‘O Irlandês’: o elenco que salva o épico de um erro de formato

Analisamos como o elenco de ‘O Irlandês’ salva o épico de Scorsese de seu próprio formato. Com destaque para a cena de Anna Paquin, explicamos por que os 209 minutos imploravam por uma minissérie, não por um longa exaustivo.

Duração não é sinônimo de profundidade. Quando Martin Scorsese anunciou ‘O Irlandês’ com seus 209 minutos, parte da crítica comemorou o suposto ‘evento cinematográfico’. Eu assisti ao filme na estreia e saí com uma sensação incômoda: a obra-prima estava lá, mas afogada em um formato equivocado. O que realmente salva o projeto não é a pretensão épica do diretor, mas sim O Irlandês elenco, um dos mais impressionantes já reunidos, que carrega nas costas o peso de uma falha estrutural grave.

De Niro, Pacino e Pesci: o motor silencioso e o barulhento

De Niro, Pacino e Pesci: o motor silencioso e o barulhento

A Netflix demorou anos para provar que podia fazer cinema de prestígio para concorrer no Oscar, e não apenas empurrar entretenimento viral. Com um orçamento de quase 250 milhões de dólares, a plataforma finalmente teve seu troféu de legitimação em 2019. A estratégia era clara: juntar lendas vivas. Reunir Robert De Niro e Al Pacino sob a direção de Scorsese já seria suficiente para vender qualquer projeto, mas o diretor foi além. Ele tirou Joe Pesci da aposentadoria.

E que Pesci temos aqui. Esqueça o gangster explosivo de ‘Os Bons Companheiros’. Russell Bufalino é um monstro de silêncios, uma força gravitacional que controla a sala sem levantar a voz. A dinâmica entre ele e De Niro — que faz um Frank Sheeran brutalmente passivo, uma versão envelhecida e obtusa da toxicidade masculina de ‘Touro Indomável’ — é o motor silencioso do filme. Pacino, por outro lado, faz o que sabe de melhor: devora o cenário como Jimmy Hoffa. É uma atuação de exteriorização máxima, o contrapeso barulhento necessário para a surdez moral de Frank.

Por que Anna Paquin é a verdadeira consciência do filme

Se o trio principal entrega exatamente o que a lenda promete, a verdadeira surpresa vem de quem menos fala. Anna Paquin, como Peggy Sheeran, rouba o longa em um tempo de tela cruelmente curto. A cena em que ela apenas olha para o pai no carro após entender o que ele fez a Hoffa é devastadora. Não há diálogo, não há explosão dramática. Apenas o olhar de uma filha que percebe que o homem à sua frente é um monstro, e que a proteção que ele oferecia na infância era paga com sangue.

É o melhor trabalho da carreira de Paquin, e justamente por isso dói tanto. Ela é a consciência do filme, o fio condutor emocional que Scorsese deixa escorregar pelos dedos ao priorizar a cronologia exaustiva dos assassinatos em detrimento do relacionamento pai-e-filha. O conflito moral de Frank, visto através dos olhos de Peggy, teria rendido um estudo de personagem muito mais profundo do que a contagem de corpos da máfia de Philadelphia.

O erro de formato: 209 minutos que imploravam por pausas

O erro de formato: 209 minutos que imploravam por pausas

Aqui está o problema central que ninguém na Netflix quis admitir na época: 209 minutos não são um filme, são uma maratona. A história de Frank Sheeran abrange quatro décadas, e o desgaste do ritmo é inevitável. Há uma diferença fundamental entre um filme longo porque precisa ser (como ‘Apocalypse Now’) e um filme longo porque se recusa a admitir que é outra coisa. ‘O Irlandês’ sofre de um problema comum na plataforma — confunde grandiosidade com qualidade.

Pense na estrutura. Temos a ascensão de Frank, a consolidação da máfia, o conflito com Hoffa, o declínio e a velhice. Cada um desses atos tem densidade suficiente para um capítulo de uma minissérie. Ao forçar essa narrativa expansiva em um único arquivo de streaming, Scorsese comete o pecado do ritmo. A tensão que deveria se acumular até o assassinato de Hoffa se dissolve em repetições e cenas de transição que poderiam facilmente cortadas — ou expandidas, se tivessem o espaço certo. O desgaste é agravado pela tecnologia de rejuvenescimento digital, que em determinados pontos transforma a narrativa em uma demonstração técnica cansativa, afastando o espectador da emoção pura que o elenco tenta entregar.

Como a divisão em capítulos salvaria o ritmo e o espectador

A ironia é que a Netflix é a casa das minisséries. A plataforma tem um histórico de esticar narrativas finas em oito episódios, mas hesitou em dar a Scorsese o formato que sua história pedia. ‘O Irlandês’ é o caso inverso perfeito: uma história que implorava para ser serializada.

Se dividido em quatro ou seis capítulos, o épico de Scorsese poderia respirar. O primeiro episódio poderia focar na relação de Frank e Russell, estabelecendo o código de silêncio. O segundo, na entrada de Hoffa. O clímax do assassinato teria seu próprio espaço para construir e liberar a tensão, e o último episódio — a velhice solitária e o arrependimento mudo de Frank no asilo — teria o peso trágico de um epílogo, não o de um final que chega quase como um alívio para o espectador exausto.

No fim das contas, ‘O Irlandês’ é uma obra que merece existir, mas raramente é revisitada em uma sentada. O elenco é tão bom que perdoamos os pecados de ritmo, mas não deveríamos ter que fazer isso. É um filme que carrega o peso de suas próprias ambições, e a culpa nunca é dos atores. Se você tem paciência para os tempos mortos do segundo ato, a recompensa vem na forma das atuações. Se não, tente assistir em partes — porque, no fundo, é assim que essa história sempre quis ser contada.

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Perguntas Frequentes sobre ‘O Irlandês’

Onde assistir ‘O Irlandês’ de Martin Scorsese?

‘O Irlandês’ está disponível exclusivamente na Netflix desde novembro de 2019. Por ser um original da plataforma, não deve migrar para outros serviços de streaming.

Quanto tempo dura ‘O Irlandês’?

O filme tem 3 horas e 29 minutos (209 minutos) de duração. É um dos filmes mais longos da filmografia de Scorsese, exigindo paciência e atenção do espectador.

Por que Anna Paquin fala tão pouco em ‘O Irlandês’?

A personagem Peggy Sheeran tem apenas algumas poucas falas por escolha narrativa. O silêncio dela representa a reprovação e a desconexão emocional com o pai, Frank Sheeran. Seu olhar silencioso é mais poderoso do que qualquer diálogo de confronto.

‘O Irlandês’ é baseado em fatos reais?

Sim e não. O filme é baseado no livro ‘Eu Ouviste Que Pinta Casas’, de Charles Brandt, que relata as confissões do verdadeiro Frank Sheeran. No entanto, a veracidade das alegações de Sheeran sobre o assassinato de Jimmy Hoffa é amplamente contestada por historiadores e jornalistas investigativos.

A tecnologia de rejuvenescimento em ‘O Irlandês’ funciona bem?

O efeito é desigual. Em cenas de diálogo mais estáticas, a tecnologia é convincente; em momentos de ação física, o contraste entre o rosto jovem e os movimentos corporais envelhecidos dos atores quebra a ilusão e prejudica a imersão na narrativa.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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