‘Hulk Infernal’ traz o terror que o MCU precisa para resgatar o personagem

‘Hulk Infernal’ mergulha o Gigante Esmeralda em folk horror sobrenatural, criando a primeira encarnação genuinamente maligna do personagem. Analisamos como essa abordagem nos quadrinhos pode ensinar o MCU a resgatar o terror perdido do Hulk.

Hulk não deveria ser fofo. O personagem nasceu do medo nuclear da Guerra Fria, da fissão entre civilização e selvageria, da ideia de que dentro de todo homem culto existe uma besta esperando o momento certo para emergir. Em algum momento entre 2008 e 2019, porém, o MCU decidiu que o Gigante Esmeralda poderia ser reduzido a um alívio cômico musculoso que faz dancinha e tira selfies. Hulk Infernal, a nova fase do personagem nos quadrinhos, chega para lembrar o que Marvel Studios parece ter esquecido: terror e Hulk devem andar juntos.

A corrida de Phillip Kennedy Johnson após o aclamado ‘The Immortal Hulk’ de Al Ewing não tenta copiar o predecessor. Enquanto Ewing apostava em body horror e horror cósmico — pense Cronenberg encontra Lovecraft — Johnson mergulha em folk horror com arte de Nic Klein, cujos traques sombrios e atmosféricos seriam confortáveis em uma HQ de Hellboy. A inspiração declarada vem da dupla Mike Mignola e Guillermo del Toro, e isso faz toda diferença. O Infernal Hulk não é apenas mais uma personalidade fragmentada de Bruce Banner. É algo inteiramente outro: uma entidade possuída por Eldest, alimentada pela carne da Mother of Horrors, completamente desvinculada da psique do cientista. Pela primeira vez nas décadas de história do personagem, temos um Hulk genuinamente maligno — não apenas raivoso, mas mau.

Por que Hulk Infernal funciona como terror

Por que Hulk Infernal funciona como terror

A cena inicial de ‘O Incrível Hulk’ (2008) de Louis Leterrier ainda é uma das melhores coisas que o MCU já fez com o personagem. A sequência na fábrica de refrigerantes, com soldados perseguindo Banner por corredores escuros enquanto algo enorme e verde os caçava de volta, era pura gramática de slasher. Hulk não era herói ali — era o monstro do filme. A perseguição no Helicarrier em ‘Os Vingadores’ (2012) mantinha essa energia: uma Natasha Romanoff visivelmente aterrorizada tentando escapar de uma besta que não raciocinava, apenas caçava. Whedon entendeu que a presença do Hulk deveria gerar desconforto, não risos.

Nos quadrinhos, essa tensão sempre existiu, mas raramente foi levada ao extremo do horror puro. O Hulk tradicional é monstruoso por acidente — colateral, vítima de si mesmo. Devil Hulk representa o ódio de Banner por si mesmo. Kluh é instinto animal descontrolado. Guilt Hulk brinca com remorso. Infernal Hulk rompe com essa tradição psicológica. Ele não quer destruir Banner mentalmente ou fisicamente. Ele quer extinguir a luz do mundo, e Banner é apenas um obstáculo descartável. Não há barganha possível com algo que não tem conexão com a humanidade do hospedeiro.

O que Marvel Studios pode aprender com a nova era dos quadrinhos

É difícil não olhar para a trajetória do Hulk no MCU sem sentir que algo essencial se perdeu. O Smart Hulk de ‘Vingadores: Ultimato’ era a culminação lógica de uma jornada que começou bem, mas foi se acomodando. O personagem que uma vez precisou ser contido por uma armadura de Veronica porque não conseguia parar de socar um alienígena enraivecido agora… tira fotos com crianças? A notícia de que ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ deve reverter o Smart Hulk de volta ao Savage Hulk é um sinal de que Marvel está ciente do problema. Mas reverter para o Hulk de Fase 1 seria perder uma oportunidade maior.

O que Hulk Infernal demonstra nos quadrinhos é que o personagem pode sustentar uma narrativa de horror sobrenatural sem perder sua essência trágica. A lair do Infernal Hulk, os pesadelos de Banner, o próprio Hulkscape — tudo é desenhado com uma precisão perturbadora que faz cada página parecer um pesadelo febril. Em uma cena particularmente eficaz, Banner acorda em um cenário que mistura o horror rural inglês de ‘The Wicker Man’ com o pesadelo onírico de um filme de del Toro. Até personagens estabelecidos como Namor e os Vingadores são contaminados por essa atmosfera quando entram na órbita da história. Não é apenas o Hulk que muda; é o universo ao redor que se curva à sua presença.

O horror como resgate da gravidade perdida

Existe uma razão pela qual demorou tanto para Marvel transformar Hulk em um personagem de terror propriamente dito. As raízes góticas de Dr. Jekyll e Mr. Hyde sempre estiveram ali, mas o mainstream de super-heróis tem dificuldade com ambiguidade moral extrema. O Hulk “heróico” é mais fácil de vender: ele soca os vilões, faz uma piada ocasional, e todo mundo vai para casa feliz. O Hulk de ‘The Immortal Hulk’ e agora de Hulk Infernal rejeita essa simplificação. O corpo de Banner já foi um campo de batalha entre personalidades concorrentes. Agora é um portal para algo que não pertence a nenhuma psicologia humana.

A ironia é que o MCU já provou que consegue fazer terror funcionar dentro de sua fórmula. ‘WandaVision’ flertou com o perturbador. ‘Moon Knight’ tocou em instabilidade mental de forma respeitosa. ‘Werewolf by Night’ foi um especial de terror clássico disfarçado de conteúdo Disney+. A infraestrutura existe. O que falta é coragem de aplicar isso a um dos pilares dos Vingadores — alguém que já esteve em seis filmes do universo sem nunca ter um arco solo completo respeitado.

Se Marvel Studios quer consertar Hulk, não basta fazê-lo ranger os dentes de novo. O Savage Hulk de ‘Os Vingadores’ já foi assustador há mais de uma década. O momento pede algo mais ambicioso: reconhecer que o horror sempre foi o código genético do personagem, e que ignorar isso foi o erro que transformou uma besta aterrorizante em um grandão simpático que faz graça. Hulk Infernal nos quadrinhos aponta o caminho: folk horror, sobrenatural, e a noção de que alguns monstros não podem ser domesticados — apenas contidos, temporariamente, até que a próxima transformação chegue.

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Perguntas Frequentes sobre Hulk Infernal

O que é Hulk Infernal?

Hulk Infernal é uma nova fase do personagem nos quadrinhos Marvel, escrita por Phillip Kennedy Johnson com arte de Nic Klein. A trama mistura folk horror e sobrenatural, apresentando um Hulk possuído por uma entidade maligna chamada Eldest.

Hulk Infernal é continuação de The Immortal Hulk?

É uma sequência espiritual, não direta. Ambas apostam em terror, mas enquanto ‘The Immortal Hulk’ de Al Ewing focava em body horror e horror cósmico, ‘Hulk Infernal’ mergulha em folk horror com influências de Mike Mignola e Guillermo del Toro.

Quem é o Infernal Hulk?

Infernal Hulk é uma entidade possuída por Eldest e alimentada pela carne da Mother of Horrors. Diferente de outras encarnações como Devil Hulk ou Kluh, ele não tem conexão psicológica com Bruce Banner — é genuinamente maligno, não apenas raivoso.

O que é folk horror?

Folk horror é um subgênero que mistura terror com elementos rurais, folclore e rituais antigos. Exemplos clássicos incluem ‘The Wicker Man’ (1973) e ‘The Witch’ (2015). Em ‘Hulk Infernal’, isso se manifesta em cenários isolados e mitologia sobrenatural arcaica.

Quando Hulk Infernal começou a ser publicado?

A fase começou em outubro de 2024 nos Estados Unidos, com a revista ‘The Incredible Hulk’ #1. No Brasil, a Panini Comics iniciou a publicação em 2025.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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