‘Conan, o Bárbaro’ vira animação: por que Tartakovsky muda tudo

A Série Conan the Barbarian será animada, mas isso não significa suavização. Analisamos como o histórico de Genndy Tartakovsky em ‘Primal’ e ‘Samurai Jack’ aponta para uma adaptação adulta, violenta e mais fiel a Robert E. Howard.

Quando anunciam que ‘Conan, o Bárbaro’ vai ganhar uma nova adaptação, a primeira imagem que muita gente ainda projeta é a de um fisiculturista besuntado em óleo corporal, espada na mão e cenário de pedra falsa ao fundo. A Prime Video, no entanto, parece ter entendido que tentar repetir Arnold Schwarzenegger seria uma armadilha. A nova Série Conan the Barbarian será animada. E, se isso soa como infantilização, o nome no comando muda completamente a leitura: Genndy Tartakovsky.

O criador de ‘Primal’ e ‘Samurai Jack’ não foi escolhido por acaso. A decisão de levar Conan para a animação não parece um atalho barato para evitar monstros em CGI; parece uma escolha de linguagem. Pela primeira vez em décadas, o personagem criado por Robert E. Howard em 1932 pode escapar das limitações do corpo real, do orçamento de set e da comparação inevitável com o filme de 1982.

O trauma de 1992 ainda assombra Conan em animação

Existe um motivo para parte do público torcer o nariz quando ouve as palavras ‘Conan’ e ‘desenho animado’ na mesma frase. Em 1992, a Ruby-Spears Productions lançou ‘Conan, o Aventureiro’, uma versão matinal, higienizada e moldada para crianças. Para quem vinha das histórias da revista ‘Weird Tales’ ou do filme dirigido por John Milius, a mudança era quase uma amputação: o cimmeriano brutal, sensual e amoral virou um herói genérico enfrentando homens-serpente com a energia de um episódio de ‘He-Man’.

Aquele projeto lavou a essência de Conan. Howard não escreveu um paladino virtuoso; escreveu um ladrão, mercenário, pirata e rei que atravessa civilizações decadentes pela força, pela astúcia e por uma recusa quase animal a se ajoelhar. O preconceito ocidental de que animação é, por definição, território infantil sempre foi o inimigo errado aqui. O problema nunca foi Conan ser animado. O problema foi animarem Conan como se ele precisasse pedir desculpas por ser Conan.

Por que ‘Primal’ é o verdadeiro teste para a Série Conan the Barbarian

Se existe uma obra recente que explica por que Tartakovsky faz sentido para Conan, não é ‘O Laboratório de Dexter’. É ‘Primal’. Na série do Adult Swim, acompanhamos Spear, um homem pré-histórico, e Fang, uma tiranossauro, em um mundo onde sobreviver exige esmagar, morder, sangrar e seguir em frente. O detalhe importante: a série praticamente dispensa diálogos. Tudo é contado por silhueta, ritmo, respiração, impacto e corte.

A violência em ‘Primal’ não funciona como enfeite gore. Ela tem gramática. No primeiro episódio, quando Spear perde a família e Fang perde seus filhotes, Tartakovsky não transforma o luto em discurso; ele deixa o corpo dos personagens reagir. Ombros caem. Mandíbulas travam. O silêncio pesa mais que qualquer monólogo. Quando a ação explode, a montagem alterna pausas secas e golpes brutais para que cada mordida pareça consequência emocional, não coreografia vazia.

É exatamente essa lógica que Conan exige. A Era Hiboriana não deveria parecer um parque temático medieval. Ela precisa ter lama, suor, deuses indiferentes, feitiçaria repulsiva e violência com peso físico. A animação permite exagerar anatomia, deformar movimentos e transformar sangue em linguagem visual sem cair no constrangimento de um CGI apressado.

Bêlit é o sinal de que a série não pode ser infantil

Bêlit é o sinal de que a série não pode ser infantil

A premissa divulgada coloca Conan tentando salvar Bêlit, a rainha pirata, de uma feitiçaria sombria. Isso importa. Bêlit não é uma parceira romântica decorativa no cânone de Howard; em ‘A Rainha da Costa Negra’, ela é desejo, poder, ruína e mito. A relação entre os dois tem paixão, violência, obsessão e tragédia. É uma das histórias que melhor sintetizam o romantismo sombrio de Conan: ele ama como luta, e luta como se desafiar a morte fosse apenas uma forma de continuar respirando.

Não há como adaptar essa dinâmica honestamente dentro de uma lógica infantil. Se Tartakovsky se aproximar de Bêlit com a mesma seriedade física e emocional que deu a Spear e Fang em ‘Primal’, a série pode entregar algo raro: fantasia adulta que não confunde maturidade com filtro cinza e diálogos solenes. Conan não precisa ser ‘Game of Thrones’ de tanga. Precisa ser Howard com nervo exposto.

De ‘Samurai Jack’ à Hyboria: Tartakovsky aprendeu a filmar violência

O histórico de Tartakovsky é mais amplo do que muita gente lembra. Sim, ele criou ‘O Laboratório de Dexter’ e comandou a micro-série 2D de ‘Star Wars: Clone Wars’. Mas ‘Samurai Jack’ foi o laboratório onde ele refinou uma ideia essencial para Conan: ação pode ser narrativa sem virar barulho.

Na fase original de ‘Samurai Jack’, a censura era contornada com robôs cortados ao meio, óleo preto jorrando e composições quase abstratas. Já a quinta temporada, lançada em 2017, envelhece o herói e permite que a lâmina encontre carne, culpa e trauma. O episódio em que Jack enfrenta as Filhas de Aku funciona quase como um ensaio para Conan: pouca fala, perseguição constante, corpos surgindo das sombras, cortes que não celebram a morte, mas mostram o custo de continuar matando.

Essa evolução autoral pesa mais do que qualquer promessa de marketing. Tartakovsky sabe fazer espetáculo, mas também sabe quando retirar som, quando alongar um plano e quando deixar a violência acontecer fora do centro exato da tela. Em Conan, esse domínio pode transformar batalhas contra feiticeiros, piratas e criaturas antigas em algo mais expressivo do que uma sequência de golpes bonitos.

A animação liberta Conan do maior fantasma do live-action: Arnold

A animação liberta Conan do maior fantasma do live-action: Arnold

O filme de 1982 é um clássico, e a presença de Schwarzenegger definiu visualmente o bárbaro para gerações. O problema é que toda tentativa em live-action nasce condenada a negociar com esse fantasma. Ou imita Arnold e parece cosplay caro, ou tenta se afastar demais e perde a imagem icônica do personagem. O remake de 2011, com Jason Momoa, tinha energia física, mas ficou preso a um visual digital genérico que nunca encontrou a estranheza pulp de Howard.

A animação muda o jogo porque não precisa escalar outro corpo para competir com Schwarzenegger. Ela pode desenhar Conan como força mitológica, não como fisiculturista específico. Pode fazer uma cidade parecer antiga demais para ser humana, um templo parecer contaminado por magia cósmica, uma criatura parecer saída de um pesadelo lovecraftiano. A câmera pode voar, esmagar perspectiva, reduzir personagens a silhuetas vermelhas contra o fogo. Em live-action, isso custa milhões e envelhece rápido. Em 2D bem dirigido, vira estilo.

O que esperar: menos nostalgia, mais barbárie adulta

A melhor notícia sobre essa nova versão é que ela não parece interessada em refazer o filme de 1982 quadro a quadro. Também não precisa pedir licença ao desenho de 1992. A escolha de Tartakovsky aponta para outro caminho: um Conan mais próximo da violência mítica, do horror físico e da fantasia pulp que sempre estiveram no DNA de Robert E. Howard.

Claro, ainda há riscos. Uma série animada de Conan precisa de liberdade real para ser adulta, não apenas uma classificação indicativa mais alta no papel. Precisa de design de produção que abrace o grotesco, de som que dê peso aos golpes, de montagem que saiba alternar contemplação e carnificina. Se a Prime Video tentar suavizar demais o material, o formato por si só não salvará nada.

Mas, no papel, a combinação é forte. Tartakovsky entende corpos em movimento, entende silêncio e entende violência como linguagem. Conan precisa exatamente disso. A animação não é um downgrade; é talvez a primeira chance em muito tempo de mostrar a Era Hiboriana sem pedir desculpas por sua brutalidade crua e seu niilismo romântico. Se alguém esperava um desenho para sábado de manhã, está olhando para o bárbaro errado.

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Perguntas Frequentes sobre a Série Conan the Barbarian

Onde assistir à nova Série Conan the Barbarian?

A nova série animada de ‘Conan, o Bárbaro’ foi anunciada para a Prime Video. Até a publicação deste artigo, a plataforma ainda não havia confirmado uma data de estreia.

A Série Conan the Barbarian será para adultos?

A expectativa é que sim, especialmente pelo envolvimento de Genndy Tartakovsky, conhecido por ‘Primal’, uma animação adulta e violenta. A classificação indicativa oficial, porém, ainda precisa ser confirmada pela Prime Video.

Preciso assistir ao filme de 1982 antes da série?

Não deve ser necessário. A nova série parece partir do universo literário de Robert E. Howard, não de uma continuação direta do filme com Arnold Schwarzenegger.

Quem é Bêlit em ‘Conan, o Bárbaro’?

Bêlit é a rainha pirata de ‘A Rainha da Costa Negra’, uma das histórias mais famosas de Robert E. Howard. Ela é uma figura central na mitologia de Conan por sua relação intensa, trágica e violenta com o bárbaro.

Quem é Genndy Tartakovsky?

Genndy Tartakovsky é o criador de ‘O Laboratório de Dexter’, ‘Samurai Jack’ e ‘Primal’. Seu estilo combina ação visual precisa, pouco diálogo, uso expressivo de silêncio e violência estilizada.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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