Witches Netflix é a nova série em desenvolvimento dos criadores de ‘The Empress’. Aqui, o passado não é cenário: explicamos por que as caçadas às bruxas na Alemanha do século XVII podem render um épico psicológico raro — e perigosamente atual.
A Netflix não costuma entregar uma série de “alcance global” a criadores estrangeiros sem uma aposta calculada. Quando o streaming anuncia ‘Witches’, novo projeto de Robert e Katharina Eyssen — a dupla alemã por trás de ‘The Empress’ — a mensagem é clara: vem aí um drama de época pensado para ser grande, longo e difícil de esquecer. Witches Netflix ainda está em desenvolvimento, mas a premissa já aponta para um épico sombrio que troca o glamour cortesão pela paranoia comunitária.
Segundo a divulgação do projeto, ‘Witches’ acompanha três irmãs durante as caçadas às bruxas do século XVII na Alemanha, atravessando suspeita, traição e a tentativa desesperada de proteger quem se ama quando o fanatismo vira regra. É um ponto de partida potente porque desloca o foco do “caso” (quem é culpada?) para o mecanismo (como uma comunidade decide que alguém precisa queimar).
O que a dupla de ‘The Empress’ já provou — e por que isso importa aqui
‘The Empress’ funcionou não por ser “bonita”, mas por entender que drama histórico só ganha tração quando o conflito íntimo é esmagado por estruturas sociais concretas. A Elisabeth de lá não era uma heroína contemporânea fantasiada; era alguém tentando respirar num sistema que chamava controle de etiqueta.
É justamente esse tipo de olhar — personagens femininas encurraladas por instituições, e não por vilões isolados — que faz ‘Witches’ parecer mais do que uma variação oportunista sobre “bruxas”. Caçadas à bruxaria são um laboratório narrativo para a mesma obsessão dos Eyssen: o que acontece com a identidade quando a sobrevivência exige performance, silêncio e, às vezes, colaboração.
Por que a Alemanha do século XVII é o cenário perfeito (e pouco explorado)
Quando TV e cinema mainstream voltam ao passado europeu, a rota segura costuma passar por Inglaterra Tudor, Revolução Francesa ou guerras “prestigiadas” já mastigadas pela cultura pop. As grandes ondas de perseguição por bruxaria em territórios alemães — com julgamentos em massa e pânico institucional — seguem menos presentes no imaginário do público, apesar de serem historicamente devastadoras.
Isso dá à série um trunfo raro: um cenário com peso real sem parecer repetição de vitrine histórica. Estimativas comuns citam algo entre 40 mil e 60 mil executados por acusações de bruxaria na Europa, com forte concentração em regiões do atual território alemão. E o mais perturbador é o “como”: o pânico não depende só de superstição, mas de guerra, fome, epidemias, disputa local por poder e uma máquina jurídica/religiosa que aprende a se retroalimentar.
Três irmãs: a escolha narrativa que pode tornar ‘Witches’ devastadora
Focar em três irmãs é, ao mesmo tempo, uma escolha clássica e cheia de armadilhas produtivas. Em histórias de terror institucional, família não é apenas refúgio; é também o primeiro lugar onde a violência do Estado se infiltra. Quando denúncia vira moeda de sobrevivência, laços viram risco.
A sinopse fala em suspeita e traição — e é aí que o material tende a ficar realmente forte, se os Eyssen evitarem soluções “limpas”. Num contexto em que confissão pode ser arrancada, e acusação pode ser chantagem, a pergunta dramática não é “quem tem poderes?”, e sim: o que você aceita dizer sobre alguém que ama para continuar viva?
O maior risco: transformar história em fantasia (ou em espetáculo)
Há duas tentações óbvias em qualquer série sobre bruxaria. A primeira é o sensacionalismo: fazer dos carrascos caricaturas e das vítimas mártires de roteiro, quando o horror histórico está justamente na normalidade da engrenagem — vizinhos que acusam por rancor, disputa de herança, moralismo, medo. A segunda é a fantasia automática: dar “magia” às protagonistas para aliviar o desconforto de encarar mulheres comuns destruídas por instituições.
Se ‘Witches’ quiser ser relevante de verdade, precisa sustentar um tom mais próximo do horror histórico e psicológico do que de uma mitologia pop. Comparar com ‘The Witch’ (2015), de Robert Eggers, faz sentido não por estética “de época”, mas pela recusa em transformar o passado num parque temático: a atmosfera opressiva nasce de crença, isolamento, linguagem e do peso do cotidiano.
O que esperar do visual e da escala (com o que já sabemos)
A produção envolve a Sommerhaus, parceira dos Eyssen em ‘The Empress’ e ‘Holiday Secrets’. Isso sugere continuidade de um cuidado visual que sabe usar cenário como pressão dramática, não só decoração. Em ‘The Empress’, a mise-en-scène da corte — corredores, protocolos, luz fria — frequentemente operava como grade.
Em ‘Witches’, a lógica pode inverter: menos palácios, mais aldeias, tribunais, igrejas e espaços onde a comunidade observa e julga. Se a Netflix realmente tratar como projeto “major”, o dinheiro precisa aparecer menos em “grandeza” e mais em reconstrução de mundo: figurino sem romantização, textura de locação, e uma direção que entenda a diferença entre sombra atmosférica e obscuridade genérica.
Para quem ‘Witches Netflix’ tende a funcionar — e para quem provavelmente não
Witches Netflix não parece desenhada para escapismo. Se você procura drama de época pela sensação de conforto, romance e catarse “bonita”, o tema pode ser árido e cruel demais. Por outro lado, se você gosta quando a ficção histórica usa o passado para iluminar mecanismos recorrentes — paranoia social, violência legitimada, pânico moral — a série tem chance de virar evento.
Por enquanto, sem elenco e sem data, o que existe é potencial e direção criativa. A boa notícia: os Eyssen já demonstraram que sabem escrever mulheres sob pressão sem reduzir tudo a slogans. A prova real será manter essa complexidade quando a pressão não é só social, mas literalmente mortal — e quando a história, por definição, não oferece muitos finais “confortáveis”.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Witches’ (Netflix)
‘Witches’ já tem data de estreia na Netflix?
Não. A Netflix divulgou ‘Witches’ como uma produção em desenvolvimento, sem janela de lançamento confirmada até o momento.
Quem são os criadores de ‘Witches’?
A série está sendo desenvolvida por Robert e Katharina Eyssen, showrunners alemães que também criaram ‘The Empress’.
‘Witches’ vai ser uma série de terror sobrenatural?
Não há confirmação de que será sobrenatural. Pelo anúncio, a proposta é um drama histórico sobre caçadas às bruxas no século XVII, com foco em fanatismo, suspeita e sobrevivência.
Em que país e período ‘Witches’ se passa?
‘Witches’ é ambientada na Alemanha do século XVII, durante o período das perseguições e julgamentos por bruxaria.
Preciso assistir ‘The Empress’ para entender ‘Witches’?
Não. As séries não têm ligação de história. A conexão é criativa: são dos mesmos showrunners e devem compartilhar o interesse por drama de época centrado em conflito institucional e personagens femininas sob pressão.

