‘The Buried Giant’: del Toro reencontra Ron Perlman em stop-motion na Netflix

Em The Buried Giant del Toro, o ponto central não é apenas o retorno de Ron Perlman, mas a escolha do stop-motion como resposta artística ao ‘uncanny valley’. O artigo explica por que a técnica combina melhor com a fantasia adulta, melancólica e tátil de Kazuo Ishiguro.

Quando Guillermo del Toro anunciou a adaptação de ‘The Buried Giant’, muita gente foi direto ao detalhe mais fácil de vender: o reencontro com Ron Perlman. É uma boa manchete, mas pequena para o que está em jogo aqui. O ponto realmente decisivo em The Buried Giant del Toro é a escolha do stop-motion para adaptar Kazuo Ishiguro — não como capricho visual, e sim como solução estética para um tipo de fantasia adulta que perde força quando tenta parecer ‘realista’ demais.

Del Toro não está apenas montando mais um elenco de colaboradores fiéis. Ele está defendendo uma ideia antiga da sua filmografia: monstros, fábulas e feridas históricas funcionam melhor quando o artifício não é escondido, mas assumido. Em vez de maquiar o fantástico com CGI polido, ele prefere uma imagem com textura, peso e imperfeição visível. Faz sentido. Ishiguro escreveu um romance de névoa moral, memória falha e violência enterrada. Um mundo assim pede matéria, não verniz digital.

Por que del Toro escolheu o stop-motion para fugir do ‘uncanny valley’

Por que del Toro escolheu o stop-motion para fugir do 'uncanny valley'

A justificativa do diretor é mais interessante do que o anúncio do projeto. Em live-action, colocar atores humanos num cenário povoado por criaturas digitais quase sempre cria uma fricção difícil de ignorar: o espectador percebe que pessoas e mundo não pertencem exatamente à mesma matéria. É o problema do chamado ‘uncanny valley’ aplicado não só aos rostos, mas ao ecossistema inteiro da cena. O corpo do ator parece obedecer à gravidade de um filme; a criatura, à lógica limpa do render.

Del Toro já rondou esse problema em obras diferentes. Em ‘Pinóquio’, por exemplo, o stop-motion permitia que bonecos, cenários e luz compartilhassem a mesma textura física. Nada precisava fingir naturalismo fotográfico. Tudo existia no mesmo plano de artifício. Para ‘The Buried Giant’, isso é ainda mais crucial, porque a história não depende de espetáculo visual, e sim de atmosfera. Uma Inglaterra pós-arturiana coberta por névoa e esquecimento não deveria parecer lisa, brilhante ou excessivamente acabada. Deveria parecer tocável, gasta, ligeiramente instável.

É aí que o stop-motion deixa de ser ‘estilo’ e vira linguagem. A luz bate de outro jeito em miniaturas, tecido, silicone e madeira. Os movimentos têm micro-irregularidades que um blockbuster normalmente tentaria apagar. Só que, neste caso, essas imperfeições ajudam. Elas criam um mundo que parece feito de lembranças incompletas, e não de superfícies perfeitas. Para um romance sobre memória apagada, essa diferença é central.

O romance de Ishiguro pede matéria, silêncio e estranheza

No livro, Axl e Beatrice caminham por uma paisagem onde quase ninguém consegue lembrar claramente do passado. Essa premissa já desloca ‘The Buried Giant’ da fantasia convencional. Não é uma saga de conquista, nem uma narrativa guiada por lore enciclopédico. É uma fábula melancólica sobre trauma coletivo, esquecimento e aquilo que um casal suporta quando as lembranças em comum começam a falhar.

Por isso, adaptar o material como fantasia digital grandiosa seria um erro de tom. O risco seria transformar trolls, cavaleiros e criaturas míticas em atração principal, quando no romance eles funcionam mais como expressão física de uma ferida histórica. Em Ishiguro, o fantástico não entra para expandir o universo; entra para turvar a consciência. Del Toro parece entender isso. A escolha do stop-motion sugere uma adaptação menos interessada em ‘escala’ e mais interessada em sensação.

Se houver uma cena que concentre esse potencial, ela provavelmente estará nas travessias do casal pela névoa: dois corpos frágeis avançando por um mundo que esqueceu a si mesmo. Em stop-motion, esse tipo de deslocamento pode ganhar uma qualidade quase fantasmática sem perder peso material. O passo é pequeno, o cenário parece tangível, o silêncio pesa. É um tipo de presença física que conversa melhor com a prosa contida de Ishiguro do que com o ruído visual de uma fantasia digital mais convencional.

Ron Perlman importa menos pela nostalgia e mais pelo que sua voz carrega

Ron Perlman importa menos pela nostalgia e mais pelo que sua voz carrega

O retorno de Ron Perlman faz sentido, mas não só por hábito afetivo entre diretor e ator. Perlman atravessa a filmografia de del Toro desde ‘Cronos’, passa por ‘Hellboy’, ‘Círculo de Fogo’, ‘O Beco do Pesadelo’ e chega a ‘Pinóquio’ como uma presença que mistura dureza e melancolia. Ele não é apenas um colaborador recorrente; é alguém que entende o registro emocional de del Toro, onde o monstruoso quase sempre esconde fragilidade, culpa ou carência.

No caso de ‘The Buried Giant’, isso pesa ainda mais porque o stop-motion desloca parte da atuação para a voz, o ritmo e a inflexão. Um personagem animado quadro a quadro precisa de vocalização precisa para ganhar densidade humana. Perlman oferece isso. Sua voz tem massa, desgaste, ironia seca e uma tristeza basal que combina com universos em ruínas. Num filme sobre esquecimento, essa qualidade pode ser mais valiosa do que qualquer semelhança física com o boneco.

Também há coerência autoral aí. Del Toro sempre foi um diretor interessado em corpos alterados, criaturas ambíguas e sensibilidades deslocadas. Perlman, com ou sem maquiagem pesada, sempre soube ocupar esse espaço. Em stop-motion, a parceria muda de ferramenta, mas não de função: dar humanidade ao que poderia virar apenas desenho conceitual.

O peso técnico do stop-motion combina com o tema da memória

Existe ainda uma afinidade rara entre o processo técnico e o assunto do filme. Stop-motion é uma arte de construção paciente, quadro a quadro, gesto a gesto. Não há fluidez espontânea; há acúmulo. Cada mínimo movimento é resultado de intervenção manual. Em muitos projetos, isso serve para produzir encanto. Aqui, pode servir para produzir gravidade.

Essa materialidade interessa porque ‘The Buried Giant’ é uma história sobre o que foi soterrado, não sobre o que está explodindo diante dos olhos. O esforço visível do meio combina com personagens que avançam lentamente em direção a verdades que talvez preferissem não recuperar. A lentidão inerente ao stop-motion, quando bem dirigida, não é defeito: é cadência dramática. Ela pode transformar caminhada em hesitação, pausa em dúvida, e silêncio em memória prestes a retornar.

Do ponto de vista técnico, isso também abre espaço para uma mise-en-scène mais controlada. Del Toro costuma trabalhar muito bem com cor, volume, desenho de produção e relações entre figura e cenário. Em miniatura, ele pode radicalizar esse controle. A fotografia, a escala dos ambientes e o desenho das criaturas podem convergir para uma sensação de mundo fossilizado, como se tudo estivesse preservado sob uma camada de esquecimento. Se a equipe repetir o rigor visual visto em ‘Pinóquio’, mas em registro menos caloroso e mais austero, o resultado pode ser um dos trabalhos mais coerentes da carreira do diretor.

Mais do que anúncio de elenco, este pode ser um manifesto de fantasia adulta

Há um ponto importante aqui: del Toro não está apenas adaptando um romance prestigiado. Ele está testando, de novo, a ideia de que animação não é gênero infantil nem vitrine de fofura artesanal. Em certas histórias, especialmente aquelas que misturam fábula e trauma, o stop-motion pode expressar melhor a experiência humana do que o live-action ornamentado por efeitos digitais.

Isso coloca ‘The Buried Giant’ numa posição mais interessante do que a de simples ‘novo filme do diretor na Netflix’. O projeto parece funcionar como continuação natural de uma linha que passa por ‘Pinóquio’ e pelo fascínio antigo de del Toro por objetos, relíquias, ruínas e monstros tristes. A diferença é que aqui o material de origem é menos expansivo e mais elíptico. Exige delicadeza, não exuberância contínua.

Meu ponto, então, é claro: o que torna este projeto promissor não é a reunião de nomes conhecidos, mas a adequação entre forma e conteúdo. Se del Toro acertar o tom, ‘The Buried Giant’ pode virar um caso raro de adaptação em que a escolha da técnica já funciona como interpretação crítica do livro.

Para quem acompanha a obra de del Toro, este filme tem potencial de ser menos imediato do que ‘Hellboy’ ou ‘Pinóquio’, mas talvez mais revelador. Para quem espera fantasia de ação, convém ajustar as expectativas: Ishiguro pede contemplação, ambiguidade e dor moral. Para quem gosta de animação adulta, é um dos projetos mais promissores em desenvolvimento justamente porque parece entender que estética não é embalagem — é sentido.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Buried Giant’

‘The Buried Giant’ de Guillermo del Toro vai ser em stop-motion?

Sim. Guillermo del Toro confirmou que a adaptação de ‘The Buried Giant’ será feita em stop-motion, a mesma técnica usada por ele em ‘Pinóquio’.

‘The Buried Giant’ é baseado em livro?

Sim. O filme adapta o romance ‘The Buried Giant’, de Kazuo Ishiguro, publicado em 2015. O autor é o mesmo de ‘Não Me Abandone Jamais’ e ‘Os Vestígios do Dia’.

Ron Perlman está confirmado no elenco de ‘The Buried Giant’?

Sim. Ron Perlman está ligado ao projeto, marcando mais uma colaboração com Guillermo del Toro depois de títulos como ‘Cronos’, ‘Hellboy’ e ‘Pinóquio’.

Onde ‘The Buried Giant’ vai ser lançado?

O projeto está associado à Netflix, que vem abrigando os trabalhos mais recentes de Guillermo del Toro. Até agora, porém, a plataforma ainda não divulgou uma data oficial de estreia.

‘The Buried Giant’ é fantasia para crianças?

Não exatamente. Embora use elementos fantásticos, a história tem tom adulto, melancólico e reflexivo, com foco em memória, trauma e relações afetivas. Quem espera aventura leve pode estranhar o ritmo e a proposta.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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