O cancelamento de ‘The Talisman’ e ‘Becka Paulson’ em 2026 marca o fim da era onde o nome de King garantia sucesso automático. Analisamos como a saturação e a falta de visão técnica estão transformando Stephen King adaptações em um risco que Hollywood não quer mais correr.
Duas séries canceladas em menos de uma semana. ‘The Talisman’, que seria o projeto de prestígio dos irmãos Duffer pós-‘Stranger Things’, e ‘The Revelations of Becka Paulson’, uma aposta da CW que definhava no ‘development hell’ desde 2020. Janeiro de 2026 chegou com um diagnóstico amargo para quem acompanha Stephen King adaptações: o nome do autor não é mais um salvo-conduto para orçamentos ilimitados.
Durante décadas, King foi o ‘porto seguro’ de Hollywood. Com mais de 60 livros e uma bibliografia que parece escrita em formato de storyboard, os estúdios se viciaram na ideia de que a marca ‘King’ fazia o marketing sozinha. Mas o colapso desses projetos recentes revela uma fadiga de material que não é culpa do autor, mas de uma indústria que esqueceu como traduzir sua essência.
O colapso de ‘The Talisman’ e a crise de confiança da Netflix
O cancelamento de ‘The Talisman’ é o mais sintomático. Escrito com Peter Straub, o livro é uma fantasia épica que exige o que chamamos de ‘world-building’ de alto nível. Ver os Duffer Brothers — que provaram em ‘Stranger Things’ uma capacidade única de filmar o fantástico através do olhar infantil — abandonarem o projeto é um sinal vermelho. A Netflix, que costumava assinar cheques em branco para IPs (Propriedades Intelectuais) de renome, agora recua diante de histórias que exigem mais do que apenas nostalgia.
O problema aqui é de escala. ‘The Talisman’ exige o orçamento de um ‘Senhor dos Anéis’ com a sensibilidade sombria de um ‘Stand By Me’. Sem os Duffers para garantir a audiência ‘mainstream’, a Netflix percebeu que o nome de King, isolado, não sustenta uma produção de 200 milhões de dólares em um mercado que exige retorno imediato.
A ‘HBO-ficação’ vs. a ‘CW-ficação’ de King
Para entender por que algumas Stephen King adaptações fracassam enquanto outras brilham, precisamos falar de textura técnica. ‘The Outsider’ (2020), da HBO, é o padrão-ouro recente. A fotografia de Ben Kutchins usava sombras profundas e enquadramentos que deixavam espaços vazios desconfortáveis, capturando o ‘pavor existencial’ que King escreve tão bem. Já o projeto ‘Becka Paulson’ na CW sofria do mal oposto: a tentativa de transformar um conto visceral e curto em um drama procedural adolescente.
O erro recorrente é a diluição. Quando o ‘The Stand’ (2020) da Paramount+ tentou ser um épico não-linear, ele perdeu a força gravitacional dos personagens. A montagem fragmentada destruiu a sensação de jornada que é o pilar do livro. O público de 2026 está mais exigente; eles detectam quando uma série está ‘enchendo linguiça’ para bater a meta de oito episódios.
O cinema e o ‘fator Flanagan’
Enquanto a TV oscila, o cinema vive um paradoxo. Mike Flanagan, com ‘A Vida de Chuck’, entregou uma das adaptações mais fiéis ao espírito humanista de King, mas enfrentou dificuldades na bilheteria. Isso prova que o público atual separa o King ‘terror de susto’ (estilo ‘It: A Coisa’) do King ‘drama sobrenatural’.
O fracasso comercial de ‘O Sobrevivente’ com Glen Powell, apesar de ser um filme de ação competente, mostra que a etiqueta ‘baseado em Stephen King’ não atrai mais o espectador casual que vai ver ‘Marvel’ ou ‘Missão Impossível’. O ‘efeito King’ agora é de nicho, por mais que Hollywood tente negar.
Por que ‘Welcome to Derry’ ainda sobrevive?
A resposta para a sobrevivência do prequel de ‘It’ na Max é simples: curadoria de universo. Em vez de pegar um livro aleatório e tentar forçar uma série, ‘Welcome to Derry’ expande uma mitologia que já provou sua rentabilidade visual. A série mantém a estética saturada e o design de som agressivo que Andy Muschietti estabeleceu nos filmes, criando uma continuidade que o público reconhece.
O futuro das Stephen King adaptações não está na quantidade, mas na especificidade. O mercado de 2026 está forçando uma correção necessária: menos projetos genéricos ‘caça-níquel’ e mais obras que entendam que o terror de King não vem de monstros de CGI, mas do isolamento humano e das falhas de caráter de seus protagonistas. Se o cancelamento de ‘The Talisman’ servir para que os estúdios parem de tratar o autor como uma commodity e voltem a tratá-lo como literatura, o saldo será positivo.
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Perguntas Frequentes sobre Stephen King adaptações
Por que a série ‘The Talisman’ foi cancelada?
A série foi cancelada após a saída dos produtores executivos Matt e Ross Duffer (Stranger Things). A Netflix considerou o alto custo de produção um risco excessivo sem o comando criativo da dupla original.
Onde assistir à série ‘Welcome to Derry’?
‘Welcome to Derry’, a série que serve de prequel para os filmes ‘It: A Coisa’, está disponível exclusivamente na plataforma Max (antiga HBO Max).
Qual é a adaptação mais fiel de Stephen King?
Críticos e fãs frequentemente apontam ‘Misery’, ‘O Iluminado’ (apesar das mudanças de Kubrick) e ‘The Outsider’ como referências. Recentemente, ‘A Vida de Chuck’, de Mike Flanagan, tem sido elogiado pela fidelidade emocional ao material original.
Existem cenas pós-créditos nos filmes de Stephen King?
Geralmente não. A maioria das adaptações cinematográficas de King segue um formato tradicional de conclusão. ‘It: Capítulo Dois’ teve apenas um easter egg sonoro, mas sem cenas visuais após os créditos.
Stephen King ainda participa das adaptações?
Sim, King costuma atuar como consultor ou produtor executivo em grandes projetos, mas ele raramente interfere no roteiro final, dando liberdade criativa aos diretores (o que explica a variação de qualidade entre as obras).

