Usando os 30 anos de ‘O Corcunda de Notre Dame’ como ponto de partida, ranqueamos a era Alan Menken Disney pelo impacto musical e histórico. De ‘A Pequena Sereia’ a ‘A Bela e a Fera’, o foco é como as canções mudaram a animação.
Faz trinta anos que Quasímodo ergue Esmeralda do alto de Notre Dame e grita ‘Sanctuary!’ para uma multidão que preferia condenar antes de compreender. Em 1996, a Disney apostou numa adaptação sombria de Victor Hugo que, em tese, não tinha negócio algum sendo vendida como filme infantil — e só funcionou porque a música carregava o peso dramático que a imagem sozinha talvez não sustentasse.
Esse aniversário torna inevitável voltar ao homem por trás do piano. O legado da parceria Alan Menken Disney não se construiu apenas com melodias fáceis de cantar, mas com uma compreensão rara de como uma canção pode apresentar personagem, mover enredo e salvar um estúdio inteiro de sua própria crise criativa.
Menken veio do circuito Off-Broadway, onde, ao lado de Howard Ashman, refinou sua habilidade de contar histórias por meio de canções em obras como ‘A Pequena Loja dos Horrores’. Quando chegou à Disney, trouxe a gramática do teatro musical para a animação — algo que Hollywood havia praticamente abandonado em favor de trilhas orquestrais menos integradas à narrativa.
Este ranking considera três critérios: impacto histórico, integração das músicas à dramaturgia e ousadia musical. Não é uma lista de canções mais famosas. É uma avaliação de como cada filme usa Menken para ser mais do que seria sem ele.
8. ‘Nem Que a Vaca Tussa’: quando o gênero engole a substância
Vou ser direto: ‘Nem Que a Vaca Tussa’ (2004) é um daqueles filmes que a Disney parece preferir tratar como nota de rodapé. Menken tenta abraçar a estética country com faixas como ‘Little Patch of Heaven’ e o número de yodel ‘Yodel-Adle-Eedle-Idle-Oo’, que mistura pastiche rural, delírio visual e referência a música clássica em poucos minutos.
O problema não é a experimentação. É a falta de memória emocional. A música é tecnicamente competente, mas raramente revela algo essencial sobre as personagens ou sobre aquele mundo. Ela decora o filme mais do que o transforma.
‘Nem Que a Vaca Tussa’ virou símbolo do esgotamento da animação 2D tradicional na Disney naquele período. Não foi o único culpado, claro, mas ficou marcado como o momento em que a fórmula musical já não bastava para esconder uma história frágil.
7. ‘Enrolados’: a ponte entre a Broadway e a Disney em 3D
A partir daqui, estamos falando de filmes que realmente funcionam. ‘Enrolados’ (2010) foi o cavalo de Troia da Disney moderna: provou que o estúdio podia adaptar contos de fadas clássicos para a animação 3D sem abandonar completamente a alma musical que havia definido os anos 90.
Com letras de Glenn Slater, Menken encontra um registro pop-Broadway eficiente. ‘When Will My Life Begin?’ traduz a energia represada de Rapunzel em rotina doméstica acelerada; ‘I See the Light’ desacelera tudo para transformar lanternas flutuantes em revelação emocional. A música não reinventa Menken, mas o reposiciona para uma geração criada em outra linguagem visual.
Historicamente, ‘Enrolados’ abriu caminho para a confiança que permitiria ‘Frozen: Uma Aventura Congelante’ e ‘Moana: Um Mar de Aventuras’. Como obra isolada, porém, segue um molde bastante seguro. É um ótimo filme, mas sua trilha trabalha mais como motor narrativo eficiente do que como risco artístico.
6. ‘Pocahontas’: beleza sonora, desconforto histórico
Aqui as coisas ficam complicadas. Musicalmente, ‘Pocahontas: O Encontro de Dois Mundos’ (1995) é um triunfo. Menken se une a Stephen Schwartz e entrega ‘Colors of the Wind’, vencedora do Oscar de melhor canção original, além de uma partitura que tenta sugerir natureza, espiritualidade e deslocamento cultural com uma textura mais contemplativa do que o habitual no estúdio.
Há momentos em que a trilha parece respirar junto com a paisagem. Em ‘Just Around the Riverbend’, por exemplo, a melodia acompanha o movimento da água e da personagem: Pocahontas não canta apenas sobre escolher um caminho, ela canta como alguém sendo puxada por uma correnteza.
Mas é impossível assistir ao filme em 2026 sem encarar o atrito histórico. A narrativa romantiza uma figura real trágica, suaviza a violência colonial e opera num nível de simplificação cultural difícil de defender. A música é sofisticada; o contexto dramático, nem sempre. Esse conflito impede que ‘Pocahontas’ suba mais neste ranking.
5. ‘Hércules’: mito grego com pulsação de gospel
‘Hércules’ (1997) é um dos filmes mais subestimados do período pós-auge do Renascimento da Disney. A sacada de Menken foi traduzir a grandiosidade da mitologia grega pela energia vocal do gospel e do soul. As Musas funcionam como coro grego, mas cantam como um grupo que saiu de uma igreja afro-americana e invadiu o Olimpo.
Essa escolha dá ao filme uma identidade imediata. Em vez de tentar soar arqueológico, ‘Hércules’ assume o anacronismo como linguagem. ‘The Gospel Truth’ estabelece tom, humor e mitologia em poucos minutos; ‘Zero to Hero’ transforma montagem de treinamento em espetáculo de celebridade; ‘Go the Distance’, com letra de David Zippel, ancora o desejo clássico do herói que ainda não sabe onde pertence.
O filme fica fora do pódio não por falta de personalidade, mas porque sua dramaturgia é mais leve do que a dos gigantes que vêm a seguir. Ainda assim, é Menken em modo elástico: menos reverente, mais brincalhão, sem perder precisão melódica.
4. ‘O Corcunda de Notre Dame’: a audácia gótica que completou 30 anos
Chegamos ao aniversariante. Lançado em 21 de junho de 1996, ‘O Corcunda de Notre Dame’ talvez seja o projeto mais ambicioso que a Disney já colocou nos cinemas dentro de sua linha principal de animação. Pegar um romance de Victor Hugo sobre deformidade, isolamento, fanatismo religioso e desejo reprimido e transformá-lo num filme familiar foi uma decisão quase imprudente. Menken foi quem tornou essa equação minimamente possível.
A abertura, ‘The Bells of Notre Dame’, já deixa claro que não estamos diante de um musical infantil convencional. Sinos, coro, narração e arquitetura sonora trabalham juntos para transformar a catedral em personagem. A música não ilustra Notre Dame; ela a ergue diante do espectador.
O ponto mais alto, porém, é ‘Hellfire’. A canção de Frollo continua sendo uma das mais perturbadoras já produzidas pelo estúdio porque dramatiza culpa religiosa e desejo sexual sem diluir o conflito em metáfora fácil. O coro em latim funciona como julgamento externo, enquanto a melodia desce para uma região quase operática de repressão e autoengano. Menken e Schwartz não tratam o público infantil como incapaz de lidar com ambiguidade moral.
O filme tropeça quando tenta equilibrar essa escuridão com o alívio cômico dos gárgulas, que pertencem a uma obra menos atormentada. Mas a audácia musical de ‘O Corcunda de Notre Dame’ permanece impressionante. Trinta anos depois, poucas animações de grande estúdio soam tão dispostas a encarar o sagrado, o grotesco e o desejo no mesmo compasso.
3. ‘Aladdin’: a versatilidade de um gênio
‘Aladdin’ (1992) também carrega problemas que envelheceram mal, sobretudo nos estereótipos orientalistas de sua representação do mundo árabe. Dito isso, como máquina de entretenimento musical, é difícil negar sua eficiência. A entrada de Robin Williams como o Gênio mudou a relação entre animação, improviso vocal e comédia de celebridade.
A genialidade de Menken está na versatilidade. Ele passa do número frenético de ‘Friend Like Me’ para a balada romântica de ‘A Whole New World’ sem que o filme pareça mudar de idioma emocional. A primeira é praticamente vaudeville animado, cheia de quebras, acentos e mudanças de registro; a segunda suspende o filme no ar, literalmente e musicalmente, para vender a fantasia de liberdade.
Também há uma dimensão histórica importante: ‘Aladdin’ marca uma transição delicada após a morte de Howard Ashman, com Tim Rice completando parte do trabalho lírico. Mesmo assim, Menken mantém a coesão. A trilha dita o ritmo da aventura e dá ao filme uma fluidez que muitos imitadores dos anos 90 tentaram copiar sem entender.
2. ‘A Pequena Sereia’: o filme que recolocou a Disney para cantar
Sem ‘A Pequena Sereia’ (1989), a Disney provavelmente não existiria como a conhecemos hoje. O estúdio vinha de uma fase irregular, com crise de identidade e resultados artísticos desiguais. Ariel não apenas inaugurou uma nova princesa; ela devolveu à animação da Disney a estrutura do musical integrado.
A parceria Menken-Ashman muda tudo porque entende que canções não são intervalos. ‘Part of Your World’ é o modelo moderno da canção de desejo, a famosa música de ‘eu quero’ que revela a protagonista antes de a trama se mover. ‘Under the Sea’ constrói mundo com ritmo caribenho, humor e contraponto dramático: Sebastian tenta vender a segurança do oceano enquanto o filme inteiro nos faz sentir a atração de Ariel pela superfície.
O mais impressionante é como a partitura diferencia espaços. O fundo do mar tem elasticidade, percussão, cor; o mundo humano surge com outro tipo de romantismo, mais aberto e aspiracional. A música de Menken não acompanha a transição de Ariel entre mundos. Ela é a transição.
Coloco ‘A Pequena Sereia’ em segundo porque seu impacto histórico é gigantesco. Ela reacendeu a Disney. Mas o primeiro lugar pertence ao filme em que essa fórmula alcançou sua forma mais lapidada.
1. ‘A Bela e a Fera’: o ápice absoluto da forma
‘A Bela e a Fera’ (1991) foi o primeiro longa de animação indicado ao Oscar de Melhor Filme. Não Melhor Animação, categoria que sequer existia na época. Melhor Filme. Disputando espaço com dramas adultos. E a principal razão para esse salto de prestígio está na forma como Menken e Ashman transformam estrutura musical em dramaturgia pura.
‘Belle’ é uma aula de abertura. Em poucos minutos, apresenta a protagonista, a vila, Gaston, o conflito social e o desejo de fuga sem parecer uma sequência de exposição. Cada entrada vocal acrescenta uma camada de informação. A canção é movimentada como teatro, montada como cinema e escrita com precisão cirúrgica.
‘Be Our Guest’ leva o imaginário de Busby Berkeley para dentro da animação, transformando louças, talheres e guardanapos em coreografia impossível. Já a canção-título, ‘Beauty and the Beast’, faz o oposto: reduz o espetáculo a um momento de suspensão, em que a orquestração dá à Fera uma melancolia que o desenho sozinho não conseguiria carregar com a mesma força.
Há ainda o contexto humano: Ashman trabalhava gravemente doente durante a produção, e isso torna a delicadeza de algumas letras ainda mais pungente. Mas o mérito de Menken não depende da biografia. Está na partitura, na arquitetura das melodias, na maneira como cada música parece nascer exatamente onde a história precisa dela.
Comparar esses filmes é um exercício de nuances, mas é difícil não ver ‘A Bela e a Fera’ como o ápice da filmografia animada de Alan Menken na Disney. ‘O Corcunda de Notre Dame’ talvez seja o mais ousado; ‘A Pequena Sereia’, o mais decisivo historicamente. Mas ‘A Bela e a Fera’ é o ponto em que forma, emoção e legado se alinham com precisão quase perfeita. Trinta anos depois de Notre Dame, a conclusão permanece clara: Menken não escreveu apenas músicas para desenhos animados. Ele ajudou a escrever a história do cinema de animação moderno.
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Perguntas Frequentes sobre Alan Menken Disney
Quais filmes animados da Disney têm músicas ou trilha de Alan Menken?
Os principais longas animados da Disney associados a Alan Menken são ‘A Pequena Sereia’, ‘A Bela e a Fera’, ‘Aladdin’, ‘Pocahontas’, ‘O Corcunda de Notre Dame’, ‘Hércules’, ‘Nem Que a Vaca Tussa’ e ‘Enrolados’. Ele também contribuiu com canções pontuais em outros projetos do estúdio.
Quantos Oscars Alan Menken ganhou com filmes da Disney?
Alan Menken ganhou oito Oscars, todos ligados a filmes da Disney: melhor trilha e melhor canção por ‘A Pequena Sereia’, ‘A Bela e a Fera’, ‘Aladdin’ e ‘Pocahontas’.
Alan Menken compôs as músicas de ‘Frozen’ e ‘Encanto’?
Não. As músicas de ‘Frozen’ são de Kristen Anderson-Lopez e Robert Lopez. Em ‘Encanto’, as canções são de Lin-Manuel Miranda, com trilha instrumental de Germaine Franco.
Por que a parceria entre Alan Menken e Howard Ashman foi tão importante?
Porque Menken e Ashman trouxeram a lógica do teatro musical para a animação da Disney. As músicas deixaram de ser apenas números isolados e passaram a apresentar personagens, explicar conflitos e mover a história.
‘O Corcunda de Notre Dame’ completou 30 anos quando?
‘O Corcunda de Notre Dame’ foi lançado em 21 de junho de 1996 nos Estados Unidos. Portanto, o filme completou 30 anos em junho de 2026.

