‘A Múmia 4’ pode acertar justamente por fazer o que Hollywood quase nunca faz: admitir o erro e resetar a franquia. Analisamos por que o retorno de Brendan Fraser e Rachel Weisz, somado ao descarte do filme de 2008, é a melhor estratégia para recuperar a saga.
Hollywood adora vender recomeços, mas quase sempre escolhe o caminho mais covarde: rebootar tudo, explicar demais ou fingir que continuidade não importa até o público perceber que nada faz sentido. ‘A Múmia 4’, ao que tudo indica, vai por uma rota mais direta e muito mais inteligente. Em vez de tentar remendar o desgaste de 2008, o novo filme abraça um reset seletivo: traz de volta Brendan Fraser e Rachel Weisz e trata o terceiro capítulo como um desvio dispensável. Para uma franquia que sempre dependeu mais de química e tom do que de mitologia rígida, essa decisão faz mais sentido do que qualquer malabarismo de roteiro.
Por que ignorar o filme de 2008 é a decisão certa
O ponto central aqui não é só apagar um capítulo mal recebido. É entender o que foi perdido em ‘A Múmia: Tumba do Imperador Dragão’. O problema daquele filme nunca foi apenas trocar Egito por China, nem apenas aumentar a escala da ação. O estrago maior foi tonal. Os dois primeiros longas funcionavam porque equilibravam aventura pulp, flerte cômico e perigo sobrenatural com uma leveza quase de matinê. O terceiro, em comparação, parecia mais barulhento do que divertido.
A substituição de Rachel Weisz por Maria Bello virou o símbolo desse desgaste porque expôs a fissura mais visível: sem a dinâmica entre Rick e Evelyn, a engrenagem perdeu o centro. Fraser continuava tentando sustentar o espírito fanfarrão da série, mas o filme já não tinha o mesmo timing romântico nem o mesmo senso de descoberta. Quando se fala que ‘A Múmia 4’ deve ignorar esse capítulo, não se trata de birra de fã. Trata-se de uma leitura correta sobre identidade de franquia.
Esse tipo de retcon, aliás, não é novidade em Hollywood. ‘Halloween’ (2018) apagou sequências inteiras para recuperar a força do original de John Carpenter. ‘O Exterminador do Futuro: Destino Sombrio’ tentou operação parecida. A diferença é que, no caso de ‘A Múmia’, o reset parece menos uma manobra desesperada e mais um retorno ao elemento que sempre vendeu a série: a dupla principal.
Brendan Fraser aprovar o roteiro importa pelo que sinaliza
Fraser disse à Collider que leu o roteiro e gostou. Isoladamente, isso seria só uma declaração promocional. Mas, no contexto de A Múmia 4, a fala vale como termômetro. Fraser conhece esse personagem por dentro; sabe o quanto Rick O’Connell depende de um equilíbrio delicado entre heroísmo, ironia e vulnerabilidade física. Se o ator fala em ‘reencontro da banda’, ele está apontando para algo que os fãs entendem instintivamente: esses filmes nunca foram só sobre maldições antigas, tumbas ou exércitos de CGI. Eram sobre um grupo de personagens que funcionava junto.
Rick e Evelyn tinham uma energia rara para blockbusters do período. Ele entrava em cena com bravata; ela respondia com inteligência, nervosismo e curiosidade acadêmica. O romance era crível porque nascia do atrito entre personalidades diferentes. Em termos de escrita, isso fazia os diálogos andarem. Em termos de encenação, dava aos filmes uma leveza que os separava de aventuras mais sisudas do fim dos anos 1990.
Trazer Rachel Weisz de volta, portanto, não é só fan service. É uma correção estrutural. É reconhecer que a protagonista não era acessória nem substituível. Sem Evelyn, Rick vira apenas mais um herói de ação cansado. Com ela, a série recupera sua faísca.
O novo time criativo sugere um terror mais físico e menos plástico
Outro dado relevante é quem está por trás das câmeras. Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, dupla associada a ‘Pânico’ (2022) e ‘Abigail’, costumam trabalhar bem com dois elementos que interessam muito a essa franquia: ritmo e mistura de tons. Eles entendem como alternar humor, susto e violência sem desmontar a cena. Isso importa porque ‘A Múmia’ de 1999 nunca foi aventura pura; havia um componente de horror corporal e de ameaça monstruosa que o público às vezes esquece.
Basta lembrar momentos específicos do original: os escaravelhos correndo sob a pele, a decomposição gradual de Imhotep, ou o desenho sonoro das pragas que transformava corredores e câmaras funerárias em espaços de pânico real. Stephen Sommers filmava isso com energia de parque temático, sim, mas também com senso de espetáculo físico. Não era terror extremo, mas tampouco era inofensivo.
Se Bettinelli-Olpin e Gillett levarem para A Múmia 4 a mesma precisão de set pieces vista em ‘Abigail’, o resultado pode ser um filme menos genérico do que a média dos blockbusters atuais. A esperança é que a ação volte a ter geografia clara, que o humor não seja só piadinha autoconsciente e que o horror recupere textura. A promessa de filmagens em locação, no Marrocos e no Reino Unido, reforça essa possibilidade: areia, ruínas, poeira, figurino gasto e luz dura costumam criar uma materialidade que nenhum fundo digital reproduz direito.
O retorno de Fraser ganha força porque ele volta em outra fase da carreira
Existe também um componente extra de interesse: Brendan Fraser não retorna como relíquia de uma era esquecida. Ele volta depois de uma revalorização artística real. O Oscar por ‘A Baleia’ reorganizou sua imagem pública, mas o ponto mais interessante é outro: hoje ele carrega um peso dramático e uma fragilidade visível que não tinha em 1999. Isso pode enriquecer Rick O’Connell, caso o roteiro saiba usar a idade do personagem a favor do filme.
Em vez de fingir que nada passou, A Múmia 4 tem a chance de transformar o envelhecimento em parte da aventura. Um Rick mais cansado, menos invulnerável e mais dependente da parceria com Evelyn pode ser mais interessante do que uma simples tentativa de repetir poses antigas. É aqui que nostalgia com propósito se separa de nostalgia mecânica: não basta reunir o elenco; é preciso encontrar um novo ponto de vista para esses personagens.
John Hannah de volta como Jonathan ajuda justamente nesse equilíbrio. O personagem sempre funcionou como válvula cômica, mas também como lembrete de que a franquia dependia de um senso de bagunça familiar. E a possível volta de Oded Fehr como Ardeth Bay acrescentaria o elo com a dimensão mística da série, além de recuperar uma presença que dava gravidade ao caos dos protagonistas.
Para quem ‘A Múmia 4’ pode funcionar — e para quem talvez não
Se o filme cumprir o que essa estratégia promete, ele deve agradar principalmente quem sente falta de aventuras sobrenaturais com cara de cinema popular dos anos 1990 e 2000: ação legível, romance, criaturas, humor e um pé no terror. Também tende a interessar a quem viu no fracasso do universo sombrio da Universal com Tom Cruise a prova de que nem toda franquia precisa virar máquina de lore.
Por outro lado, quem espera algo completamente reinventado, mais sombrio e solene, talvez encontre um projeto deliberadamente nostálgico. E isso não é defeito por si só. O risco está em confundir retorno às origens com repetição preguiçosa. O melhor cenário para A Múmia 4 é ser fiel ao espírito dos originais sem tentar copiá-los plano a plano.
No momento, o que existe de mais promissor não é apenas a aprovação de Brendan Fraser ao roteiro. É a lógica por trás de toda a operação. A franquia parece ter entendido que seu problema nunca foi falta de escala, e sim perda de identidade. Ignorar o terceiro filme pode soar radical no papel, mas é precisamente essa coragem que torna o projeto interessante. Em vez de fingir que toda continuação merece reverência, ‘A Múmia 4’ aposta que memória afetiva também exige curadoria. E, desta vez, a curadoria parece correta.
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Perguntas Frequentes sobre ‘A Múmia 4’
‘A Múmia 4’ vai ignorar mesmo o terceiro filme?
Segundo as informações divulgadas até agora, sim. O novo projeto trabalha com a ideia de resgatar a continuidade dos dois primeiros filmes e deixar de lado os eventos de ‘A Múmia: Tumba do Imperador Dragão’, lançado em 2008.
Rachel Weisz vai voltar em ‘A Múmia 4’?
As notícias sobre o projeto apontam para o retorno de Rachel Weisz como Evelyn. Isso faz parte da estratégia de reunir novamente a dupla central dos dois primeiros filmes, ao lado de Brendan Fraser.
Quando estreia ‘A Múmia 4’?
A previsão mencionada nas informações atuais é outubro de 2027. Como se trata de uma produção ainda em desenvolvimento, a data pode mudar conforme o andamento das filmagens.
Quem dirige ‘A Múmia 4’?
O filme está associado a Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett, dupla conhecida por trabalhos como ‘Pânico’ e ‘Abigail’. A escolha sugere uma abordagem com mais energia de terror e ação física.
‘A Múmia 4’ vale a pena para quem não gostou do terceiro filme?
Em tese, sim. Justamente porque o novo longa parece reconhecer que o terceiro afastou a franquia do que funcionava, a proposta de retorno ao tom e ao elenco originais deve atrair quem se decepcionou em 2008.

