Vinte anos depois, reavaliamos X-Men O Confronto Final sem nostalgia cega: o roteiro continua confuso, mas o filme sobrevive pela energia, pelas imagens de impacto e por um senso de espetáculo que ‘Fênix Negra’ nunca encontrou.
Em 2006, saí do cinema sentindo que o universo mutante havia desabado. A promessa de uma saga épica da Fênix Negra se dissolveu em 104 minutos de roteiro atropelado. Mas duas décadas e um desastre chamado ‘Fênix Negra’ (2019) depois, é hora de revisar o veredito: X-Men O Confronto Final não é o fundo do poço da franquia. É um filme que se salva pelo único critério que realmente importa em muito blockbuster de estúdio: a capacidade de entreter apesar dos próprios erros.
O problema nunca foi só Brett Ratner — foi a pressa de adaptar duas sagas de uma vez
Vamos começar pelo que ainda incomoda. ‘X-Men: O Confronto Final’ tenta condensar duas frentes dramáticas grandes demais para o tempo que tem: a trama da Cura, que toca no coração político dos X-Men, e a transformação de Jean Grey em Fênix, que exigia uma construção mais gradual desde ‘X2’. O resultado é um filme que corre o tempo todo. Corre para matar Cyclops sem dar peso à perda. Corre para eliminar Xavier num momento pensado mais para choque do que para consequência. Corre, sobretudo, para chegar a uma escala épica que o roteiro não amadureceu.
Isso fica claro na montagem. Cenas decisivas acabam com a sensação de que faltou uma respiração entre um evento e outro, como se o filme tivesse sido comprimido na ilha de edição. A mutação, que nos dois longas anteriores era discutida como identidade, diferença e conflito social, aqui vira material de apoio para levar a história adiante. Há ideias fortes em jogo, mas poucas têm tempo de reverberar.
Ainda assim, seria preguiçoso reduzir o filme a uma traição aos quadrinhos ou a um acidente industrial. Ele é bagunçado, sim, mas não inerte. E isso faz diferença.
Alcatraz ainda funciona porque Ratner entende escala, impacto e legibilidade
O grande argumento a favor da reavaliação está na batalha de Alcatraz. Não porque ela resolva os problemas do roteiro, mas porque finalmente entrega aquilo que o filme promete desde o início: uma guerra mutante com senso de evento. A imagem de Magneto deslocando a Golden Gate até a ilha continua poderosa justamente por sua clareza visual. Você entende a ameaça em um plano. É exagerada, quase operística, mas cinema de super-herói também vive dessa capacidade de transformar absurdo em ícone.
Na execução, a sequência tem uma qualidade que muita superprodução posterior perdeu: legibilidade espacial. A fotografia de Dante Spinotti pode não ter o refinamento expressionista de outros filmes do gênero, mas a ação é filmada de modo a permitir que o espectador acompanhe o caos. Sabemos onde estão os grupos, quem avança, quem recua, de onde vem o perigo. Em vez de soterrar tudo em cortes nervosos e fumaça digital, o clímax se sustenta em imagens que permanecem na memória.
Há momentos específicos que ajudam essa impressão. A investida inicial dos mutantes em massa, os disparos da Cura desmontando corpos e poderes, Wolverine avançando enquanto Jean Grey desintegra tudo ao redor: são cenas que, isoladamente, têm mais impacto sensorial do que boa parte de ‘Fênix Negra’. O ápice entre Logan e Jean talvez seja o melhor exemplo. O filme não constrói com delicadeza a tragédia do casal, mas a combinação entre efeitos visuais, desenho de som e a fisicalidade sofrida de Hugh Jackman dá à cena um peso que o texto sozinho não merecia. Você sente o corpo dele sendo rasgado a cada passo. É simples, brutal e eficaz.
O elenco segura o filme quando o roteiro decide sabotá-lo
Parte dessa sobrevida vem do elenco. Hugh Jackman já entendia Wolverine como poucos atores entendem personagens de franquia: não como pose, mas como presença. Mesmo quando o filme o empurra para o centro de forma às vezes artificial, ele dá gravidade a cenas que poderiam desabar. Ian McKellen continua sendo o Magneto definitivo da era Fox, capaz de vender tanto a superioridade aristocrática do personagem quanto seu fanatismo político. E Kelsey Grammer, com pouco tempo de tela, compõe um Fera caloroso e elegante que merecia ter sido melhor aproveitado.
Famke Janssen também merece uma nota à parte. Seu trabalho como Jean Grey é limitado por um roteiro que prefere tratar a Fênix como força destrutiva abstrata, mas há algo inquietante na maneira como ela esvazia o olhar e transforma imobilidade em ameaça. Não é uma grande performance porque o papel não permite, mas é uma presença funcional dentro do registro trágico que o filme tenta alcançar.
Onde o longa falha de forma mais frustrante é no desperdício de personagens. Cyclops some cedo demais. Tempestade é importante sem nunca ser central. Vampira, justamente uma das figuras mais ligadas ao dilema da Cura, recebe menos espaço emocional do que a premissa pedia. Esse desequilíbrio existe e pesa. Só não anula o fato de que os atores principais conseguem sustentar a experiência em pé.
Por que ‘Fênix Negra’ faz ‘X-Men O Confronto Final’ parecer melhor hoje
O ponto central desta reavaliação está no contraste. ‘Fênix Negra’ tinha, em tese, a chance de corrigir o erro histórico: focar na saga da Jean com mais tempo, mais planejamento e uma geração nova de atores já estabelecida. Em vez disso, entregou um filme sem urgência, sem imaginação visual e sem senso de tragédia. É uma produção que confunde contenção com apatia.
Quando comparado diretamente, X-Men O Confronto Final envelhece melhor por um motivo simples: ele ainda pulsa. O filme de 2006 é excessivo, desequilibrado e por vezes vulgar. Mas há energia em cena. Há conflito. Há set pieces desenhadas para arrancar reação. Em ‘Fênix Negra’, quase tudo parece ocorrer em marcha reduzida, como se a própria encenação tivesse medo do potencial cósmico da personagem. O clímax no trem até tenta encontrar intensidade, mas chega tarde e sem acúmulo dramático.
É uma comparação reveladora também dentro da história do gênero. Os X-Men da Fox surgiram num momento em que o cinema de super-herói ainda aceitava certa aspereza formal, alguma estranheza e até incoerências mais visíveis. Já ‘Fênix Negra’ pertence a uma fase em que muitos blockbusters ficaram reféns de um acabamento pasteurizado: tudo correto na superfície, pouco memorável no efeito. Ratner erra bastante, mas ao menos erra para frente. Kinberg entrega um filme tão controlado que quase se apaga enquanto acontece.
Redenção, com ressalvas: vale rever?
Vale, desde que o reencontro seja honesto. ‘X-Men: O Confronto Final’ não virou obra-prima secreta, nem uma adaptação injustiçada da Saga da Fênix Negra. Continua sendo um filme truncado, com decisões narrativas questionáveis e desperdício de material riquíssimo. Mas revê-lo hoje, depois de 20 anos de cinema de herói cada vez mais uniforme, permite notar qualidades que ficaram soterradas pelo ressentimento inicial.
Ele tem senso de espetáculo. Tem imagens fortes. Tem atores suficientes para vender o drama mesmo quando o roteiro encurta caminho. E, acima de tudo, entende algo que ‘Fênix Negra’ esqueceu: entretenimento não é um bônus menor; é parte do contrato. Um blockbuster pode sobreviver a muita coisa, menos à indiferença.
Se você procura fidelidade rigorosa aos quadrinhos, provavelmente a frustração continua. Se procura um capítulo imperfeito, mas energético, dentro da fase clássica dos X-Men no cinema, a revisão compensa. Para quem gosta da trilogia original e aceita certa cafonice de meados dos anos 2000, a experiência ainda diverte. Para quem exige densidade dramática à altura da saga da Fênix, o filme seguirá curto demais. Mas, colocado lado a lado com seu suposto acerto tardio, fica claro: entre um desastre barulhento e um desastre apático, o primeiro envelhece com muito mais dignidade.
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Perguntas Frequentes sobre ‘X-Men: O Confronto Final’
Onde assistir ‘X-Men: O Confronto Final’?
A disponibilidade varia por plataforma e período de licenciamento. Em geral, o filme aparece em serviços que reúnem o catálogo da Marvel/Fox e também em lojas para aluguel e compra digital. Vale checar Disney+, Prime Video, Apple TV e Google TV no momento da busca.
Quanto tempo dura ‘X-Men: O Confronto Final’?
O filme tem 1 hora e 44 minutos. Essa duração enxuta é uma das razões para a sensação de pressa no desenvolvimento da trama da Cura e da Fênix.
Preciso ver os filmes anteriores para entender ‘X-Men: O Confronto Final’?
Sim, faz bastante diferença ter visto ‘X-Men’ (2000) e ‘X2’ (2003). O terceiro filme depende do vínculo já construído entre Jean Grey, Wolverine, Xavier e Magneto, além de continuar conflitos políticos estabelecidos antes.
‘X-Men: O Confronto Final’ é baseado na Saga da Fênix Negra?
Parcialmente. O filme usa elementos da Saga da Fênix Negra, mas mistura esse material com a história da Cura mutante dos quadrinhos. Por isso, muitos fãs consideram a adaptação superficial e apressada em relação ao arco original.
‘X-Men: O Confronto Final’ tem cena pós-créditos?
Tem, mas é uma cena curta. Ela sugere uma continuidade para um personagem importante e vale a pena ficar até o fim se você nunca viu o filme ou não lembra desse detalhe.

