‘The Boys’ 5 troca poderes por socos e esquece o impacto de Herogasm

The Boys temporada 5 enfraquece suas cenas de ação ao trocar o uso estratégico de poderes por socos genéricos. Analisamos por que ‘Herogasm’ ainda é o melhor exemplo de risco, coreografia e impacto narrativo que a série já entregou.

Existe um momento em ‘The Boys’ que você não esquece. Não por causa do gore, nem por um plot twist, mas porque a série finalmente entendeu como filmar superpoderes como ameaça real. E esse momento não está em The Boys temporada 5. Está em ‘Herogasm’, quando Homelander, Soldier Boy, Butcher e Hughie transformam um quarto comum num campo minado onde cada habilidade altera a lógica da luta.

É por isso que a 5ª temporada soa tão menor quando chega às cenas de ação. O problema não é falta de barulho, nem de impacto sonoro, nem de gente arremessada contra a parede. O problema é mais básico: ‘The Boys’ trocou o uso criativo de poderes por brigas de contato que poderiam estar em qualquer thriller genérico. Num seriado sobre seres capazes de rasgar corpos, atravessar concreto e matar com um olhar, ver tudo se resolver em socos deixa de ser brutal. Vira só rotineiro.

Por que ‘Herogasm’ ainda é o padrão que a série não superou

O confronto de ‘Herogasm’, na 3ª temporada, continua sendo a referência porque cada movimento ali carrega informação dramática. Não é só coreografia: é narrativa em estado físico. Butcher aguenta o laser de Homelander e se levanta; Hughie entra na equação como variável imprevisível; Soldier Boy funciona como ameaça concreta, a raríssima presença capaz de ferir alguém até então tratado como intocável.

A cena é boa porque entende uma regra simples do gênero: poder não é enfeite visual, é argumento. Quando Homelander percebe que pode perder, a luta muda de temperatura. O rosto dele vende algo que a série vinha adiando havia anos: medo. E esse medo não nasce de uma troca de socos bem filmada, mas da combinação entre habilidades específicas, limitações circunstanciais e espaço fechado. Ali, cada golpe parece consequência de uma decisão.

Há também um mérito técnico que faz diferença. A montagem não corta a ação em pedaços para simular intensidade; ela deixa a geografia do ambiente relativamente clara, o que dá peso aos deslocamentos e aos impactos. O som ajuda muito: lasers, explosões de energia e pancadas não servem só para inflar a mixagem, mas para marcar hierarquia de força. Você sente que alguns corpos pertencem a outra escala de violência.

Na temporada 5, os poderes aparecem menos como estratégia e mais como lembrança

É aqui que The Boys temporada 5 decepciona. Personagens que deveriam reconfigurar o campo de batalha com um gesto entram em combate como se estivessem presos a uma gramática muito mais pobre. Ryan, Homelander, Soldier Boy e Bombsight têm potencial para transformar qualquer confronto em caos assimétrico. Em vez disso, várias sequências preferem a solução mais previsível: aproximação, troca de porradas, arremesso contra superfícies, pausa dramática, repetição.

O resultado é uma ação sem imaginação tática. Quando Homelander não usa seus lasers num momento em que faria sentido usá-los, a cena deixa de parecer tensa e passa a parecer convenientemente escrita. Quando Soldier Boy entra num confronto sem que sua capacidade destrutiva reorganize o perigo, a luta encolhe. E quando Ryan, construído desde cedo como ameaça incalculável, participa de embates que não exploram a singularidade do seu poder, a série dilui o próprio investimento narrativo que vinha fazendo nele.

Não se trata de pedir mais CGI. Pelo contrário. ‘The Boys’ sempre foi melhor quando os efeitos ampliavam decisões cruéis, não quando tentavam substituir encenação. Nas melhores lutas da série, os poderes alteravam distância, timing, vulnerabilidade e moralidade. Na 5ª temporada, com frequência, eles entram só para pontuar um beat e saem de cena para que a briga continue como luta de corredor.

O que a ação perdeu quando abandonou o risco real

O que a ação perdeu quando abandonou o risco real

O que fazia ‘Herogasm’ funcionar tão bem era a sensação de desequilíbrio. Havia um cálculo frágil sustentando a cena: Temp-V tinha custo, Homelander era quase invencível, Soldier Boy era ameaça e instabilidade ao mesmo tempo. Nada parecia limpo, e exatamente por isso tudo parecia perigoso.

Na 5ª temporada, essa instabilidade diminui. Os combates chegam mais previsíveis, como se o roteiro já tivesse decidido que ninguém vai usar a opção realmente letal cedo demais. O problema desse tipo de contenção é que ela fica visível. Em séries de super-heróis, o espectador aceita exagero; o que ele percebe rápido é autocensura dramática. Se alguém pode vencer com um poder específico e escolhe não usá-lo sem motivação convincente, a luta perde credibilidade.

Isso pesa ainda mais porque ‘The Boys’ sempre se vendeu como antídoto ao heroísmo pasteurizado. A violência da série não chamava atenção só por ser gráfica, mas por parecer ter consequências. Quando um combate passa a ignorar as habilidades que definem aqueles personagens, a violência continua barulhenta, porém deixa de ser significativa.

Homelander mais forte só funciona se a série aceitar as consequências disso

A temporada insiste em escalar Homelander e sugerir um novo pico de ameaça. Em tese, isso deveria tornar cada confronto mais inventivo, não mais básico. Quanto mais poderoso o personagem, mais a encenação precisa trabalhar para mostrar o que significa enfrentá-lo. Caso contrário, a promessa de escalada vira decoração de roteiro.

Esse é o ponto em que a comparação com outras fases da própria série machuca. Em temporadas anteriores, o terror de Homelander vinha menos do número de vítimas e mais da imprevisibilidade: você nunca sabia quando a força absurda dele pisaria no mundo comum. Agora, quando a ação o reduz a um brutamontes premium, a série sacrifica o componente mais perturbador do personagem. Ele continua forte, mas parece menos assustador porque o texto nem sempre deixa essa força contaminar a mise-en-scène.

E isso vale para os demais supers. A coreografia não precisa ser elegante; ‘The Boys’ nunca pediu elegância. Mas precisa ser específica. Precisa deixar claro por que esta luta só poderia acontecer com estes personagens, neste universo, sob estas regras. Quando qualquer embate poderia ser transplantado para uma série de mercenários musculosos sem perder sentido, há algo errado.

Os dois episódios finais ainda podem corrigir a rota

A boa notícia é que ainda dá tempo de recuperar o impacto. Restando dois episódios, a série tem uma oportunidade óbvia: lembrar que seu melhor diferencial nunca foi apenas chocar, e sim transformar poder em linguagem dramática. O confronto final não precisa copiar ‘Herogasm’, mas precisa recuperar três coisas que aquele episódio entendia muito bem: geografia clara, uso estratégico de habilidades e risco narrativo palpável.

Se a reta final tratar os poderes como ferramentas que mudam decisões, e não como acessórios que interrompem uma trocação comum, The Boys temporada 5 ainda pode encerrar num nível digno da própria mitologia. Se não fizer isso, vai confirmar uma regressão estranha: uma série que passou anos satirizando super-heróis terminou filmando sua ação da forma mais genérica possível.

Meu ponto é simples: não falta violência em ‘The Boys’. Falta imaginação. E para uma série que sempre entendeu poder como desequilíbrio, grotesco e ameaça, isso é uma perda bem mais séria do que parece.

Vale para quem? Se você acompanha a série pelo comentário cínico sobre poder, propaganda e culto à celebridade, este debate importa porque a ação sempre foi extensão desse tema. Se você busca só pancadaria e catarse imediata, talvez a temporada ainda entregue o suficiente. Mas, para quem viu em ‘Herogasm’ a prova de que ‘The Boys’ podia fazer combate com ideia, a 5ª temporada realmente parece um passo atrás.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘The Boys’ temporada 5

‘The Boys’ temporada 5 é a última da série?

Sim. A 5ª temporada foi anunciada como o encerramento principal de ‘The Boys’, concluindo o conflito entre Butcher, Homelander e os demais personagens centrais.

Preciso ver ‘Gen V’ para entender ‘The Boys’ temporada 5?

Não é obrigatório, mas ajuda. ‘Gen V’ amplia o universo, apresenta personagens e conceitos que podem ganhar peso na reta final de ‘The Boys’, especialmente em temas ligados ao Compound V e às novas gerações de supers.

Em qual episódio acontece ‘Herogasm’ em ‘The Boys’?

‘Herogasm’ é o episódio 6 da 3ª temporada. Ele ficou marcado pelo confronto entre Homelander, Soldier Boy, Butcher e Hughie, além do tom extremo que consolidou sua fama entre os fãs.

Onde assistir ‘The Boys’ temporada 5?

‘The Boys’ é uma série original do Prime Video. A 5ª temporada deve ser disponibilizada exclusivamente na plataforma, seguindo o padrão das temporadas anteriores.

‘The Boys’ temporada 5 vale a pena para quem gostou das temporadas anteriores?

Vale, mas com ressalvas. Se o seu interesse principal está nos personagens, no humor ácido e na crítica ao espetáculo do poder, a temporada ainda tem apelo; se você esperava uma escalada clara na inventividade das cenas de ação, ela pode frustrar.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também