída por Heathcliff não como arco longo de manipulação social, e sim como vingança imediata, Isabella vira o termômetro da crueldade: quando o filme quer provar que a paixão de Cathy e Heathcliff não é “romântica”, e sim predatória, ele faz isso no corpo de quem está ao redor.
Há um ponto importante aqui: se a química entre Robbie e Elordi dividir o público (frieza para uns, cálculo para outros), a história precisa de uma terceira energia que mostre consequência, não mito. Isabella cumpre esse papel — não como subtrama, mas como prova material de que o amor central é uma máquina de triturar.
Por que “cortar metade do livro” pode ser coerente — e também empobrecedor
Fennell não é a primeira a simplificar Brontë; adaptações anteriores já amputaram a segunda geração porque o romance gótico vende melhor do que o drama familiar de propriedade, tutela e ressentimento cotidiano. O diferencial aqui é a honestidade do gesto: Fennell assume o esquecimento como método. Ela não pede desculpas por “trair” o texto; ela diz, na prática, que está filmando o mito popular do livro.
O risco é evidente. Sem a estrutura intergeracional, a vingança de Heathcliff pode soar como birra prolongada — menos como projeto de destruição e mais como insistência. Sem Hindley, perde-se o retrato de uma família que corrói a si mesma por dentro, com culpa, decadência e autodestruição.
O ganho é outro: intensidade claustrofóbica. ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026 vira um estudo concentrado de toxicidade romântica — dois narcisistas que tratam o próprio desejo como lei natural, e para quem qualquer pessoa ao redor é instrumento ou obstáculo. Não há segunda geração para sugerir redenção; há apenas o estrago.
No fim, o filme funciona como teste de Rorschach. Se você quer a épica gótica de destruição ao longo de décadas, Fennell “erra” o livro. Se você quer ver a lenda cultural do casal — febril, egoísta, violenta — sem a distração do futuro, ela acerta o alvo que escolheu. E essa é a chave: esta adaptação não quer ser Brontë no papel. Quer ser a versão que muita gente acredita lembrar, até reler e descobrir quantas outras histórias existiam ali.
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Perguntas Frequentes sobre ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026
Por que Emerald Fennell cortou Hindley e os filhos na adaptação?
Porque ela decidiu adaptar a memória e a sensação popular de O Morro dos Ventos Uivantes, não a estrutura completa do romance. Em entrevista à ScreenRant, Fennell disse que escreveu o que lembrava antes de reler o livro — e essa abordagem favorece o casal central e elimina o arco intergeracional.
‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026 é fiel ao livro de Emily Brontë?
Não no sentido tradicional: a adaptação simplifica personagens e encurta a história ao focar em Cathy e Heathcliff. A proposta é mais uma reinterpretação do mito romântico associado ao livro do que uma transposição completa da trama.
O filme ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026 é baseado em fatos reais?
Não. A história é ficcional e vem do romance Wuthering Heights (1847), de Emily Brontë, um dos principais títulos do gótico inglês.
Quem está no elenco principal de ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ 2026?
O filme traz Margot Robbie e Jacob Elordi como o casal central, com Hong Chau como Nelly Dean, Shazad Latif como Edgar Linton, Alison Oliver como Isabella Linton e Martin Clunes como o pai de Cathy (nesta versão).
Preciso ter lido o livro para entender o filme?
Não. A adaptação foi construída para funcionar como história fechada, com foco no romance tóxico e nas consequências imediatas. Ler o livro, porém, ajuda a entender o peso do que foi removido (especialmente Hindley e a segunda geração).

