A indústria de K-dramas enfrenta uma crise de originalidade pós-‘Squid Game’. Analisamos como a dependência de adaptações de webtoons, a redução do número de episódios e a concorrência dos microdramas verticais estão encerrando a era de experimentação artística na Coreia do Sul.
Vou ser direto: se você sente que os K-dramas andam perdendo o brilho, não é apenas nostalgia. O fim da era de ouro dos K-dramas não é um diagnóstico pessimista, mas a constatação de uma indústria que, ao tentar se tornar global, acabou sacrificando a identidade que a tornou um fenômeno em primeiro lugar.
Não estamos falando da morte do gênero — os números de audiência na Netflix e Disney+ ainda são massivos. No entanto, há uma diferença abissal entre uma indústria que dita tendências e uma que apenas as replica. Nos últimos três anos, a balança pendeu perigosamente para a produção industrial em massa, deixando a experimentação artística em segundo plano.
O ‘Efeito Squid Game’ e a lição aprendida erroneamente
Antes de 2021, os K-dramas eram uma exportação cultural de nicho crescente, sustentada pela Hallyu (onda coreana). Séries como ‘Winter Sonata’ e ‘Reply 1988’ conquistaram o mundo pelo slice-of-life ou pelo romance lento, o chamado slow burn. Eram produções que arriscavam no formato e na sensibilidade.
‘Squid Game’ (Round 6) deveria ter sido o ápice dessa ousadia. Uma série rejeitada por emissoras coreanas por dez anos, que encontrou na Netflix o espaço para sua crueza. A lição óbvia seria: a originalidade radical compensa. Mas a lição que os grandes estúdios, como o Studio Dragon e a JTBC, parecem ter aprendido foi outra: K-dramas são ativos lucrativos que precisam de escala.
O resultado? Uma enxurrada de produções que tentam emular o sucesso global, mas perdem a alma coreana no processo.
A ‘Netflix-ficação’ e a armadilha do algoritmo
A entrada agressiva do capital estrangeiro mudou a estrutura narrativa das séries. Se antes o padrão eram 16 episódios — permitindo um desenvolvimento de personagem que beirava o literário —, hoje vemos uma pressão por temporadas de 8 a 10 episódios. O objetivo é o binge-watching, mas o preço é o desenvolvimento apressado.
A busca pelo retorno garantido criou um ciclo de previsibilidade:
- Adaptações excessivas: Quase 70% dos lançamentos recentes são baseados em webtoons. Embora tragam um público fiel, limitam a visão autoral de roteiristas renomados, como Kim Eun-hee (‘Signal’).
- Fórmulas requentadas: O tropo do ‘CEO frio’ ou da ‘vingança corporativa’ tornou-se um template. Séries como ‘Business Proposal’ são competentes, mas não expandem as fronteiras do gênero.
- Escala sobre substância: Orçamentos inflacionados são gastos em efeitos visuais ou elencos de peso (os chamados A-listers), enquanto o roteiro muitas vezes é deixado em segundo plano.
Quando a sequência expõe o esgotamento: O caso ‘Strong Girl’
A diferença entre a era de ouro e o momento atual fica clara ao compararmos ‘Strong Girl Bong-soon’ (2017) com sua sequência espiritual, ‘Strong Girl Nam-soon’ (2023). O original subvertia o papel feminino com humor e coração. A sequência pareceu uma colagem de momentos virais para o TikTok, sem a coesão narrativa que justificasse sua existência. É o sintoma de uma indústria no piloto automático, focada em branding e não em contar uma história necessária.
A ameaça dos microdramas verticais: A China entra no jogo
Enquanto a Coreia do Sul se preocupa em produzir o próximo ‘Oppenheimer’ das séries, a China está dominando um formato que muitos ignoram: os microdramas verticais. Com episódios de um minuto e filmados para celular, plataformas como ReelShort e TopReels estão canibalizando o tempo de atenção do público jovem.
Na Coreia, esse modelo já começa a ser testado como ‘prova de conceito’. Se uma história curta engaja, ela recebe investimento para o formato tradicional. É uma solução eficiente, mas que empurra os K-dramas ainda mais para a lógica do algoritmo e menos para a da arte cinematográfica.
O que esperar do futuro: Crise ou correção?
O termo ‘fim da era de ouro’ refere-se ao fim daquele período de inovação pura que nos deu obras-primas como ‘My Mister’ ou ‘Signal’. Hoje, os K-dramas lembram o Universo Cinematográfico da Marvel (MCU): são produções polidas, tecnicamente impecáveis e altamente lucrativas, mas que raramente desafiam o espectador.
Estamos caminhando para um cenário realista onde a saturação forçará uma correção. Quando o público cansar das adaptações genéricas, as produtoras terão que voltar a investir em vozes originais para se diferenciarem. A era do ‘sucesso por ser coreano’ acabou; agora, a Coreia precisará provar, novamente, que consegue ser única em um mar de conteúdos globais padronizados.
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Perguntas Frequentes sobre a Crise dos K-dramas
Por que os K-dramas estão ficando mais curtos?
A mudança do formato tradicional de 16 episódios para 8 ou 10 é uma influência direta das plataformas de streaming como Netflix e Disney+. O objetivo é incentivar o consumo rápido (maratona) e reduzir custos de produção por temporada.
O que são os microdramas verticais que estão competindo com os K-dramas?
São séries produzidas especificamente para smartphones, filmadas na vertical, com episódios que duram entre 1 e 2 minutos. O formato explodiu na China e está ganhando espaço globalmente por focar em ganchos rápidos e consumo imediato.
Os K-dramas baseados em Webtoons são ruins?
Não necessariamente. Muitos são excelentes, como ‘Moving’ e ‘All of Us Are Dead’. O problema apontado por críticos é a dependência excessiva desse formato, que acaba sufocando a criação de roteiros originais e inéditos na indústria.
Ainda vale a pena assinar streamings para ver K-dramas?
Sim. Embora a indústria esteja mais formulaica, o nível de produção técnica (fotografia, atuação e trilha sonora) continua sendo um dos mais altos do mundo. O desafio atual é filtrar as produções genéricas para encontrar as obras verdadeiramente originais.

