‘A Rede Social 2’: por que fãs de Sorkin precisam ver ‘Obrigado Por Fumar’

Enquanto ‘A Rede Social 2’ se aproxima, analisamos por que ‘Obrigado Por Fumar’ compartilha o mesmo DNA de Sorkin: retórica como arma e anti-heróis corporativos. Entenda a conexão estrutural que justifica a maratona e onde o filme de 2005 tropeça onde Sorkin triunfaria.

2026 está se consolidando como o ano das sequências. De ‘Guerra nas Estrelas’ a ‘Pânico’, Hollywood parece obcecada por visitar velhos terrenos. Mas entre os retornos esperados, uma obra se destaca como o evento cinematográfico mais aguardado da temporada: A Rede Social 2. Com Aaron Sorkin de volta à caneta e Jeremy Strong (de Succession) assumindo o manto de Mark Zuckerberg no lugar de Jesse Eisenberg, a promessa é de um retorno àquele diálogo rápido, sarcástico e moralmente ambíguo que consagrou o original. Se você está sentindo falta dessa gramática específica de cinismo eloquente, existe um filme de 21 anos que coça essa mesma ferida com precisão cirúrgica: ‘Obrigado Por Fumar’.

A retórica como arma: de Nick Naylor a Mark Zuckerberg

A retórica como arma: de Nick Naylor a Mark Zuckerberg

Se o primeiro filme de David Fincher nos ensinou algo, é que um protagonista não precisa ser bom para ser fascinante. O Zuckerberg de Eisenberg despeja palavras como se cada segundo custasse caro, usando a lógica como arma para atordoar oponentes. Nick Naylor, o lobista do tabaco interpretado por Aaron Eckhart em ‘Obrigado Por Fumar’ (2005), opera no mesmo registro. Ele é um conversador ainda mais astuto; a diferença é que, em vez de código de programação, ele usa retórica pura.

Aquela cena em que Nick aperta a mão de um paciente com câncer em um programa de TV ao vivo é desconcertante. Eckhart sorri, vira o jogo com um eufemismo e, por um segundo bizarro, quase faz você acreditar que a indústria do tabaco é a verdadeira vítima. É o mesmo truque de ‘O Lobo de Wall Street’: a sedução do discurso imoral. A capacidade de dar um giro positivo na morte por dinheiro define tanto Naylor quanto o Zuckerberg de Sorkin — eles convencem porque acreditam na própria retórica.

A infraestrutura do cinismo e os ‘Mercadores da Morte’

Nenhum desses homens opera no vácuo. Nick Naylor pode ser o mestre do jogo, mas é apenas o porta-voz de uma máquina que se alimenta de lucro acima da saúde pública. Ele integra os Mercadores da Morte, um trio de lobistas que também inclui representantes do álcool e de armas de fogo. A piada é amarga e autoconsciente, exatamente o tipo de comentário social afiado que Sorkin mastiga e cospe em seus roteiros.

Em ‘A Rede Social’, a ganância corporativa não vende cigarros, mas vende a ideia de conexão enquanto isola seus criadores. A mesma frieza calculada das reuniões de cúpula em ‘Obrigado Por Fumar’ permeia as traições de Eduardo Saverin e as manobras de Sean Parker. Os dois filmes entendem que o verdadeiro horror não está no indivíduo carismático, mas na infraestrutura de capital que o sustenta e o torna intocável.

O tribunal como palco — e onde Jason Reitman tropeça

O tribunal como palco — e onde Jason Reitman tropeça

Aqui chegamos ao esqueleto estrutural que conecta essas obras de forma indelével: o tribunal. Sorkin estreou no cinema com ‘Questão de Honra’ e nunca escondeu sua obsessão por dramas legais. ‘A Rede Social’ não é apenas um filme de origem do Facebook; é um longo e melancólico depoimento judicial que se desenrola de forma não linear, usando o processo como espelho para as falhas morais de Zuckerberg.

‘Obrigado Por Fumar’ também culmina em uma sessão no congresso, sob o escrutínio do senador Finistirre (um excelente William H. Macy). No tribunal, assim como Zuckerberg, Naylor é arrogante, usa linguagem condescendente e se recusa a admitir culpa. Contudo, preciso ser direto: é aqui que Jason Reitman perde o passo. Enquanto Sorkin usa o tribunal para desmascarar a solidão patética de Mark, ‘Obrigado Por Fumar’ deixa Naylor satisfeito consigo mesmo até o fim. O filme se torna surdo para o próprio ponto moral, transformando o que deveria ser uma queda em uma vitória de autoajuda. Sorkin nunca permitiria que seu anti-herói escorregasse tão barato.

A sintaxe de Sorkin e o apetite para ‘A Rede Social 2’

Assistir a um roteiro de Sorkin é como assistir a uma peça de teatro; há sempre uma consciência de um público implícito ou literal na tela. O monólogo interno de Nick Naylor flui com um ritmo tão cadenciado que, assistindo hoje, é impossível não ouvir os ecos de Sorkin — aqueles diálogos sobrepostos onde quem fala mais rápido ganha o round. A diferença fundamental é o tom. Onde Sorkin opta pelo drama trágico, ‘Obrigado Por Fumar’ escolhe a sátira aberta.

Saber que esse filme foi lançado meia década antes de ‘A Rede Social’ me faz questionar por que ele não é mais celebrado. Sua mensagem sobre a banalização da verdade corporativa nunca foi tão relevante. E é exatamente por isso que ele é a preparação perfeita para o que está por vir. Se A Rede Social 2 pretende mapear as novas fronteiras da manipulação digital e da ganância das Big Techs, vale lembrar que os alicerces dessa linguagem — a retórica que justifica o injustificável — já haviam sido magistralmente dissecados na firma de tabaco de Nick Naylor.

Se você curte o ritmo cerebral e aguenta a amargura de ver o vilão ganhar o debate, a maratona dos dois é obrigatória. Mas fico com a pergunta: quando Jeremy Strong se sentar na cadeira das deposições em 2026, será que Sorkin terá a coragem de, finalmente, fazer o charme pagar o preço que Nick Naylor nunca pagou?

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘A Rede Social 2’ e ‘Obrigado Por Fumar’

Quem substituiu Jesse Eisenberg como Mark Zuckerberg em ‘A Rede Social 2’?

Jeremy Strong, conhecido por seu papel como Kendall Roy em Succession, assumiu o papel de Mark Zuckerberg no novo filme, substituindo Jesse Eisenberg do original de 2010.

Aaron Sorkin dirigiu ‘Obrigado Por Fumar’?

Não. ‘Obrigado Por Fumar’ foi escrito e dirigido por Jason Reitman, baseado no romance de Christopher Buckley. Aaron Sorkin escreveu o roteiro de ‘A Rede Social’, mas não tem envolvimento com o filme de Reitman, embora as obras compartilhem temáticas e estilos de diálogos semelhantes.

O que é o grupo ‘Mercadores da Morte’ em ‘Obrigado Por Fumar’?

Os ‘Mercadores da Morte’ são um trio informal de lobistas que se reúnem regularmente no filme, representando as indústrias do tabaco (Nick Naylor), álcool (Polly Bailey) e armas de fogo (Bobby Jay Bliss). Eles trocam táticas de relações públicas para manipular a opinião pública sobre produtos letais.

‘A Rede Social 2’ tem previsão de estreia?

Sim, ‘A Rede Social 2’ está previsto para estreia em 2026. O filme marca o retorno de Aaron Sorkin ao roteiro e promete explorar as novas fronteiras da manipulação digital e as consequências morais das ações das Big Techs.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também