Além dos 100%: como ‘Camp Miasma’ encerra a trilogia de Jane Schoenbrun

Camp Miasma importa menos pelos 100% no Rotten Tomatoes do que por encerrar a ‘Trilogia da Tela’ de Jane Schoenbrun. O artigo mostra como o filme transforma o slasher em conclusão de uma obra sobre mídia, imagem e identidade queer.

Camp Miasma chegou ao Rotten Tomatoes com 100% de aprovação, mas tratar o novo filme de Jane Schoenbrun como um simples caso de aclamação crítica é olhar para o termômetro e ignorar a febre. Teenage Sex and Death at Camp Miasma importa menos como ‘o terror do momento’ e mais como a peça que fecha um projeto temático iniciado em We’re All Going to the World’s Fair e radicalizado em Eu Vi o Brilho da TV. Se aqueles filmes perguntavam como a internet e a televisão moldam subjetividades queer, Camp Miasma leva a questão ao cinema de gênero: o que acontece quando a identidade já nasce dentro de uma imagem industrializada, repetida, vendida e reciclada?

É por isso que o 100% diz menos sobre perfeição do que sobre convergência. Schoenbrun chegou a um ponto em que forma, obsessão e discurso finalmente se encaixam sem mediação. O filme não abandona as inquietações dos anteriores; ao contrário, as torna mais táteis, mais sensuais e mais violentas. E Gillian Anderson, escalada contra a memória televisiva que a consagrou, vira parte decisiva dessa operação.

Por que ‘Camp Miasma’ funciona como desfecho, não como sucesso isolado

Chamar os três filmes de ‘Trilogia da Tela’ faz sentido não porque eles compartilham personagens ou trama, mas porque investigam o mesmo problema por suportes diferentes. Em We’re All Going to the World’s Fair, a internet aparece como espaço de auto-invenção e dissociação: um lugar em que o corpo pode ser renegociado, mas também evaporar. Em Eu Vi o Brilho da TV, a televisão vira arquivo de desejo e frustração, uma máquina de promessa identitária que nunca entrega representação sem distorção. Camp Miasma fecha esse percurso ao entrar no cinema, mais especificamente no slasher e na lógica da franquia.

A progressão importa. Internet, TV e cinema não são só mídias diferentes; são graus diferentes de institucionalização da imagem. O primeiro filme trabalha o íntimo e o digital. O segundo, a mediação nostálgica e serial. O terceiro entra num aparelho industrial que transforma trauma em produto, corpo em ícone e repetição em modelo de negócio. Schoenbrun não está apenas mudando de cenário. Está mostrando como cada tela produz um modo distinto de existir e de se perder dentro dela.

Nesse sentido, Camp Miasma é o capítulo mais frontal da trilogia. O que antes aparecia como angústia de reconhecimento agora emerge como disputa por autoria e posse da própria imagem. Quem controla a narrativa? Quem lucra com a performance? Quem é revivido e em que termos? Essas perguntas atravessam o filme inteiro e fazem dele menos um slasher metalinguístico do que um estudo sobre o custo de voltar a ser visto.

Gillian Anderson entra no filme carregando a memória de outra televisão

Escalar Gillian Anderson não é apenas um golpe de casting. É uma escolha conceitual. Sua presença traz consigo décadas de memória televisiva, especialmente a associação com Dana Scully, figura que condensava inteligência, contenção e um tipo de ambiguidade afetiva que muita gente leu como queer mesmo quando a TV aberta dos anos 1990 não tinha linguagem para nomear isso. Camp Miasma usa esse passado como material dramático.

Anderson interpreta Billy Preston, uma ex-rainha do grito transformada em reclusa glamourosa, e o filme se alimenta da tensão entre persona pública e fantasma privado. Não é uma atuação de efeito fácil. O que impressiona aqui não é um excesso camp em sentido superficial, e sim o controle com que Anderson alterna magnetismo, desgaste e cálculo. Em certas cenas, ela parece se apresentar para a câmera; em outras, parece suportá-la como quem encara uma máquina predatória. Esse descompasso entre exibição e retração é central no projeto de Schoenbrun.

Há ainda um detalhe importante: a atriz não funciona apenas como estrela convidada, mas como elo entre a segunda e a terceira partes da trilogia. Se Eu Vi o Brilho da TV já pensava a televisão como lugar de promessa identitária quebrada, Anderson chega a Camp Miasma como o corpo que sobreviveu a esse regime de imagem e agora retorna sob novas condições. O filme sabe que estamos vendo uma atriz, um ícone e uma memória cultural ao mesmo tempo. E explora essa sobreposição sem didatismo.

Hannah Einbinder e a melhor ideia do filme: desejo como negociação de poder

Hannah Einbinder e a melhor ideia do filme: desejo como negociação de poder

Se Anderson traz o peso do passado midiático, Hannah Einbinder dá ao filme seu vetor de presente. Como Kris, diretora queer encarregada de revitalizar uma franquia slasher, ela entra na história como agente de renovação, mas logo fica claro que revitalizar também pode significar vampirizar. A relação entre Kris e Billy é o motor dramático de Camp Miasma, e Schoenbrun tem inteligência para nunca reduzi-la a amizade, rivalidade ou romance em moldes estáveis.

O mais forte nessa dinâmica é que o filme entende desejo como disputa formal, não como subtexto decorativo. As duas personagens se observam, se testam, se usam e se refletem. Em vez de organizar essa relação como um embate entre ingenuidade e experiência, Schoenbrun filma um circuito de atração e domínio em que nenhuma das duas ocupa posição inocente por muito tempo.

Há uma virada específica, no meio da narrativa, em que a lógica entre diretora e estrela muda de eixo sem depender de um grande truque de roteiro. O que muda é a distribuição do olhar. Quem parecia conduzir passa a ser enquadrada. Quem parecia disponível ganha opacidade. É uma solução mais interessante do que um simples twist porque nasce da própria tese do filme: no cinema, poder é também a capacidade de definir quem pode ser visto e em qual chave.

O slasher vira análise da indústria que consome corpos e os revende como nostalgia

Muita gente vai descrever Camp Miasma como horror metalinguístico, mas a formulação ainda é curta. Schoenbrun não usa o slasher apenas para comentar convenções do gênero; ela usa a lógica da franquia para falar sobre repetição industrial, reciclagem afetiva e exploração da imagem queer. O filme dentro do filme não é mero dispositivo esperto. É a arena onde se decide se ressuscitar um ícone significa homenageá-lo ou submetê-lo outra vez à máquina.

Esse é o ponto em que Camp Miasma dialoga com outros filmes sobre performance e violência, mas sem parecer derivativo. Em vez de operar como sátira ampla, ele trabalha num registro mais íntimo e desconfortável, no qual fazer cinema se aproxima de invocar, extrair e reorganizar traumas. A ideia de que o set funciona como ritual psicossexual não soa exagerada quando se observa como Schoenbrun filma ensaio, máscara, figurino e encenação: tudo parece ao mesmo tempo preparação artística e ameaça corporal.

O melhor é que essa reflexão nunca fica solta no abstrato. Ela encosta no histórico do horror como gênero que frequentemente codificou personagens queer como desvio, excesso ou punição. Camp Miasma não responde a esse legado com uma simples correção representativa. Responde mostrando que a própria engrenagem da representação é violenta, sobretudo quando vende diferença como novidade enquanto mantém intacta a estrutura que a mastiga.

Uma cena-chave mostra por que Schoenbrun filma melhor do que explica

Uma cena-chave mostra por que Schoenbrun filma melhor do que explica

Sem entrar em spoilers, existe uma sequência em que Kris e Billy atravessam um espaço de preparação de set enquanto a câmera recusa pressa e observa texturas, superfícies e reflexos com insistência quase clínica. O que poderia ser apenas transição vira declaração estética. Espelhos, luz artificial, figurinos pendurados e corpos parcialmente enquadrados transformam o backstage em zona de metamorfose. Ninguém ali está simplesmente se preparando para filmar; todos parecem se preparando para serem absorvidos por uma imagem maior do que eles.

É nesse tipo de cena que Camp Miasma deixa de depender do discurso em torno dele. Schoenbrun filma a fabricação do artifício como experiência sensorial, e isso dá espessura ao que poderia soar apenas ensaístico. A montagem evita sublinhados óbvios. Em vez de organizar a sequência para entregar informação, ela trabalha fricção: olhares que demoram meio segundo a mais, cortes que preservam desconforto, pausas em que a atmosfera pesa mais do que a fala.

Também chama atenção o desenho de som. Respirações, ruídos de tecido, reverberações de ambiente e silêncios abruptos criam uma tensão que não depende de sustos. É um tipo de horror em que o espaço sonoro parece contaminado antes mesmo de qualquer explosão dramática. Para um filme tão interessado em performance e imagem, essa camada sonora é decisiva: ela impede que o meta vire assepsia intelectual.

Os 100% no Rotten Tomatoes dizem algo, mas não o que a manchete sugere

O 100% de Camp Miasma no Rotten Tomatoes, com 36 críticas contabilizadas até agora, obviamente chama atenção. Mas vale lembrar o básico: a pontuação não significa unanimidade entusiasmada em grau máximo, e sim ausência de críticas negativas dentro de um recorte. O número funciona como índice de recepção, não como medida objetiva de grandeza. Ainda assim, no caso de Schoenbrun, ele é revelador por outro motivo.

Os filmes anteriores já indicavam uma diretora com projeto muito claro, mas a resposta crítica foi mais dividida em termos de acesso emocional do público. We’re All Going to the World’s Fair foi celebrado por muita gente justamente por sua estranheza rarefeita, enquanto parte da audiência o viu como exercício distante. Eu Vi o Brilho da TV ampliou o alcance sem abandonar a inquietação formal. Camp Miasma parece ser o momento em que a cineasta encontra uma forma de condensar suas obsessões num objeto mais imediatamente legível como gênero, sem diluir o que o torna pessoal.

Ou seja: os 100% não importam porque provam que o filme é ‘perfeito’. Importam porque sugerem que Schoenbrun alcançou um raro ponto de encontro entre radicalidade autoral e legibilidade crítica. É menos coroação súbita do que reconhecimento acumulado.

Onde ‘Camp Miasma’ se encaixa na carreira de Jane Schoenbrun

Onde 'Camp Miasma' se encaixa na carreira de Jane Schoenbrun

Se a filmografia de Schoenbrun continuar sendo lida no futuro como um bloco coerente, Camp Miasma provavelmente será visto como o momento em que sua obra deixa de apenas tematizar mediação para dramatizar abertamente a luta por controle da imagem. We’re All Going to the World’s Fair era mais solitário, quase diarístico em sua relação com o digital. Eu Vi o Brilho da TV expandia o campo afetivo e nostálgico. Camp Miasma é mais externo, mais industrial e mais carnal.

Isso não quer dizer que seja necessariamente o melhor dos três para todos os públicos. Há quem prefira a secura do primeiro ou a melancolia mais devastadora do segundo. Mas é difícil negar que este é o filme em que Schoenbrun articula com mais clareza a dimensão política do seu horror: não apenas o medo de não caber numa imagem, e sim o medo de caber nela exatamente do jeito que o sistema precisa para continuar funcionando.

Meu posicionamento é claro: Camp Miasma faz mais do que sustentar a reputação de Schoenbrun. Ele a consolida como uma das cineastas mais interessantes do horror contemporâneo justamente por recusar o conforto da metáfora genérica. Aqui, mídia, desejo e identidade não aparecem como temas anexos ao gênero. São a própria matéria do terror.

Vale a pena ver? E para quem o filme realmente é

Camp Miasma vale a pena sobretudo para quem acompanha Jane Schoenbrun, para espectadores interessados em horror autoral e para quem gosta de filmes que pensam a cultura pop como campo de disputa identitária. Se você viu os dois longas anteriores, este ganha força extra como fechamento de percurso. Se não viu, ainda pode funcionar sozinho, mas parte da potência vem justamente da sensação de culminação.

Por outro lado, convém ajustar expectativa. Quem procura um slasher mais direto, baseado em mortes criativas, ritmo acelerado e catarse imediata, pode se frustrar. O filme parece usar a promessa da franquia de horror para fazer outra coisa: um estudo de sedução, controle e reaproveitamento da imagem. Também não é uma obra interessada em entregar explicações redondas ou conforto moral.

A estreia nos cinemas em 7 de agosto, com distribuição da MUBI, reforça esse posicionamento. Não é um terror pensado para consumo indistinto; é um filme de autor que usa o gênero como forma de confronto. Se isso soa estimulante, Camp Miasma merece atenção imediata. Se soa exaustivo, talvez este não seja o ponto de entrada ideal para o cinema de Schoenbrun.

No fim, o filme fecha a trilogia transformando a tela em campo de batalha

O grande acerto de Camp Miasma é encerrar a ‘Trilogia da Tela’ sem parecer resumo ou epílogo. O filme amplia o que os anteriores propunham e leva a pergunta central de Schoenbrun ao limite: o que a mídia permite que uma pessoa queer imagine sobre si, e quanto essa permissão cobra em troca? Ao deslocar essa questão para o slasher, para a estrela retornante e para a lógica da franquia, a diretora encontra sua forma mais afiada até aqui.

No fim das contas, o 100% é detalhe. O essencial é que Camp Miasma não parece um sucesso isolado, e sim a conclusão natural de uma investigação sobre telas, corpos e ficções que começou anos atrás. Há filmes aclamados que envelhecem como evento de temporada. Este tem cara de obra que reorganiza retrospectivamente tudo o que sua diretora vinha tentando dizer.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Camp Miasma’

Quando ‘Camp Miasma’ estreia nos cinemas?

Camp Miasma estreia nos cinemas em 7 de agosto, com distribuição da MUBI. A data pode variar em alguns mercados, então vale checar a programação local perto do lançamento.

Preciso ver os filmes anteriores de Jane Schoenbrun para entender ‘Camp Miasma’?

Não é obrigatório. Camp Miasma funciona como obra independente, mas assistir antes a We’re All Going to the World’s Fair e Eu Vi o Brilho da TV ajuda a perceber melhor a ideia de ‘Trilogia da Tela’ e o fechamento temático proposto pela diretora.

‘Camp Miasma’ é um slasher tradicional?

Não exatamente. O filme usa elementos de slasher e de franquia de horror, mas está mais interessado em identidade, performance, desejo e indústria da imagem do que em sustos contínuos ou violência gráfica como atração principal.

Quem está no elenco principal de ‘Camp Miasma’?

Os nomes mais destacados são Gillian Anderson e Hannah Einbinder. Anderson interpreta Billy Preston, uma ex-rainha do grito reclusa, enquanto Einbinder vive Kris, a diretora queer encarregada de reviver a franquia central do filme.

Para quem ‘Camp Miasma’ é mais recomendado?

O filme é mais indicado para quem gosta de horror autoral, meta-horror e obras que cruzam gênero com reflexão sobre mídia e identidade queer. Quem espera um terror mais direto e convencional talvez encontre um filme mais cerebral do que imagina.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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