Em ‘Medíocres’ temporada 5, o episódio ‘Montecito’ usa o trope do falso namoro para comentar o próprio fandom. Nossa análise mostra como a série valida a intensidade entre Deborah e Ava sem transformá-las em casal, reafirmando que o grande romance aqui é a parceria criativa.
Existe um tipo de episódio que parece leve na superfície, mas reorganiza a série inteira por baixo. ‘Medíocres’ temporada 5, episódio 7, ‘Montecito’, faz exatamente isso. Em vez de resolver a tensão entre Deborah e Ava com uma revelação romântica ou um gesto grandioso, a série escolhe um artifício antigo de sitcom — o falso namoro — para dizer algo mais difícil e mais preciso: o vínculo entre as duas é real, central e amoroso, mas não precisa caber no molde de casal para ser definitivo.
É por isso que o episódio funciona tão bem. Não porque ‘entrega fan service’, nem porque zomba de quem lê desejo nessa relação, mas porque transforma essa leitura em matéria-prima da própria comédia. ‘Montecito’ encena a fantasia dos shippers para, no fim, devolver uma verdade mais interessante: Deborah e Ava são almas gêmeas criativas. A série valida a intensidade da conexão sem trair a lógica emocional que construiu desde o início.
O falso namoro não é o ponto — é a armadilha narrativa
A premissa, no papel, é puro mecanismo de sitcom. Deborah precisa conseguir um vestido específico de Carol Burnett para o show no Madison Square Garden. O vestido está com Kelly Kilpatrick, personagem de Cherry Jones, que passa a tratá-la de outra forma ao presumir que Ava é sua parceira. A solução é improvisar uma farsa conjugal durante um retiro de casais.
O episódio sabe que está usando um trope gasto. E justamente por saber disso, tira força dele. O falso casamento aqui não existe para perguntar se Deborah e Ava ‘ficariam bem juntas’. A série já sabe que essa pergunta é simplista demais. O que interessa é outra coisa: o que muda quando um vínculo que sempre foi íntimo, possessivo, dependente e criativamente fértil recebe, ainda que por algumas horas, o rótulo social de romance?
A resposta de ‘Montecito’ é sagaz: quase nada muda no essencial. Muda a performance. Muda a leitura externa. Muda o enquadramento. Mas o motor da relação continua o mesmo.
O episódio encena o desejo do fandom sem virar refém dele
Sim, o capítulo oferece imagens que alimentam anos de especulação: proximidade física, beijo, intimidade performada, o desconforto elétrico de Deborah, a energia excessiva de Ava. Tudo isso está lá. Mas o texto e o timing cômico deixam claro que a série não está capitulando; está observando.
Esse é o movimento mais esperto do episódio. Em vez de ignorar o subtexto que parte do público acompanha há anos, ‘Medíocres’ o incorpora. Só que incorpora de modo meta: cria uma situação em que Deborah e Ava precisam representar exatamente aquilo que tanta gente projeta nelas. O resultado tem graça porque o episódio entende duas verdades ao mesmo tempo. A primeira: existe, sim, uma química legível entre as duas. A segunda: química não é a mesma coisa que destino romântico.
Por isso a comicidade nunca parece descartável. Quando Ava exagera no afeto ou empurra a situação para uma intimidade teatral, o humor nasce menos do ‘olha como elas parecem um casal’ e mais do fato de que esse papel explicitado torna visível um padrão que já existia. Ava sempre foi invasiva, carente, fascinada por Deborah. Deborah sempre reagiu com irritação, controle e uma forma torta de dependência. O episódio só coloca moldura nessa dinâmica.
A melhor piada de ‘Montecito’ é que os outros acreditam mais na performance do que na verdade
O verdadeiro golpe do roteiro não está no beijo nem na encenação do fim de semana. Está no pós-farsa. Quando Kelly e Monica se recusam a aceitar que Deborah e Ava não são um casal, ‘Montecito’ deixa de ser apenas um episódio de situação e vira comentário sobre recepção. As personagens dentro da narrativa reagem como parte do público fora dela: elas veem intimidade, leem romance e desconfiam da negativa.
É aí que a fala de Kelly sobre algo ‘sair do armário’ neste fim de semana encontra sua função. Não é só uma punchline afiada. É uma forma de o episódio reconhecer frontalmente a interpretação queer dessa relação sem transformar esse reconhecimento em confirmação literal. A série admite que a leitura existe, admite até que ela faz sentido a partir da aparência daquelas interações, mas preserva a distinção entre parecer romântico e ser romântico.
Essa é uma escolha delicada. Se escrita com menos precisão, soaria defensiva ou cínica. Aqui funciona porque o episódio não ridiculariza o olhar dos shippers. Pelo contrário: ele mostra por que esse olhar existe. O que recusa é a ideia de que a única maneira de legitimar intimidade feminina intensa seja sexualizá-la ou domesticá-la no formato de casal.
Deborah e Ava funcionam melhor como parceria absoluta do que como resolução romântica
A grande tese de ‘Montecito’ é que transformar Deborah e Ava em casal seria, dramaticamente, uma simplificação. Não porque faltaria coragem à série, mas porque sobraria redução. Desde o início, ‘Medíocres’ construiu a relação das duas como uma mistura difícil de mentoria, filiação torta, rivalidade, obsessão profissional, admiração e necessidade emocional. É um vínculo bagunçado demais para caber confortavelmente numa etiqueta.
Chamá-las de almas gêmeas da comédia descreve melhor o que a série vem fazendo. Elas se refinam no atrito. Uma obriga a outra a ser mais honesta, mais afiada, mais vulnerável no palco e fora dele. O amor entre as duas passa pelo trabalho, pela linguagem, pelo timing, pela brutalidade com que se leem. Quando ‘Montecito’ as veste no figurino de casal, a conclusão não é ‘ah, então era isso’. A conclusão é quase o oposto: isso é pequeno para o que elas já são.
Há também um detalhe estrutural importante. O episódio não reorganiza a série ao redor do romance; ele reorganiza o romance ao redor da série. Tudo que poderia funcionar como clímax romântico vira instrumento para reafirmar o projeto dramático original. É um gesto raro de disciplina narrativa.
Uma farsa de sitcom, filmada como laboratório de performance
O que eleva ‘Montecito’ além da ideia é a execução. O episódio depende muito de ritmo, pausa e reação — três elementos que, em comédia de relação, valem tanto quanto diálogo. A direção entende que o humor não está apenas nas falas, mas no tempo morto depois delas: um olhar de Deborah que demora meio segundo a mais, a insistência corporal de Ava, o constrangimento crescente de uma sala em que todos parecem interpretar melhor a situação do que as próprias protagonistas.
É uma construção de cena baseada em performance. Jean Smart trabalha o desconforto de Deborah como mecanismo duplo: ela parece repelir a situação enquanto deixa escapar o quanto conhece Ava intimamente demais para que a farsa soe totalmente artificial. Hannah Einbinder, por sua vez, inclina Ava para um exagero calculado. Não é naturalismo; é overplaying consciente, quase como se a personagem estivesse testando os limites da brincadeira para ver o que Deborah tolera. Essa diferença de registro é justamente o que faz a dinâmica respirar.
Há ainda um aspecto técnico discreto, mas decisivo: a montagem segura os beats cômicos sem acelerar demais o episódio. ‘Montecito’ confia no embaraço, em vez de correr para a próxima piada. Isso importa porque o tema do capítulo é performance social. Cada silêncio constrangedor e cada reação atrasada reforçam a sensação de que estamos vendo personagens administrando não só uma mentira, mas a percepção pública da própria intimidade.
O episódio responde a uma pergunta do fandom sem destruir a ambiguidade da série
Em muitas séries contemporâneas, especialmente nas mais online, existe a tentação de tratar leitura de fandom como pauta de roteiro. Às vezes isso produz catarse; outras, produz decisões que parecem mais marketing do que dramaturgia. ‘Medíocres’ faz algo mais maduro. Responde à pergunta sem se submeter a ela.
Se a dúvida era ‘a série sabe que muita gente lê Deborah e Ava romanticamente?’, a resposta de ‘Montecito’ é um sim inequívoco. Se a dúvida era ‘a série vai converter essa leitura em canon?’, a resposta é não — e esse não não soa como recuo, mas como definição artística. O episódio argumenta que há formas de amor mais difíceis de nomear e mais interessantes de observar do que a consumação romântica.
Isso também ajuda a preservar algo essencial em Deborah. A personagem foi construída ao longo da série com um controle feroz sobre a própria imagem, os próprios afetos e a própria narrativa. Transformar esse arco, a esta altura, numa simples revelação amorosa teria menos a ver com expansão e mais com atalho. ‘Montecito’ prefere a via mais complexa: mostrar que a ligação com Ava já é uma força organizadora da vida de Deborah sem precisar reescrever quem ela é.
Para quem ‘Montecito’ funciona — e para quem talvez frustre
Se você acompanha ‘Medíocres’ pela química entre Deborah e Ava, este é um dos episódios mais generosos da série. Ele oferece proximidade, tensão, leitura meta e uma espécie de resposta emocional ao investimento do público. Se você queria confirmação romântica literal, porém, a experiência pode ser de frustração calculada. O capítulo abre essa porta apenas o suficiente para mostrar por que prefere não atravessá-la.
Para quem vê a série principalmente como estudo de parceria artística, ‘Montecito’ é quase uma declaração de princípios. Ele reafirma que a maior história de amor aqui é a da colaboração criativa: duas mulheres que se ferem, se empurram e se transformam mutuamente porque, juntas, encontram uma voz que sozinhas não alcançam do mesmo jeito.
No fim, a verdade que o episódio entrega é menos espalhafatosa e mais duradoura. Deborah e Ava talvez não sejam alma gêmea no romance. Mas são, inequivocamente, a relação central de ‘Medíocres’. E ‘Montecito’ entende que isso não é uma consolação. É o ponto.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Medíocres’ temporada 5
O que acontece no episódio 7 da 5ª temporada de ‘Medíocres’?
No episódio ‘Montecito’, Deborah e Ava fingem ser um casal para conseguir acesso a um vestido de Carol Burnett importante para o grande show de Deborah. A trama usa essa farsa para explorar, com humor, como a relação entre as duas é percebida por quem está ao redor.
‘Medíocres’ temporada 5 confirma romance entre Deborah e Ava?
Não de forma canônica. O episódio brinca diretamente com essa expectativa, mas a leitura que prevalece é a de uma conexão profunda e central que não precisa se tornar romance para ter peso dramático.
Preciso ver as temporadas anteriores para entender ‘Montecito’?
Sim, idealmente. A graça do episódio depende do histórico entre Deborah e Ava, da evolução da parceria profissional e da forma como a série vem tensionando intimidade, afeto e conflito entre as duas desde o começo.
Quem participa de destaque no episódio ‘Montecito’?
Além de Jean Smart e Hannah Einbinder, o episódio ganha força com a presença de Cherry Jones como Kelly Kilpatrick. A participação dela é decisiva para transformar a premissa de comédia em comentário meta sobre a relação das protagonistas.
Onde assistir ‘Medíocres’ temporada 5?
A disponibilidade pode variar por país e plataforma, mas a série costuma estar vinculada ao ecossistema da Max. Vale checar o catálogo local no dia da busca, já que janelas de licenciamento podem mudar.

