O plano-sequência de ‘Sinners’ que atravessa o tempo e entra para a história

O plano-sequência de ‘Sinners’ não é apenas um truque visual: é uma travessia temporal que rasga a verossimilhança do filme. Analisamos o risco narrativo de Ryan Coogler e a fotografia IMAX de Autumn Durald Arkapaw que consagraram a cena.

Lembro exatamente do segundo em que o sorriso tomou conta do meu rosto. Foi na segunda vez que assisti no cinema — na primeira, eu estava atordoado demais processando a ousadia daquilo. Quando Miles Caton, no papel do prodigioso Sammie, ataca o blues ‘I Lied to You’ e a câmera começa a girar, ‘Sinners’ deixa de ser apenas um filme de gêneros misturados para se tornar outra coisa. O Sinners plano-sequência é o momento em que um diretor decide explodir as regras do próprio filme e sai vitorioso.

O risco narrativo que trai o próprio filme

Ryan Coogler construiu uma América profunda na era Jim Crow com uma textura histórica palpável — chapéus fedora, metralhadoras Tommy e o blues sulista nascendo da dor real. E então, exatamente no ponto médio, ele faz a coisa mais insana possível: trai o próprio cenário. A narração já havia nos avisado que existe música ‘tão verdadeira que pode rasgar o véu entre a vida e a morte’. Quando Sammie toca, é isso que acontece. O véu se rasga.

De repente, um guitarrista invade o quadro com riffs elétricos e uma postura anacrônica de Jimi Hendrix. A câmera continua girando, e somos bombardeados por espíritos do futuro e do passado: artistas de hip-hop, músicos tribais da África Ocidental, performers de xiqu chinês, sustentados por um coral gospel que amarra a revolução musical de Sammie às suas raízes religiosas — e à traição espiritual do seu pai, a fonte de toda dor daquela letra.

Coogler deliberadamente sabota a imersão histórica para incorporar elementos fantásticos. É um risco colossal. Ele quebra a quarta parede da verossimilhança (não falando com a plateia, mas assumindo que aquele espaço é de make-believe, de mito). Se falhasse, seria ridículo e afastaria quem veio ver um filme de gângster ou de terror. Mas o Sinners plano-sequência funciona exatamente porque abraça o abismo. A lógica cede lugar à verdade emocional da música.

De Copacabana ao Delta do Mississippi: a gramática do plano-sequência

É fácil comparar cenas longas, mas a gramática importa. O plano da Copacabana em ‘Os Bons Companheiros’ de Scorsese é sobre mapear poder e acesso. O plano da bomba no carro em ‘A Marca da Maldade’ de Orson Welles é sobre mapear corrupção e tensão sufocante. O que Coogler faz aqui é mapear o tempo e a ancestralidade. A câmera não está acompanhando um personagem por um espaço físico; ela está atravessando séculos de criação e diáspora negra em uma jam session cósmica.

É o mesmo frisson intelectual que tive quando percebi, em ‘John Wick 4: Baba Yaga’, que Chad Stahelski estava mudando para um plano superior em estilo videogame na sequência do Dragon’s Breath. Aquele momento em que o cérebro decodifica a arquitetura da cena e você sorri de pura admiração cinéfila. Coogler usa a técnica do oner não para exibicionismo, mas porque apenas um plano sem cortes poderia unir passado, presente e futuro em um único fôlego.

IMAX, blocking e a fotografia que fez história

Autumn Durald Arkapaw fez história ao se tornar a primeira mulher a ganhar o Oscar de Melhor Fotografia em um século de Academia, e essa sequência sozinha justificaria a estatueta. Executar um plano-sequência desses em IMAX não é apenas uma questão de escala — é uma questão de fôlego. O formato de grande porte dá ao quadro uma imensidão que permite a Coogler transitar do íntimo — a dor cravada no rosto de Sammie — para o épico anacrônico sem perder a coesão espacial.

O movimento da câmera tem uma qualidade onírica, como se Arkapaw tivesse arrancado a imagem direto do subconsciente do diretor e a fixado no negativo. O blocking é tão milimetricamente preciso que, mesmo com o caos visual de guitarras elétricas e corais espirituais, cada batida cai exatamente onde e quando deve cair. A mudança constante de aspect ratio do filme, que já chamava atenção nas cenas de gângster, aqui se justifica como um rasgar de dimensões.

No fim, o que Coogler fez com essa montagem surreal é nos lembrar por que vamos ao cinema. Para ver o impossível. Para ver a opressão do Jim Crow se transmutar em uma colaboração musical que desafia a continuidade espaço-temporal. Poucos diretores teriam a coragem de explodir a própria lógica do filme para entregar algo assim. Coogler teve, e o cinema fica maior por causa disso.

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Perguntas Frequentes sobre a cena de ‘Sinners’

Quem é a diretora de fotografia de ‘Sinners’?

Autumn Durald Arkapaw assina a fotografia de ‘Sinners’. Ela fez história ao se tornar a primeira mulher a vencer o Oscar de Melhor Fotografia em 100 anos de Academia.

‘Sinners’ tem cenas filmadas em IMAX?

Sim. O filme utiliza câmeras IMAX, o que é essencial para o plano-sequência musical, permitindo que a câmera transite entre o íntimo e o épico com escala e resolução suficientes para manter a coesão espacial.

O que significa a cena musical do blues em ‘Sinners’?

A cena representa o momento em que a música é tão verdadeira e poderosa que ‘rasga o véu entre a vida e a morte’, unindo passado, presente e futuro da diáspora negra em uma única jam session cósmica, quebrando a lógica temporal do filme.

O plano-sequência de ‘Sinners’ muda o aspect ratio?

Sim. O filme inteiro brinca com a mudança de aspect ratio, mas é durante o plano-sequência musical que essa escolha se justifica narrativamente, agindo como um rasgar de dimensões que reflete a quebra da realidade na tela.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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