‘A Chegada’: por que a frase inicial redefine todo o filme

Analisamos como a icônica frase inicial de ‘A Chegada’ subverte a percepção do espectador e antecipa a reviravolta final. Descubra como Denis Villeneuve utiliza a linguagem e a técnica cinematográfica para transformar um thriller de ficção científica em uma meditação profunda sobre o tempo e a perda.

Se você é fã de ficção científica, sabe que o gênero costuma ser definido por grandes espetáculos visuais: naves pairando sobre metrópoles ou o pânico do primeiro contato. Mas em ‘A Chegada’ (2016), Denis Villeneuve faz algo muito mais sutil e, por isso, devastador. Ele não começa com um estrondo, mas com as notas melancólicas de ‘On the Nature of Daylight’, de Max Richter, e uma confissão sussurrada por Louise Banks (Amy Adams). Ao prestarmos atenção em A Chegada frase inicial — “Eu costumava pensar que este era o início da sua história” — percebemos que não estamos apenas diante de um filme sobre alienígenas, mas de um quebra-cabeça existencial sobre a natureza do tempo.

Como crítico que acompanhou a transição de Villeneuve do suspense visceral de ‘Os Suspeitos’ para a ficção científica cerebral, é fascinante notar como ele utiliza a linguagem para desorientar o espectador. Aquela primeira linha não é apenas um recurso narrativo; é um aviso. Ela estabelece, logo de cara, que a nossa percepção linear de “início, meio e fim” é uma limitação biológica, uma barreira que o filme se propõe a derrubar nos 116 minutos seguintes.

O “erro” de Louise e a armadilha da gramática cinematográfica

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A genialidade da frase “Eu costumava pensar que este era o início da sua história” reside no tempo verbal. Ao dizer “eu costumava”, Louise admite que sua compreensão do mundo sofreu uma mutação. Para quem assiste pela primeira vez, a sequência de abertura parece um prólogo trágico: o nascimento, a vida e a morte prematura de uma filha. Aceitamos isso como o passado da protagonista, o trauma que molda sua melancolia. No entanto, Villeneuve está subvertendo a nossa “gramática” visual viciada.

Nós somos condicionados a ver o que vem primeiro como o passado. Mas, em ‘A Chegada’, o início é, na verdade, o destino. A fotografia de Bradford Young, com sua profundidade de campo extremamente rasa e tons dessaturados, reforça essa sensação de que as memórias que estamos vendo não estão ancoradas em um ponto fixo do calendário, mas flutuando em uma consciência que se tornou não-linear. É uma estética que lembra o trabalho de Terrence Malick, onde a imagem serve mais à emoção do que à cronologia.

A Hipótese Sapir-Whorf: quando a língua altera a realidade

Para entender por que a frase inicial é tão poderosa, precisamos falar sobre a Hipótese Sapir-Whorf, ou relatividade linguística. No mundo real, essa teoria sugere que a estrutura de uma língua influencia a maneira como percebemos o mundo. Villeneuve e o roteirista Eric Heisserer levam isso ao extremo.

Ao aprender a escrita dos heptápodes — logogramas circulares que não possuem direção definida — o cérebro de Louise é “reprogramado”. Se a linguagem humana é um software que roda em uma linha do tempo, a linguagem alienígena é um upgrade que permite processar o tempo como um todo unificado. Aquela A Chegada frase inicial é o primeiro sintoma desse upgrade. Ela não está mais presa à sequência dos fatos; ela vê a tapeçaria completa. O que pensávamos ser uma lembrança dolorosa é, na verdade, uma premonição inevitável.

Por que ‘A Chegada’ exige (e recompensa) a segunda sessão

Por que 'A Chegada' exige (e recompensa) a segunda sessão

Minha experiência revendo este filme ao longo dos anos sempre esbarra no mesmo impacto: a cena final ressignifica cada palavra dita na abertura. É raro encontrar um filme que recompensa tanto a revisão. Na primeira vez, você tenta decifrar o mistério dos alienígenas; na segunda, você observa a tragédia e a beleza da escolha de Louise. É um exercício de empatia pura.

Diferente de épicos de invasão como ‘Independence Day’, onde o conflito é externo, aqui o clímax é uma decisão interna e silenciosa. Ao entender que sua filha morrerá jovem, Louise ainda assim escolhe seguir o caminho que leva ao nascimento dela. A frase inicial — “Eu costumava pensar que este era o início” — reflete a aceitação de que o início e o fim são apenas pontos de vista diferentes sobre a mesma experiência de amor.

Veredito: Uma aula de precisão narrativa

‘A Chegada’ confia na inteligência do público. A frase inicial é o gancho perfeito porque ela mente para o seu eu do presente para poder dizer a verdade ao seu eu do futuro — aquele que terá terminado o filme e entendido que o tempo não é algo que “passa”, mas algo que “é”. Se você busca uma obra que use o gênero para explorar o que significa ser humano e como nossas limitações de linguagem moldam nossa realidade, este filme continua sendo o padrão ouro da década.

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Perguntas Frequentes sobre ‘A Chegada’

Qual é a frase inicial de ‘A Chegada’?

A frase inicial dita por Louise Banks (Amy Adams) é: “Eu costumava pensar que este era o início da sua história”. Ela é fundamental porque revela, ao final do filme, que o que pensávamos ser o passado era, na verdade, o futuro.

O que é a Hipótese Sapir-Whorf mencionada no filme?

É a teoria da relatividade linguística, que sugere que a língua que falamos molda nossa forma de pensar. No filme, ao aprender a língua dos heptápodes, Louise passa a perceber o tempo de forma não-linear, assim como os alienígenas.

‘A Chegada’ é baseado em algum livro?

Sim, o filme é baseado no conto ‘História da Sua Vida’ (Story of Your Life), escrito por Ted Chiang e publicado originalmente em 1998.

Qual é a música que toca no início e no fim do filme?

A música marcante que abre e fecha o filme é ‘On the Nature of Daylight’, do compositor Max Richter. Embora a trilha original seja de Jóhann Jóhannsson, a peça de Richter foi escolhida por Villeneuve por sua carga emocional única.

Onde posso assistir ‘A Chegada’?

Atualmente, ‘A Chegada’ está disponível em plataformas de streaming como Netflix e Paramount+, além de estar disponível para aluguel e compra no Prime Video e Apple TV.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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