Com míseros 19% no Rotten Tomatoes, ‘The Idol’ inexplicavelmente virou top 4 global na HBO Max. Analisamos como o formato de binge-watching e a curiosidade mórbida resgataram a série de Sam Levinson do fracasso semanal, transformando lixo pretensioso em hit de streaming acidental.
Existe um fenômeno estranho acontecendo nos algoritmos da HBO. ‘The Idol’, a série que uniu críticos e público em uma voz de repúdio quase unânime em 2023, acabou de subir para o 4º lugar global na plataforma. Segundo o FlixPatrol, ela está em alta em 43 países — no Brasil, ocupa a 8ª posição; na Itália, o 4º. Como uma série com míseros 19% de aprovação no Rotten Tomatoes consegue esse feito? A resposta não está na qualidade do roteiro, mas na nossa velha amiga: curiosidade mórbida. E, claro, no poder do formato de maratonas. Procurar por The Idol HBO Max hoje não é um compromisso semanal; é um acidente de trânsito que você consegue olhar do início ao fim em uma única noite.
O efeito binge-watching e o resgate do ‘lixo prestigiado’
Quando ‘The Idol’ estreou em junho de 2023, o formato de episódios semanais foi sua sentença de morte. A cada domingo, éramos forçados a digerir aquele textão de Sam Levinson — pretensioso, vazio e cheio de clichês sobre a indústria da música. Esperar sete dias para um payoff que nunca vinha era exaustivo. Mas a dinâmica muda completamente quando a série se torna disponível de uma vez. O binge-watching transforma o que era ‘chato e sem noção’ em um trash delicioso. Você não espera o episódio seguinte com expectativa intelectual; você aperta play porque quer ver qual absurdo o Tedros vai inventar agora. A maratona anestesia o tédio. Em pouco mais de quatro horas — já que a temporada foi encurtada de seis para cinco episódios nos bastidores —, você consome o caos inteiro sem dar tempo para o cérebro questionar a falta de substância.
A gramática do escândalo: por que não conseguimos parar de olhar
A crítica Graeme Guttmann acertou na mosca ao chamar a série de ‘tudo estilo, nenhuma substância’. Mas é justamente esse estilo que a torna um imã de visualizações. Sam Levinson tem um talento indiscutível para criar imagens hipnóticas — é o mesmo cara que dirige ‘Euphoria’, que ironicamente também está no topo das paradas globais agora. A diferença é que em ‘Euphoria’, o neon e a câmera lenta servem a emoções genuínas; aqui, servem a um ego inflado. A atração pela série é a mesma de passar os olhos por uma fofoca escandalosa: sabemos que a representação da indústria musical é um reducionismo bizarro, mas a estética de videoclipe fascista que o show retrata exerce um fascínio doentio.
Jocelyn, Tedros e o vazio de autoconsciência
A dinâmica entre Jocelyn (Lily-Rose Depp) e Tedros (Abel Tesfaye, o The Weeknd) é o núcleo do problema e da solução do show. Ela é a pop star frágil e manipulável; ele, o guru de seita de autoajuda com penteado duvidoso e pousas de roqueiro marginal. A série sofre de um grave problema de autoconsciência: quer ser um comentário ácido sobre a exploração na indústria, mas acaba replicando exatamente o que critica. Lembro de uma cena específica no clube, onde Tedros ‘avalia’ Jocelyn como um cavalo de leilão. É constrangedor, mas filmado com uma luz vermelha e uma trilha pulsante que tenta convencer você de que aquilo é profundo. Não é. Mas no formato de maratona, você apenas ri do absurdo e passa para a próxima cena.
O fracasso americano e a vitória do trash global
Curiosamente, esse renascimento não aconteceu nos Estados Unidos. O Top 10 americano da HBO continua dominado por ‘Euphoria’ e ‘The Pitt’, enquanto ‘The Idol’ nem aparece na lista nacional. Isso revela muito sobre o consumo cultural: o público americano, que acompanhou a bad semanal em tempo real e as reportagens sobre os bastidores tóxicos — incluindo a saída da diretora Amy Seimetz e as reformulações de última hora —, já deu o caso por encerrado. Já o público global, menos saturado pelo escândalo da época do lançamento, está descobrindo a série agora como um daqueles filmes B que a gente assiste só para zombar. É o apelo do ‘tão ruim que é bom’ funcionando em escala macro.
No fim, o sucesso de ‘The Idol’ no streaming não é uma reabilitação crítica. Ninguém está dizendo que o roteiro envelheceu bem ou que Levinson era um gênio incompreendido. O que estamos vendo é o algoritmo alimentando o nosso instinto mais básico de espiar o desastre alheio. Se você consegue separar o joio do trigo e curtir uma maratona de psicanálise de balcão e estética de videoclipe, vá em frente. Mas se você busca a densidade de ‘Família Soprano’ ou o mistério de ‘True Detective’, pule esta seita. Fica a pergunta: se uma série falha ao tentar ser arte, mas vira hit como entretenimento acidental, ela foi um fracasso total ou apenas um sucesso bizarro?
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘The Idol’
Onde assistir ‘The Idol’?
‘The Idol’ está disponível exclusivamente na HBO Max (ou Max, dependendo da região). Por ser uma produção original da plataforma, não deve migrar para outros serviços de streaming.
Quantos episódios tem ‘The Idol’?
A primeira (e única) temporada tem 5 episódios. Originalmente, seriam seis, mas a série passou por reformulações nos bastidores e o número foi reduzido, o que acaba favorecendo o formato de maratona.
‘The Idol’ vai ter 2ª temporada?
Não. A HBO cancelou a série logo após o fim da primeira temporada, em agosto de 2023. O atual sucesso no streaming é um fenômeno posterior ao cancelamento.
Por que ‘The Idol’ foi tão criticado?
A série foi acusada de ter um roteiro raso e pretensioso, nudez gratuita e falta de autoconsciência ao replicar os mesmos vícios da indústria musical que tentava criticar. Os bastidores conturbados, com troca de diretora e reescritas, também prejudicaram a recepção.

