O destino de Lord Zedd em ‘Power Rangers Cosmic Fury’ gerou polêmica, mas condená-lo a um casamento eterno com Rita não é erro de roteiro. É a síntese perfeita de uma franquia que sempre soube misturar ameaça e absurdo.
Nos anos 90, Lord Zedd era o vilão que fazia crianças esconderem o rosto da TV. Um imperador galáctico exposto, com cérebro pulsante e musculatura de metal, que fez o que nenhum antagonista antes dele ousou: destruiu os Thunderzords sem pestanejar. Então, quando soube que seu destino final em Power Rangers Cosmic Fury era ser condenado a um casamento eterno com Rita Repulsa, minha primeira reação foi de puro choque. Parecia uma piada para encerrar três décadas de lore. Mas reavaliando o arco de Lord Zedd Power Rangers, fica claro que esse final bizarro não é um erro de roteiro. É a síntese perfeita da alma da franquia.
De imperador do terror a sitcom doméstica: a identidade dupla de Zedd
A história de Zedd na franquia é um mapa de como Power Rangers lidava com o tom. Ele estreou na segunda temporada de Mighty Morphin Power Rangers (1994) como um substituto assustador para Rita. E aqui vai um detalhe que só quem cavou a fundo na história da série sabe: Zedd não tem equivalente no Super Sentai original. Ele é uma invenção pura da equipe americana, desenhado justamente porque os produtores acharam que Rita estava ficando clichê. Aquele design grotesco e a postura implacável renderam alguns dos momentos mais tensos da TV infantil da época.
Mas a franquia nunca conseguiu sustentar o terror puro por muito tempo — e a pressão da censura americana ajudou a mudar isso. Cartas de pais assustados com o visual de Zedd forçaram a produção a tonificá-lo. Em Power Rangers Zeo, o tom mudou drasticamente: Zedd e Rita viram um casal de comédia fugindo do Império das Máquinas. A imagem do senhor da escuridão tentando se dar bem com a sogra bruxa e perdendo espaço para vilões de lata é bizarra, mas estabeleceu a regra que definiria o personagem. Zedd se tornou o veículo perfeito para a transição entre a tensão e o nonsense que a série exigia.
Por que Zedd é o personagem mais honesto de Power Rangers
Poucos personagens sobrevivem a três décadas de TV infantil sem perder a identidade. Zedd não só sobreviveu como se reinventou de formas que parecem absurdas vistas isoladamente, mas fazem todo o sentido no conjunto da obra. Em Power Rangers In Space, a onda de energia de Zordon o purifica, transformando-o em um humano de carne e osso — um final redentor que seria definitivo em qualquer série com pretensões dramáticas.
Mas Power Rangers não lida com ‘definitivo’, lida com o que serve à narrativa do momento. Décadas depois, Dino Fury o ressuscita em sua forma original, retomando a ameaça de forma surpreendentemente fiel. É aqui que a franquia acerta: ela entende que o público quer o vilão assustador da infância, mesmo que a narrativa exija malabarismos para justificar o retorno. A continuidade aqui é elástica, e Zedd é a prova de que a série sempre abraçou a própria incoerência com um sorriso no rosto.
O purgatório conjugal em Nibyro e o DNA de Power Rangers
Chegamos então a Cosmic Fury (2023). O arco de trinta anos precisava de um encerramento. A opção mais fácil e épica seria uma destruição gloriosa em batalha, um sacrifício heroico ou um banimento genérico para o espaço profundo. Em vez disso, a série nos dá o planeta Nibyro. Zedd é banido para um mundo onde os habitantes revivem seus piores pesadelos em loop infinito. E qual é o pior pesadelo de um senhor da guerra intergaláctico? Um casamento infeliz e eterno com Rita Repulsa.
Na superfície, é o tipo de reviravolta que faz o fã purista ranger os dentes. Como reduzir o grande vilão a uma sitcom doméstica? A resposta está no DNA da franquia. Power Rangers sempre foi uma mistura inconfessável de lutas coreografadas com moral da história e comédia pastelão. O fato de o destino final de Zedd ser um purgatório conjugal é a franquia olhando no espelho e reconhecendo sua própria essência. O terror de Zedd sempre foi contrabalançado pelo absurdo de seu entorno; dar a ele um final de comédia romântica tóxica é a punição mais cruel — e tematicamente mais adequada — possível.
O final de Zedd funciona exatamente porque não tenta ser algo que a série nunca foi. Power Rangers não é Game of Thrones espacial, por mais que os fãs da era In Space queiram romantizar o drama. É um programa de sábado de manhã que mistura monstros de borracha com dilemas existenciais de adolescentes. Ao condenar Lord Zedd a uma eternidade de brigas de casal com Rita, a franquia encerra seu arco mais duradouro com a mesma chave que o iniciou: sem medo de ser bizarro, sem medo de ser engraçado e, acima de tudo, sabendo que a ameaça e o ridículo podem coexistir perfeitamente. Se você busca um fechamento sombrio e épico, vai odiar. Se você entende que a franquia sempre viveu no limbo entre o épico e o patético, vai perceber que não havia outro destino possível.
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Perguntas Frequentes sobre Lord Zedd em Power Rangers
O que aconteceu com Lord Zedd em Power Rangers Cosmic Fury?
Lord Zedd é banido para o planeta Nibyro, um mundo onde os habitantes revivem seus piores pesadelos em loop. Para Zedd, esse pesadelo é viver um casamento infeliz e eterno com Rita Repulsa.
Lord Zedd é um vilão original ou vem do Super Sentai japonês?
Zedd é uma criação 100% original da equipe americana. Ele não tem equivalente no Super Sentai e foi desenhado porque os produtores acharam que a vilã Rita Repulsa estava se tornando clichê.
Por que Lord Zedd mudou de vilão assustador para cômico?
A mudança ocorreu em parte devido à pressão dos pais americanos, que achavam o visual de Zedd assustador demais para crianças. A produção tonificou o personagem, e em ‘Power Rangers Zeo’ ele já havia se tornado um alívio cômico.
Onde assistir Power Rangers Cosmic Fury?
‘Power Rangers Cosmic Fury’ está disponível na Netflix. A temporada é uma continuação direta de ‘Dino Fury’, então recomenda-se assistir a temporada anterior para entender o contexto dos personagens.

