‘Euphoria’ 3ª temporada: como o elenco se salva de um roteiro fraco

Nossa análise de Euphoria 3ª temporada mostra como Zendaya, Colman Domingo e Sydney Sweeney sustentam a série mesmo com um roteiro mais raso e disperso. O texto examina onde Sam Levinson perde força e por que o elenco ainda impede o colapso total.

Quando ‘Euphoria’ estreou, a série parecia entender que excesso visual só funcionava porque havia ferida real por baixo. Na Euphoria 3ª temporada, Sam Levinson desloca esse centro de gravidade. Em vez de aprofundar o que sobrou de Rue, Jules, Nate, Cassie e Maddy depois de tantas implosões, a temporada troca intimidade por escala e tenta empurrar a série para um thriller criminal de prestígio. A ambição, por si só, não é o problema. O problema é que o roteiro perde precisão psicológica justamente onde ‘Euphoria’ sempre foi mais forte.

O que impede o colapso completo é o elenco. E não num sentido genérico de ‘bons atores melhoram falas fracas’. Aqui, o elenco trabalha em modo de contenção de danos. Zendaya, Colman Domingo, Sydney Sweeney, Alexa Demie e até nomes periféricos encontram gestos, pausas, ritmos e olhares que o texto já não oferece. É esse o contraste que define a temporada: a escrita enfraquece, mas as atuações ainda sustentam peso dramático.

Quando ‘Euphoria’ abandona personagem para perseguir gravidade

Quando 'Euphoria' abandona personagem para perseguir gravidade

A grande falha da temporada não está apenas na guinada criminal, mas no modo como ela reorganiza prioridades. O submundo do crime ocupa espaço demais e, em troca, personagens que antes pareciam escritos de dentro para fora agora reagem a conveniências de trama. Jules é o caso mais evidente. Hunter Schafer continua precisa, mas o roteiro a empurra para entradas e saídas funcionais, como se sua presença servisse mais para lembrar a antiga ‘Euphoria’ do que para expandi-la. A atriz encontra melancolia até em cenas subescritas, só que isso não substitui arco.

Jacob Elordi também sofre com essa recalibragem. Nate Jacobs sempre foi um personagem repulsivo, mas dramaticamente legível: violência, desejo de controle, vergonha e autopunição coexistiam nele. Nesta temporada, muita coisa vira simplificação. Elordi ainda preserva algo do personagem na rigidez corporal e no olhar sempre prestes a explodir, porém o texto o reduz com frequência a função narrativa. É o tipo de empobrecimento que não aparece apenas no diálogo, mas na falta de progressão interna.

Isso ajuda a explicar por que a temporada soa mais barulhenta e, paradoxalmente, menos densa. Levinson quer amplitude, ameaça, criminalidade, figuras maiores que a vida. Só que ‘Euphoria’ nunca foi grande porque parecia perigosa; ela era grande porque parecia íntima.

Zendaya e Colman Domingo sustentam a alma que o roteiro quase abandona

Se a série ainda preserva alguma ligação emocional com suas melhores temporadas, ela passa por Rue e Ali. Zendaya continua sendo a intérprete mais decisiva do projeto porque sabe trabalhar em duas camadas ao mesmo tempo: o que Rue diz e o que ela tenta esconder enquanto diz. Mesmo quando o roteiro força recaídas emocionais ou acentua traços antigos sem o mesmo preparo dramático, a atriz encontra verdade no atrito entre exaustão e defesa.

Há uma cena especialmente reveladora num diálogo entre Rue e Ali, construída mais na respiração do que no texto. O que funciona ali não é a sofisticação da escrita, mas a escuta entre os atores. Zendaya deixa Rue oscilar entre desafio, culpa e necessidade de acolhimento sem sublinhar nenhuma dessas emoções. Colman Domingo responde com uma calma que nunca parece passividade; ele interpreta Ali como alguém que mede cada palavra para não ferir mais do que a vida já feriu. É numa sequência assim, ancorada em silêncio, que ‘Euphoria’ volta a parecer a série que era.

Domingo faz algo raro: ele devolve proporção humana a uma temporada viciada em inflar conflito. Sua presença estabiliza a cena. Não por acaso, quando ele aparece, o tom da série melhora. Há menos pose, menos estilização vazia e mais comportamento observável. Dentro da filmografia televisiva recente, poucos atores são tão bons em sugerir passado sem precisar verbalizá-lo.

O problema do novo eixo criminal está menos na ideia do que na execução

O problema do novo eixo criminal está menos na ideia do que na execução

Levar ‘Euphoria’ para mais perto do crime organizado não era necessariamente um erro. O universo da série já flertava com isso. A diferença é que antes esse perigo funcionava como extensão do colapso íntimo de Rue; agora, vira motor principal de uma dramaturgia que quer soar maior, mais cool e mais ameaçadora do que realmente é. O resultado é um conjunto de antagonistas e situações que frequentemente parecem importados de outras obras, sem a mesma carpintaria.

O chefão Alamo Brown é um bom exemplo. Seus diálogos querem ter o peso mitológico de um vilão pulp, mas quase sempre chegam prontos demais, escritos para parecer citação. Ainda assim, Adewale Akinnuoye-Agbaje impõe autoridade com algo que o texto não dá: presença física. O modo como ele ocupa o quadro, fala baixo e controla o espaço ao redor cria a sensação de poder que as falas não conseguem construir sozinhas.

Darrell Britt-Gibson faz operação parecida com Bishop. O personagem nasce como arquétipo, mas o ator evita o excesso e prefere uma frieza quase burocrática. É uma escolha inteligente, porque desloca o risco do personagem do extravagante para o imprevisível. Já Marshawn Lynch entende que esse núcleo precisava de outro tipo de energia. Seu timing seca a pompa de cenas longas demais e introduz humor sem destruir a tensão. Não é pouca coisa: em uma temporada que confunde solenidade com importância, alguém que sabe modular o tom vira ativo dramático.

Do ponto de vista técnico, esse núcleo também revela problemas de construção. A montagem insiste em alongar cenas de ameaça além do necessário, como se a duração por si só produzisse tensão. Não produz. Tensão depende de escalada, informação e ritmo. Em vários momentos, a série troca progressão por pose. A fotografia continua sofisticada, com contrastes fortes, néon e sombras densas, mas a imagem às vezes parece trabalhar mais para preservar a marca visual de ‘Euphoria’ do que para aprofundar o estado mental das cenas.

Sydney Sweeney e Alexa Demie transformam caricatura em comportamento

Talvez nenhum caso exponha tanto a fragilidade do roteiro quanto Cassie. A personagem, que antes articulava insegurança, desejo de validação e autodestruição com alguma complexidade, agora corre o risco de virar apenas vitrine de humilhação. Sydney Sweeney, porém, se recusa a tratá-la como piada. Mesmo quando a mise-en-scène beira o grotesco, a atriz encontra um centro emocional específico: Cassie não se vê como ridícula, ela se vê como destinada. Essa convicção é o que impede a personagem de colapsar em caricatura pura.

A fala ‘I’m gonna be a household name!’ funciona justamente por isso. No papel, ela poderia soar como exagero camp involuntário. Sweeney a entrega como delírio de grandeza misturado a desespero social. Você não acredita no plano da personagem; acredita na necessidade dela de acreditar. É uma diferença enorme.

Alexa Demie, por sua vez, parece entender Maddy de dentro para fora melhor do que o próprio roteiro. Quando a escrita perde nuance, Demie devolve identidade por meio de postura, dicção e pausa. A ameaça a Lexi e o contrato quase cruel com Cassie carregam a dureza que se espera dela, mas a atriz não reduz Maddy a pose. Na cena da banheira com Alamo, o desconforto vem menos do diálogo do que da leitura física de vulnerabilidade: ombros tensos, olhar calculando risco, voz controlada para não rachar. É uma atuação que lembra como, em televisão, o corpo muitas vezes corrige o que a palavra empobrece.

Os coadjuvantes fazem trabalho de precisão que a temporada nem sempre merece

Os coadjuvantes fazem trabalho de precisão que a temporada nem sempre merece

Nos cantos da narrativa, há interpretações que ajudam a manter a temporada viva. Priscilla Delgado causa impacto cedo como Angel Martinez, funcionando como aviso concreto dos custos do novo mundo em que Rue se move. Martha Kelly continua perturbadora como Laurie, embora a temporada cometa um erro clássico: explicar e mostrar demais uma figura que antes aterrorizava justamente pelo mistério e pela fala mansa. Kelly ainda sustenta ameaça porque interpreta Laurie como alguém para quem violência é logística, não catarse.

Chloe Cherry, em material fisicamente ingrato e por vezes sensacionalista, encontra em Faye uma energia imprevisível que impede a personagem de virar mero ornamento bizarro. É o tipo de trabalho que passa despercebido em textos apressados sobre a série, mas faz diferença no fluxo das cenas. Mesmo quando a escrita busca choque, a atriz encontra comicidade torta e vulnerabilidade.

Esse talvez seja o traço mais consistente do elenco nesta temporada: quase todo mundo está fazendo mais do que o roteiro oferece. Não no sentido de exagerar, mas de completar lacunas. Onde falta subtexto, eles fabricam. Onde falta progressão, eles sugerem passado. Onde falta coerência, eles tentam ao menos preservar presença.

Vale a pena ver ‘Euphoria’ 3ª temporada?

Vale, mas por motivos mais restritos do que antes. Se você acompanha ‘Euphoria’ pelo impacto visual, pelo carisma do elenco e pela chance de ver atores muito acima da média operando no limite de um material irregular, ainda há o que observar. Se a sua relação com a série dependia principalmente da escrita afiada, da intimidade emocional e da sensação de que cada excesso revelava algo verdadeiro sobre aqueles personagens, a frustração é difícil de evitar.

No contexto da obra de Sam Levinson, a temporada reforça um problema que já rondava projetos recentes do criador: a tendência de confundir provocação estética com densidade dramática. Quando isso acontece, quem segura o prédio são os intérpretes. E aqui eles seguram bastante.

‘Euphoria’ 3ª temporada não é um desastre sem qualidades. É algo talvez mais frustrante: uma temporada repleta de atores excelentes lutando para preservar a força de uma série que parece menos interessada em seus personagens do que em sua própria imagem. Para quem gosta de observar atuação em estado bruto, há muito o que discutir. Para quem esperava um aprofundamento à altura do que a série já foi, sobra a sensação de oportunidade desperdiçada.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Euphoria’ 3ª temporada

Onde assistir ‘Euphoria’ 3ª temporada?

‘Euphoria’ 3ª temporada deve ser exibida pela HBO e ficar disponível no streaming Max, como ocorreu com as temporadas anteriores. A disponibilidade pode variar conforme o país.

Precisa ver as temporadas anteriores para entender ‘Euphoria’ 3ª temporada?

Sim. A nova temporada depende fortemente do histórico emocional de Rue, Jules, Nate, Cassie e Maddy. Sem as duas primeiras, boa parte dos conflitos perde contexto e impacto.

‘Euphoria’ 3ª temporada continua focada em Rue?

Rue segue como eixo principal, mas divide mais espaço com tramas paralelas e com o núcleo criminal. Isso altera o equilíbrio da série e reduz a centralidade emocional que ela tinha antes.

Para quem ‘Euphoria’ 3ª temporada é recomendada?

Ela é mais recomendada para quem já gosta do universo da série, acompanha o elenco e tem interesse em performances fortes mesmo em material irregular. Para quem busca um drama adolescente mais coeso ou menos estilizado, a temporada pode decepcionar.

‘Euphoria’ 3ª temporada é melhor ou pior que as anteriores?

Em termos de roteiro, a percepção geral tende a ser de queda em relação às primeiras temporadas. Já nas atuações, a série continua em nível alto, com Zendaya, Colman Domingo, Sydney Sweeney e Alexa Demie entre os destaques.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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