De viral a franquia: os planos de Kane Parsons para ‘Backrooms: Um Não-Lugar’

A Backrooms Um Não-Lugar franquia pode redefinir como Hollywood adapta fenômenos da internet. Analisamos por que Kane Parsons quer manter o YouTube ativo mesmo com a A24 e como isso muda o futuro do lore, do gênero e da autonomia criativa.

Já vimos essa história antes: um criador do YouTube explode na internet, assina com um estúdio de Hollywood e abandona as raízes digitais para virar um ‘cineasta de verdade’. A regra informal sempre foi simples: ou você fica com a espontaneidade da web, ou aceita a padronização industrial do cinema. Kane Parsons, aos 20 anos e confirmado como o diretor mais jovem da história da A24, está tentando invalidar essa lógica. Com ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ em cartaz, ele não está apenas adaptando uma creepypasta famosa: está desenhando uma Backrooms Um Não-Lugar franquia que quer existir ao mesmo tempo como filme de estúdio, universo expandido e experiência contínua no YouTube.

Esse é o ponto realmente incomum da operação. O mais interessante aqui não é só que o viral virou longa; isso já aconteceu outras vezes. A diferença é que Parsons não trata o cinema como etapa superior de uma carreira, mas como uma camada nova dentro de um ecossistema que já funcionava. Em vez de trocar o YouTube pela A24, ele parece decidido a usar um para alimentar o outro.

Por que o YouTube continua sendo parte central do projeto

Por que o YouTube continua sendo parte central do projeto

Para entender a lógica dessa expansão, é preciso voltar ao DNA de ‘Backrooms’. A imagem original, surgida como lenda visual de internet, já carregava quase tudo que tornou o conceito tão compartilhável: carpete amarelado, fluorescentes agressivos, vazio arquitetônico e a sensação de estar preso num espaço que parece banal e errado ao mesmo tempo. Parsons transformou esse desconforto abstrato numa mitologia mais organizada ao criar o Instituto de Pesquisa Async e tratar o material como arquivo encontrado, relatório encoberto e acidente de realidade.

Nos vídeos do canal, a força nunca esteve apenas na criatura ou no susto. Ela está na textura. Imagem comprimida, movimentos secos de câmera, ruído digital, silêncio prolongado e enquadramentos que parecem capturados por acaso. É uma estética de baixa fidelidade construída com precisão. O efeito funciona porque o espectador sente que aquilo poderia ter sido descoberto, não produzido.

Por isso faz sentido Parsons dizer que quer continuar ‘engajando com o YouTube, até certo ponto’, mesmo após o salto para a A24. Não é apego nostálgico à plataforma. É entendimento de linguagem. O YouTube oferece algo que o cinema não replica com facilidade: circulação fragmentada, sensação de achado, comentário comunitário em tempo real e a lógica quase arqueológica do ARG, em que cada vídeo parece uma pista. Se ele abandonasse esse terreno, perderia justamente a camada de credibilidade falsa que ajudou ‘Backrooms’ a virar fenômeno.

Há também um dado prático importante: franquias de terror costumam gastar fortunas tentando fabricar comunidade. Parsons já chega com uma. Mais de 3,1 milhões de inscritos e centenas de milhões de visualizações não são só números de vaidade; são prova de que o universo já tinha vocabulário, fandom e repertório antes de Hollywood entrar em cena.

O que a A24 parece ter entendido sobre controle criativo

A transição de internet para cinema normalmente cobra um preço: padronização. A indústria aceita a energia autoral do criador, mas costuma exigir que ela seja traduzida para formatos mais previsíveis, mais vendáveis e menos estranhos. Foi assim, em graus diferentes, com cineastas que vieram do digital ou do curta-metragem. A pergunta natural em torno de Parsons era se a A24 transformaria um projeto nascido do improviso inquietante da web em um produto de terror mais domesticado.

Pelo que o próprio diretor relatou, não foi isso que aconteceu. Ao comentar a possibilidade de seguir publicando material ligado ao universo no YouTube, Parsons indicou que a A24 foi criativamente ‘hands-off’, confiando no julgamento dele sobre como distribuir e expandir essa mitologia. Esse detalhe importa mais do que parece.

Num mercado em que estúdios tentam centralizar tudo em campanhas rigidamente controladas, permitir que o criador mantenha uma extensão viva do projeto fora do circuito tradicional é quase um ato de inteligência estratégica. A A24 aparentemente entendeu que, no caso de ‘Backrooms: Um Não-Lugar’, a autenticidade percebida é parte do valor da marca. Tirar Parsons do YouTube seria como pedir que um found footage deixasse de parecer encontrado.

Há um paralelo útil aqui com o que aconteceu em outros casos de transição digital, como os irmãos Philippou depois de ‘RackaRacka’ e antes de ‘Fale Comigo’. A diferença é que Parsons trabalha com um universo que depende ainda mais do mistério processual e da expansão modular. Seu material não funciona só como calling card de um diretor promissor; funciona como peça de lore. Isso muda a natureza da negociação com o estúdio.

Uma franquia de terror que quer escapar do próprio gênero

Uma franquia de terror que quer escapar do próprio gênero

O trecho mais revelador da fala de Parsons talvez seja outro: a ideia de que a série não deveria ser definida por um único rótulo de gênero. Em Hollywood, franquia costuma significar repetição eficiente. Você encontra a fórmula do primeiro sucesso e a reproduz até o desgaste. Parsons descreve o oposto. O plano é expandir ‘The Complex’ até o ponto em que novas histórias possam migrar para outras tonalidades narrativas.

Isso é mais ambicioso do que parece no papel. Em vez de tratar os Backrooms apenas como cenário para perseguições e sustos, Parsons sugere um universo capaz de comportar ficção científica conspiratória, techno-thriller, horror cósmico e até drama interpessoal. A referência implícita não é tanto a longevidade mecânica de franquias como ‘Invocação do Mal’, mas a elasticidade de mundos ficcionais que sobrevivem porque mudam de foco sem perder identidade.

Se essa promessa se cumprir, o centro dramático deixa de ser apenas a criatura no corredor e passa a incluir a burocracia do Async, seus experimentos, a ética da pesquisa e o custo humano de transformar um espaço impossível em objeto de exploração. É aí que o projeto ganha densidade. O medo liminal continua, mas como base de algo maior: uma narrativa sobre instituições que tentam administrar o incompreensível.

Essa talvez seja a passagem mais fértil para a Backrooms Um Não-Lugar franquia. O horror da internet quase sempre nasce de uma imagem forte; para durar, precisa virar estrutura dramática. Parsons parece saber disso. Quando diz que as sequências são intenção desde 2022 e que o longa é só o primeiro passo rumo ao ‘verdadeiro coração da ideia’, ele admite um limite importante do formato de curta: sugestão sustenta impacto imediato, mas não sustenta sozinho uma saga.

Onde o longa precisa provar que o lore aguenta escala

Existe, claro, um risco embutido nesse plano. O que é perturbador em vídeos curtos e fragmentados nem sempre resiste à ampliação para duas horas ou para vários capítulos de uma franquia. O terror liminal vive de lacuna, repetição e sensação de acesso proibido. Quanto mais o universo explica, hierarquiza e organiza seu próprio funcionamento, maior a chance de perder o que o tornava estranho.

É por isso que o filme da A24 tem uma tarefa delicada: ampliar sem normalizar. Em termos cinematográficos, isso depende menos de exposição verbal e mais de linguagem. Som de ambiência sufocante, profundidade de campo que alonga corredores além do confortável, montagem que preserve desorientação espacial e design de produção capaz de transformar ambientes corporativos em armadilha metafísica. Quando ‘Backrooms’ funciona, funciona porque o espaço parece rejeitar a lógica humana.

Mesmo sem entrar em spoilers, dá para dizer que esse é o tipo de material em que uma única sequência de exploração vale mais do que páginas de explicação. Quando a câmera demora um segundo a mais diante de uma esquina vazia ou deixa o zumbido fluorescente dominar a cena, o projeto recupera a força original dos vídeos: o medo de que o banal tenha sido discretamente corrompido.

Também é aí que Parsons precisará se provar como diretor de longa, não apenas como criador de atmosfera viral. Curta aceita conceito forte. Franquia exige arquitetura narrativa. Uma coisa é inventar uma imagem que gruda no imaginário; outra é sustentar personagens, progressão dramática e mudança de tom sem diluir a identidade visual e sensorial do universo.

O que essa estratégia pode mudar para criadores que vêm da internet

No fim, o caso de Kane Parsons interessa menos como curiosidade de bastidor e mais como teste de modelo. Se essa operação funcionar, ela oferece uma alternativa rara ao caminho tradicional do criador digital absorvido por Hollywood. Em vez de ser reformatado para caber no cinema, Parsons pode provar que um autor nascido na internet consegue levar consigo não só sua estética, mas também sua lógica de distribuição e de construção de comunidade.

Isso ajuda a explicar por que ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ chama atenção além do fandom do horror analógico. O projeto pode marcar uma mudança de poder, ainda que pequena: o estúdio bancando a escala, enquanto o criador preserva a incubadora original de ideias no YouTube. É uma relação mais próxima de expansão do que de assimilação.

Para quem acompanha terror, cultura digital e o futuro das franquias, esse é o verdadeiro interesse do caso. Se você gosta de horror mais atmosférico, de lore montado em camadas e de ficção científica conspiratória, há muito o que observar aqui. Se sua expectativa é apenas por sustos rápidos e uma mitologia toda mastigada, talvez a proposta pareça mais conceitual do que satisfatória. De todo modo, Parsons já entendeu algo que muitos estúdios ainda fingem não ver: certos universos nascidos online perdem força quando são arrancados do ambiente que lhes deu sentido. A aposta dele é não cometer esse erro.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Backrooms: Um Não-Lugar’

Quem é Kane Parsons?

Kane Parsons é o criador da série ‘The Backrooms’ no YouTube e diretor de ‘Backrooms: Um Não-Lugar’. Ele ganhou notoriedade ainda adolescente ao transformar a creepypasta em uma mitologia audiovisual com linguagem de found footage e ficção científica.

‘Backrooms: Um Não-Lugar’ é baseado em uma creepypasta?

Sim. O filme nasce do imaginário da creepypasta dos Backrooms, popularizada por uma imagem viral de corredores vazios e amarelados. Kane Parsons expandiu esse conceito no YouTube ao criar personagens, experimentos e a organização Async.

Preciso ver os vídeos do YouTube para entender ‘Backrooms: Um Não-Lugar’?

Não necessariamente. O longa foi pensado para funcionar por conta própria, mas ver os vídeos de Kane Parsons ajuda a entender melhor o lore, o papel do Async e a lógica estética que deu origem ao projeto.

A franquia de ‘Backrooms: Um Não-Lugar’ vai continuar no YouTube?

Segundo o próprio Kane Parsons, sim, ao menos em alguma medida. A intenção é manter o YouTube como espaço de expansão do universo, em paralelo aos filmes produzidos com a A24.

‘Backrooms: Um Não-Lugar’ terá sequência?

Kane Parsons já indicou que as continuações não são apenas uma possibilidade, mas parte do plano desde 2022. A ideia é transformar o universo em uma franquia capaz de explorar outros gêneros além do horror puro.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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