‘Euphoria’ encerra na 3ª temporada: o erro de Sam Levinson e o luto de Rue

Na Euphoria 3 temporada final, Sam Levinson transforma a morte de Rue em choque tardio e enfraquece o que a série tinha de mais humano. Esta análise compara o finale da HBO ao desfecho da minissérie israelense original para mostrar onde a profundidade se perdeu.

‘In God We Trust’ é o título do último episódio. Depois de ver a Euphoria 3 temporada final, a sensação que fica é outra: para Sam Levinson, o lema parece ter sido ‘In Shock We Trust’. Sete anos depois de transformar brilho neon, sexo, recaída e ansiedade em linguagem pop, a série da HBO se despede com recepção fria: 39% de aprovação do público e 40% da crítica no Rotten Tomatoes. Desta vez, os números não parecem reação exagerada. Parecem diagnóstico.

A morte de Rue Bennett era uma hipótese antiga, quase embutida no DNA da série desde o piloto. O problema nunca foi matar a personagem. O problema foi como isso acontece. Ao optar por um desfecho fatal no último ato, Levinson troca acúmulo dramático por impacto instantâneo. E quando se compara essa decisão ao fim da minissérie israelense de 2012 que inspirou ‘Euphoria’, a diferença fica ainda mais dura: lá, a morte estrutura o sentido; aqui, ela serve ao choque.

Rue morre, mas a tragédia chega sem a preparação que a série prometia

Rue morre, mas a tragédia chega sem a preparação que a série prometia

Rue estava limpa. A segunda temporada construiu sua recuperação como um processo feio, humilhante e incompleto: a intervenção da mãe, o confronto com Ali, a fuga desesperada, a devastação deixada em cada relação. O arco apontava para algo mais difícil e mais honesto do que uma grande punição final: sobreviver um dia de cada vez.

Por isso a escolha da terceira temporada soa tão artificial. Rue morre depois de ingerir analgésicos fornecidos por Alamo, contaminados com fentanila. Dramaticamente, a jogada tem peso imediato. Mas não tem densidade. Em vez de nascer de uma decisão devastadora da própria personagem, de uma recaída construída com ambivalência moral, a morte chega como mecanismo externo. A consequência é simples: o episódio quer luto, mas produz frustração.

A cena em que Ali encontra o corpo de Rue tenta buscar catarse pelo silêncio e pelo choque visual. Zendaya, mesmo ausente em grande parte do impacto posterior, ainda paira sobre o episódio, e Colman Domingo sustenta o momento com sobriedade. Mas a direção apressa o trauma e logo o converte em gatilho para um arco de vingança. Aí o desfecho perde o eixo de vez. O que deveria encerrar uma série sobre vício, culpa e intimidade vira um clímax que flerta com thriller criminal genérico.

A minissérie israelense entendia o luto; Sam Levinson preferiu o susto

É aqui que a comparação deixa de ser curiosidade de bastidor e passa a ser chave crítica. A ‘Euphoria’ original, minissérie israelense criada por Ron Leshem em 2012, também parte da morte da jovem que ocupa o lugar equivalente ao de Rue. Só que ali a personagem já está morta desde o início. Ela narra como fantasma. Não é um truque de roteiro; é a própria estrutura da obra.

Essa decisão muda tudo. A morte deixa de funcionar como surpresa e passa a contaminar cada cena com ausência, culpa e memória. O espectador não é empurrado a reagir ao susto, mas convidado a viver dentro do luto. A adicção, nessa lógica, já é apresentada como ruína consumada, e a narrativa ganha uma camada trágica mais coerente.

Na versão da HBO, Levinson inverte esse princípio. Em vez de usar a morte como ponto de partida para pensar a devastação que ela deixa, ele a guarda como carta final. O efeito é mais barulhento e muito menos profundo. O choque substitui a elaboração. E isso é especialmente frustrante numa série que, em seus melhores momentos, sabia desacelerar para observar como o sofrimento se infiltra no cotidiano.

Quando ‘Euphoria’ troca observação por espetáculo, ela perde o próprio tom

Quando 'Euphoria' troca observação por espetáculo, ela perde o próprio tom

O problema do final não está isolado. Ele resume uma deriva que a terceira temporada já vinha exibindo. ‘Euphoria’ sempre foi excessiva: luzes pulsantes, trilha invasiva, câmera deslizando entre desejo e vertigem. Mas antes havia um centro emocional que organizava esse excesso. Agora, sobra estilo e falta ponto de vista.

O arco de Cassie Howard deixa isso claro. O que antes parecia um retrato cruel da necessidade de validação, da fragilidade emocional e da exposição do corpo feminino se transforma, aqui, em insistência imagética sem a mesma complexidade. A câmera de Levinson continua fascinada por seus personagens, mas com menos curiosidade humana e mais impulso de consumo visual. Não é apenas uma questão moral; é uma questão dramática. Quando a mise-en-scène para de revelar algo novo sobre quem está em quadro, ela vira decoração.

Também tecnicamente a temporada denuncia esse desgaste. A fotografia mantém o acabamento luxuoso, com contraluzes dourados e texturas granuladas que preservam a identidade visual da série, mas a montagem já não cria a mesma tensão interna entre memória, fantasia e presente. Em temporadas anteriores, cortes abruptos e elipses emocionais aprofundavam o estado mental de Rue. No final, muitos desses recursos soam como repetição de assinatura, não como extensão da dor das personagens.

O melhor momento do episódio final não é a morte de Rue, mas o sonho com Fez

Curiosamente, a sequência mais forte do encerramento não depende do twist fatal. Ela vem no sonho em que Rue reencontra Fez, personagem de Angus Cloud. Ali, pela primeira vez no episódio, ‘Euphoria’ abaixa o volume. Não há necessidade de superlinhar nada. O peso da cena nasce do que está fora da ficção: a morte real de Cloud, a interrupção brutal de uma presença que se tornara uma das mais delicadas da série.

Esse encontro funciona porque devolve a ‘Euphoria’ algo que o restante do finale parece esquecer: intimidade. A relação entre Rue e Fez nunca precisou de grandes discursos para convencer. Bastava a maneira como os dois dividiam o silêncio. No sonho, Levinson finalmente encontra uma imagem à altura do luto que quer filmar. Por alguns minutos, a série deixa de performar tragédia e passa a senti-la.

É também a melhor prova de que o problema não era inevitável. ‘Euphoria’ ainda sabia ser tocante quando abandonava a tentação do impacto máximo. Ainda sabia que, às vezes, o gesto menor fere mais fundo.

Para quem esse final funciona — e para quem dificilmente vai funcionar

Se você acompanha ‘Euphoria’ pelo excesso estilístico, pela disposição de levar melodrama adolescente ao limite e pela vontade de ver a série se reinventar como tragédia operística, talvez o final encontre alguma defesa. Há imagens fortes, performances comprometidas e uma ambição formal que continua visível.

Mas, para quem esperava coerência com o arco de recuperação de Rue, respeito ao tema da adicção e um fechamento menos cínico, a decepção é difícil de contornar. O episódio pede que o público aceite a morte da protagonista como desfecho inevitável, quando o que ele oferece é, na verdade, um atalho narrativo.

No fim, ‘Euphoria’ não termina apenas com a morte de Rue. Termina com uma escolha criativa que expõe o erro central de Sam Levinson nesta reta final: confundir intensidade com profundidade. A minissérie israelense original entendia que a tragédia precisa reorganizar toda a narrativa para fazer sentido. A HBO preferiu reservar a tragédia para os últimos minutos e chamá-la de coragem. Não é a mesma coisa.

Se restava alguma dúvida sobre o legado da Euphoria 3 temporada final, ela está justamente aí. Não foi um encerramento devastador porque encarou a dor de frente. Foi devastador porque revelou o quanto a série se afastou daquilo que fazia dela mais do que um desfile de imagens bonitas em colapso.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Euphoria’ e seu final

‘Euphoria’ termina na 3ª temporada?

Sim. A 3ª temporada encerra oficialmente a história principal da série e funciona como desfecho de Rue e dos demais personagens centrais.

Rue morre no final da 3ª temporada de ‘Euphoria’?

Sim. O encerramento mostra a morte de Rue após ingerir analgésicos contaminados com fentanila, decisão que se tornou o ponto mais controverso do final.

‘Euphoria’ é baseada em outra série?

Sim. A versão da HBO é adaptada de uma minissérie israelense de 2012 criada por Ron Leshem. A obra original tem abordagem diferente para a morte da personagem equivalente a Rue.

Preciso ver a série israelense original para entender o final de ‘Euphoria’?

Não. O final da HBO é compreensível sozinho. Mas conhecer a produção israelense ajuda a perceber como a adaptação trocou uma estrutura mais trágica e reflexiva por um encerramento baseado em choque.

Vale a pena ver a 3ª temporada de ‘Euphoria’ mesmo com a recepção negativa?

Vale se você já acompanha a série e quer ver como Rue termina. Para quem busca um retrato mais consistente sobre adicção e trauma, a temporada final pode soar frustrante e irregular.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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