Com apenas 26% no Rotten Tomatoes, o Biopic Michael Jackson revela o abismo entre o hype de festivais e a realidade crítica. Analisamos como a estratégia de franquia sufocou o roteiro e por que a nota coloca os US$ 500 mi da Lionsgate em risco real.
Em 2024, na CinemaCon, exibidores aplaudiram de pé os primeiros trechos do Biopic Michael Jackson. Em Berlim, a recepção foi polida. Era a promessa de um evento pop global. Agora, com as críticas finalmente liberadas, a realidade é fria: 26% de aprovação no Rotten Tomatoes. O abismo entre o empurrão comercial de quem vende ingresso e a dissecção de quem analisa o filme nunca foi tão evidente — e as implicações vão muito além do ego da produção.
De aplausos em convenção a notas baixas: a cirurgia de emergência no roteiro
Existe uma diferença colossal entre exibir trechos empolgantes para um público de negócios sedento por produto e lançar o filme completo para críticos que vão dissecar cada escolha narrativa. Dirigido por Antoine Fuqua e roteirizado por John Logan, ‘Michael’ supostamente tinha um material bruto de quatro horas. O filme que chega às telas é o resultado de cortes profundos, incluindo quase um mês de refilmagens para ajustar o rumo. O resultado dessa cirurgia de emergência é o que a nota de 26% reflete: uma obra de ritmo arrastado e final questionável. Não são falhas acidentais; são as cicatrizes de um estúdio tentando emendar um tecido que rasgou na costura, comprometendo a estrutura narrativa em prol de apaziguamento legal e comercial.
A armadilha da franquia e o medo de contar a história inteira
O gênero de biopic musical vive numa corda bamba, e a linha que separa a hagiografia da honestidade é muito fina. Quando ‘Rocketman’ decidiu fantasiar a vida de Elton John como um musical surreal, funcionou. Quando ‘Bohemian Rhapsody’ sanitizou a vida de Freddie Mercury, a crítica rejeitou (60% no Rotten Tomatoes), mas o público perdoou (85%). O problema central deste Biopic Michael Jackson é a abordagem covarde diante de uma vida que exige complexidade. Relatos indicam que o filme foca primariamente nos estágios iniciais da carreira, adiando as zonas de sombra para potenciais sequências. É a promessa de uma franquia sufocando a necessidade de uma história autossuficiente. Nenhum crítico respeita um filme de três horas que funciona como um piloto de luxo para uma temporada que talvez nunca aconteça, negando ao protagonista o seu arco dramático mais essencial.
A conta da Lionsgate: como 26% ameaçam US$ 500 milhões
Vamos aos números, porque é aqui que a nota de 26% deixa de ser um mero selo vermelho num site de críticas e vira uma facada no balanço financeiro da Lionsgate. O orçamento de ‘Michael’ ultrapassou a marca de US$ 200 milhões. Some os custos massivos de marketing, os atrasos pela greve da SAG-AFTRA, as refilmagens e a divisão com os cinemas, e o ponto de equilíbrio para o filme apenas empatar beira os impressionantes US$ 500 milhões. O estúdio projetava uma abertura doméstica entre US$ 55 e 60 milhões, o que seria a segunda melhor estreia do gênero. Mas a matemática do cinema não perdoa: o público de biopic musical não tem a mesma tolerância a notas baixas que o público de franquias de quadrinhos. Sem o empurrão do boca a boca positivo, as semanas seguintes despencam. Se a qualidade não segura a bilheteria, alcançar meio bilhão de dólares se torna um milagre comercial.
O que ‘Better Man’ fez certo e ‘Michael’ errou
Olhe para o panorama de musicais biográficos da última década e você entenderá por que ‘Michael’ afunda. Temos obras que ousam e triunfam, como ‘A Voz Suprema do Blues’ (97%) e ‘Better Man – A História de Robbie Williams’ (89%, que colocou o cara em CGI de macaco e foi brutalmente honesto sobre o vício). No fundo do poço, estão os que tentam o caminho seguro e falham: ‘Back to Black’ (35%), o biopic de Whitney Houston (43%) e agora este. A diferença entre os 89% de ‘Better Man’ e os 26% de ‘Michael’ é a diferença entre a visão autoral e o cálculo de risco. O elenco é impecável — com Colman Domingo como o patriarca Joe Jackson e o sobrinho Jaafar Jackson no papel principal —, mas atuação não salva um roteiro que teme o próprio protagonista.
Os 26% de ‘Michael’ são o preço de tentar transformar uma vida inerentemente trágica e controversa em um produto de consumo seguro e expansível. A Lionsgate pode até torcer para que a nota do público seja alta, como ocorreu com ‘Elvis’ (77% da crítica vs. 94% do público) e ‘The Dirt’ (38% da crítica vs. 94% do público). Mas ultrapassar a barreira dos US$ 500 milhões exigiria uma adesão popular que desafiaria toda a lógica de mercado atual. Fica a pergunta que o estúdio deveria ter se feito antes de assinar um cheque de 200 milhões: até que ponto o fã de Michael Jackson está disposto a pagar por uma versão capada e incompleta de uma história que ele já conhece de cor?
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Perguntas Frequentes sobre o Biopic Michael Jackson
Qual a nota do filme ‘Michael’ no Rotten Tomatoes?
O biopic ‘Michael’ estreou com uma aprovação de apenas 26% no Rotten Tomatoes, refletindo a rejeição da crítica especializada à abordagem do filme.
Por que o biopic de Michael Jackson está sendo tão criticado?
As críticas apontam que o filme tem um ritmo arrastado e sofre de uma abordagem ‘covarde’, focando nos primeiros anos da carreira e adiando as controvérsias para possíveis sequências, o que transforma a obra em uma hagiografia incompleta.
Quanto custou o filme ‘Michael’ da Lionsgate?
O orçamento de produção ultrapassou US$ 200 milhões. Somando os custos de marketing, refilmagens e a divisão com os cinemas, o ponto de equilíbrio financeiro do filme beira os US$ 500 milhões.
Quem interpreta Michael Jackson no novo filme?
O sobrinho do cantor, Jaafar Jackson, interpreta Michael Jackson no filme. O elenco também conta com Colman Domingo no papel do pai, Joe Jackson.
‘Michael’ vai ter uma sequência?
A intenção da Lionsgate era iniciar uma franquia, adiando as fases mais controversas da vida do cantor para filmes futuros. No entanto, com a fraca recepção crítica e o alto risco financeiro, o futuro dessa sequência é incerto.

