Em ‘Counterpart’, o multiverso não é espetáculo de CGI, mas desculpa para um thriller de espionagem. Analisamos como a série ignora a física quântica para focar na identidade e por que o duelo de J.K. Simmons consigo mesmo é o melhor uso do conceito na TV.
Estamos afogados em multiversos. De Marvel a animações premiadas, a ficção científica contemporânea parece obcecada por expandir horizontes até o esgotamento — e a nossa paciência. Buracos de minhoca com CGI extravagante, diagramas explicando ramificações temporais, infinitas variantes de um mesmo personagem brigando em telas verdes. É muito barulho para pouco impacto. Foi nesse cenário de fadiga de multiverso que fui resgatar Counterpart, a série de 2017 do Starz criada por Justin Marks, e a experiência foi um choque de realidade. Não pelo que ela mostra, mas pelo que ela deliberadamente se recusa a explicar.
A premissa soa familiar: um experimento científico na Guerra Fria dividiu a realidade em dois mundos idênticos, Alpha e Prime. Mas em vez de gastar seus primeiros episódios desenhando a mecânica do portal ou explicando a física quântica da dobra espacial, a série simplesmente nos joga no escritório de uma agência governamental em Berlim. A travessia entre os mundos não é um espetáculo visual; é uma porta vigiada por burocratas. É aí que reside o achado narrativo da obra: ela troca o excesso da ficção científica pela tensão palpável de um thriller de espionagem.
O multiverso que importa é o das escolhas, não o da física quântica
A maioria das séries de ficção científica sofre de um complexo de deus: precisa provar que construiu um universo com regras lógicas impecáveis. Perde-se páginas de roteiro explicando como as coisas funcionam. Counterpart faz o oposto. Ela estabelece que o portal existe, que as pessoas atravessam e que os dois lados desenvolveram um sistema de vigilância e controle paranoico. Ponto. Não precisa de mais nada.
Ao ignorar o ‘como’, a série libera espaço vital para o ‘quem’. Os mundos Alpha e Prime não são apenas cenários contrastantes para perseguições — embora as perseguições sejam excelentes. Eles são reflexos estruturados um do outro. As pessoas têm a mesma história, os mesmos pais, as mesmas famílias, até o momento em que a realidade se bifurcou. A divergência não está na cor do céu, mas nas microescolhas que moldam o caráter.
Isso atinge o ápice na construção de Howard Silk, interpretado com uma precisão cirúrgica por J.K. Simmons. O Howard do Alpha é burocrata, de voz branda, um homem que a vida engoliu vivo. O Howard do Prime é calejado, letal, um operador que mergulhou de cabeça no jogo sujo da espionagem. A série nunca assume que um é o ‘verdadeiro’ e o outro a cópia defeituosa. Eles são dois lados da mesma moeda, e a tragédia está em ver como as circunstâncias transformaram o mesmo homem em pessoas completamente diferentes.
Por que a espionagem é a única resposta lógica para o multiverso
Misturar gêneros é um risco que poucas produções conseguem equilibrar. Geralmente, a ficção científica ofusca o thriller, ou o thriller usa a ficção científica apenas como isca visual. Aqui, a fusão é orgânica e inseparável. A própria existência de dois mundos cria a dinâmica perfeita para uma Guerra Fria paralela.
Pense na lógica: se você tem um mundo irmão que desenvolveu uma cura para uma praga que mata o seu, ou que sabe onde estão depósitos de petróleo que você não tem, você não manda um cientista negociar. Você manda um espião. A escassez e o segredo transformam a travessia dimensional em uma questão de segurança nacional. Infiltração, contra-inteligência e traição deixam de ser apenas temáticos e se tornam a única resposta lógica para a coexistência dessas realidades.
O resultado é que a série se assiste como um thriller de John le Carré. A tensão não vem de um laser cruzando o portal, mas de saber que o diplomata do outro lado da mesa pode ser um agente duplo — ou pior, a versão do seu vizinho que tomou decisões bem mais sombrias. A ficção científica é a cola que sustenta o mundo, mas a espionagem é o motor que move a trama.
O duelo de J.K. Simmons consigo mesmo (e como a direção os separa)
Reassisti ao piloto recentemente, e a frieza com que a série constrói seu universo é um achado raro. A cena de abertura mostra Howard Alpha em uma sala burocrática e mal iluminada, jogando um jogo de palavras sem sentido aparente com um interlocutor que não vemos. Não há explosões. Há apenas o absurdo de um ritual de uma agência que nem ele parece entender direito. Quando o conceito do multiverso é revelado, o impacto não vem de um efeito visual, mas da constatação de que aquele escritório cinzento é, na verdade, a linha de frente de uma guerra silenciosa.
E então entra o Prime. A primeira vez que os dois Howards se enfrentam cara a cara é um exercício de sutileidade que rende uma das melhores atuações da carreira de Simmons. Ele não recorre ao clichê do espelho maligno. Constrói a diferença na postura, no modo de olhar, na forma como cada um ocupa o espaço da sala. O Alpha encolhe os ombros em um casaco amassado; o Prime invade o ambiente com um terno impecável e um olhar de predador. A direção de fotografia reforça o contraste: o mundo Alpha tem tons quentes e decaídos, enquanto o Prime é frio, estéril e azulado. O terror não está em enfrentar um alienígena, mas em encarar a versão de si mesmo que teve a coragem que você nunca teve — ou que tomou o atalho que você recusou.
O cancelamento que prova que a série incomodava
É impossível falar de Counterpart sem mencionar o elefante na sala: a série foi cancelada após apenas duas temporadas. E esse cancelamento diz muito sobre a indústria atual. Vivemos uma era que prefere respostas fáceis e expansões de universo a histórias que exigem paciência. Uma série que usa o multiverso como pano de fundo para um estudo melancólico sobre arrependimento e escolhas é um risco para o algoritmo.
A segunda temporada expandiu os horizontes de forma orgânica, aprofundando a política entre os mundos, mas manteve o foco firme nos personagens. O fim sem resolução definitiva é frustrante, mas de certa forma, condiz com a obra. A série nunca prometeu explicar o universo inteiro. Ela prometeu mostrar o que acontece quando você encontra o seu reflexo no corredor e percebe que ele é melhor — ou pior — do que você.
Counterpart é um lembrete urgente de que a ficção científica não precisa de orçamentos astronômicos para funcionar. Ela precisa de ideias afiadas e personagens que importam. Se você curte a tensão paranoica de ‘Tinker Tailor Soldier Spy’ e aguenta um ritmo que privilegia o silêncio em detrimento da explosão, esta série é essencial. Se você precisa de batalhas com varinhas e portais brilhantes para se manter interessado, melhor ficar no multiverso da Marvel. Às vezes, a verdadeira ficção científica está na porta sem graça de um escritório em Berlim.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Counterpart’
Onde assistir a série Counterpart?
‘Counterpart’ está disponível no Amazon Prime Video no Brasil. As duas temporadas da série podem ser assistidas na plataforma de streaming.
Por que Counterpart foi cancelada?
A série foi cancelada após a 2ª temporada pela Starz devido à combinação de audiência abaixo das expectativas e o alto custo de produção. O formato denso e nichado não se alinhou com a busca do canal por hits mais populares e algoritmos favoráveis.
Counterpart tem 3ª temporada?
Não. O cancelamento foi definitivo em 2019 e não há previsão de revival. O criador Justin Marks chegou a revelar publicamente os planos que tinha para a continuação da história, mas a série se encerrou de forma abrupta na segunda temporada.
Precisa entender de ficção científica para assistir Counterpart?
Não, e esse é o seu grande diferencial. A série ignora deliberadamente as explicações científicas do multiverso. Se você gosta de thrillers de espionagem e clima de Guerra Fria, vai se sentir em casa mesmo odiando ficção científica tradicional.

