O reboot de ‘Blake’s 7’ ganha força com o diretor de ‘The Last of Us’. Analisamos por que a série precisa abandonar o estilo ‘Star Trek’ e abraçar o realismo político e o cinismo moral de ‘The Expanse’ para sobreviver ao público moderno.
Existe um nicho específico da ficção científica que a televisão britânica dominou entre o final dos anos 70 e início dos 80: histórias sombrias, politicamente carregadas, produzidas com orçamentos que mal cobriam o café da equipe. ‘Blake’s 7’ é o exemplo máximo dessa era. Criada por Terry Nation, o pai dos Daleks, a série era uma space opera sobre rebeldes enfrentando um regime totalitário que, apesar dos cenários de papelão, conquistou um culto fervoroso. Agora, o anúncio de um reboot de ‘Blake’s 7’ traz uma dúvida legítima: como atualizar um clássico definido pela precariedade sem perder o cinismo que o tornou especial?
A resposta não está em tentar emular o brilho asséptico de ‘Star Trek’, mas em olhar para ‘The Expanse’. A série da Amazon/Syfy provou que a ficção científica adulta, focada em sistemas de poder e consequências reais, é o único caminho viável para traduzir o material de Terry Nation para o público de 2026.
O legado de Terry Nation: Por que ‘Blake’s 7’ foi o anti-Star Trek
Estreando na BBC1 em 1978, ‘Blake’s 7’ foi um choque térmico para quem esperava o otimismo de Gene Roddenberry. Enquanto a Enterprise buscava novas formas de vida, Roj Blake liderava um grupo de criminosos e dissidentes a bordo da nave alienígena Liberator com um único objetivo: derrubar a Federação Terrana. O regime não era apenas um vilão distante; era uma burocracia opressora que usava drogas de controle social e vigilância constante.
A execução era brutal. Personagens morriam de forma definitiva, e os heróis eram, na melhor das hipóteses, moralmente ambíguos. Kerr Avon, o gênio da computação cínico interpretado por Paul Darrow, frequentemente roubava a cena ao questionar o idealismo de Blake. Era uma série sobre a sujeira da revolução, algo que a estética de baixo orçamento ironicamente ajudava a vender: o futuro era feio, apertado e perigoso.
O ‘fator The Last of Us’: Peter Hoar pode salvar o reboot?
O envolvimento de Peter Hoar na produção via Multitude Productions é o maior sinal de esperança para o projeto. O diretor, indicado ao Emmy por ‘The Last of Us’ (especialmente pelo magistral episódio ‘Long, Long Time’), provou ter a sensibilidade necessária para expandir universos estabelecidos sem trair sua essência. Em ‘Blake’s 7’, o desafio será o oposto de ‘The Last of Us’: em vez de humanizar um mundo pós-apocalíptico, ele precisará dar peso e textura a um universo que, visualmente, sempre pareceu frágil.
A equipe conta ainda com Matthew Bouch e Jason Haigh-Ellery, nomes veteranos do ecossistema de ‘Doctor Who’. Essa conexão sugere uma co-produção entre BBC e um streaming global — possivelmente a Disney+, seguindo o modelo atual do Doutor. O risco aqui é a diluição da agressividade política da série para agradar algoritmos globais, algo que o original nunca se preocupou em fazer.
A lição de ‘The Expanse’: Realismo político sobre melodrama espacial
Muitos apontam o reboot de ‘Battlestar Galactica’ (2004) como o modelo ideal, mas ‘The Expanse’ é um guia mais preciso para ‘Blake’s 7’. Por três razões fundamentais:
1. A Geopolítica do Vácuo: ‘The Expanse’ tratou a física e a política com o mesmo rigor. ‘Blake’s 7’ precisa que a Federação Terrana pareça uma ameaça logística real, não apenas um ‘Império do Mal’ genérico.
2. Ambiguidade sem Redenção: Holden, em ‘The Expanse’, tomava decisões desastrosas em nome do ‘certo’. Blake fazia o mesmo. O reboot precisa manter essa desconfortável verdade: às vezes, os rebeldes causam mais caos do que libertação.
3. O Protagonismo da Nave: A Liberator era quase um personagem, uma tecnologia que os protagonistas mal entendiam. ‘The Expanse’ fez o mesmo com a Rocinante. O reboot precisa evitar naves que parecem hotéis de luxo; elas devem ser máquinas de sobrevivência claustrofóbicas.
O cinismo de Avon e a Liberator: O que é inegociável
Se o reboot suavizar a relação entre o grupo, ele falhará. Os ‘sete’ não eram uma família; eram aliados de conveniência que mal se suportavam. A tensão entre o idealismo cego de Blake e o egoísmo pragmático de Avon é o motor da série. Vila Restal, o ladrão covarde, não pode ser apenas um alívio cômico, mas o reflexo do medo do homem comum diante da tirania.
Além disso, a vilã Servalan precisa manter sua complexidade. Ela não era apenas uma ditadora; era uma estrategista carismática que frequentemente superava os heróis em inteligência e recursos. Em um cenário televisivo saturado de vilões unidimensionais, uma Servalan bem escrita seria o maior trunfo da nova produção.
O desafio de 2026: Modernizar sem higienizar
O ritmo dos anos 70 é lento para os padrões atuais, e a representatividade do elenco original era limitada. O reboot tem a obrigação de expandir seu escopo, mas deve resistir à tentação de transformar ‘Blake’s 7’ em uma aventura de ação frenética. O silêncio e a paranoia eram ferramentas narrativas cruciais no original.
Com efeitos visuais modernos, a escala da Federação pode finalmente ser mostrada, mas a essência deve permanecer ‘punk’. Se o novo reboot de ‘Blake’s 7’ conseguir capturar o sentimento de que o universo é um lugar hostil onde a liberdade custa caro demais, ele poderá ocupar o vácuo deixado por ‘The Expanse’ como a nova referência de ficção científica política.
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Perguntas Frequentes sobre o Reboot de ‘Blake’s 7’
Quem está dirigindo o novo reboot de ‘Blake’s 7’?
Peter Hoar, diretor aclamado por seu trabalho em ‘The Last of Us’ e ‘It’s a Sin’, está liderando o desenvolvimento criativo do projeto através da Multitude Productions.
Onde assistir à série original ‘Blake’s 7’?
Atualmente, a série original da BBC é difícil de encontrar em streamings no Brasil, estando disponível principalmente em edições de colecionador em DVD/Blu-ray ou através do serviço britânico BritBox em algumas regiões.
Qual é a história de ‘Blake’s 7’?
A série acompanha um grupo de rebeldes e criminosos liderados por Roj Blake, que utilizam uma nave alienígena avançada para lutar contra a Federação Terrana, um governo totalitário que controla a humanidade no futuro.
Quando estreia o reboot de ‘Blake’s 7’?
Ainda não há uma data de estreia oficial. O projeto está em fases iniciais de desenvolvimento e busca parceiros de distribuição internacional (provavelmente um grande serviço de streaming).

