Com 47% da crítica e 75% do público no Rotten Tomatoes, ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ expõe o abismo entre especialistas e espectadores. Analisamos por que Glen Powell funciona como anti-herói carismático e o que o fracasso de bilheteria significa para a A24.
Existe um fenômeno cada vez mais comum no cinema contemporâneo que merece atenção: o abismo entre o que críticos pensam e o que públicos sentem. Manual Prático da Vingança Lucrativa, novo thriller da A24 estrelado por Glen Powell e dirigido por Eli Horowitz (co-criador de “Homecoming”), é o caso mais recente — e um dos mais extremos. No Rotten Tomatoes, a diferença chega a 28 pontos percentuais: 47% dos críticos aprovaram, contra 75% do público. Isso não é coincidência. É sintoma de algo maior.
Os números são eloquentes, mas precisamos ir além deles. O que exatamente está acontecendo aqui? Por que um filme que conquista três em cada quatro espectadores comuns deixa fria metade da crítica especializada? E, talvez mais intrigante: como um filme com boca a boca tão positivo pode ter fracassado tanto na bilheteria?
O que Manual Prático da Vingança Lucrativa faz certo — e por que o público está perdoando seus defeitos
A premissa é simples, quase clássica: Beckett, interpretado por Powell, é um filho ilegítimo expulso da família Redfellow — clã de bilionários com sobrenome que soa como sátira de aristocracia britânica. Quando as contingências da herança familiar o colocam no caminho de uma fortuna, ele decide eliminar cada parente que atravessa seu caminho. Sim, é As Oito Vítimas (1949) revisitado, que por sua vez bebia do romance Israel Rank de Roy Hornim — uma genealogia de humor negro britânico que encontra na A24 seu herdeiro espiritual.
O público está respondendo a algo específico: Glen Powell construiu um personagem que equilibra charme e sociopatia com precisão cirúrgica. Críticos mencionam “essência de Patrick Bateman”, e a comparação não é injusta — mas há uma diferença crucial. O Beckett de Powell não é a sátira gelada de American Psycho. É algo mais acessível, mais divertido de assistir. Aquele tipo de anti-herói que você torce para ter sucesso, mesmo sabendo que moralmente deveria querer que ele falhe.
Os visuais estilizados que acompanham as “escapadas assassinas” de Beckett foram outro ponto elogiado — e corretamente. Lila Hime, a diretora de fotografia que assinou o visual de The Curse, entendeu a tarefa: quando seu protagonista é um assassino serial movido por ganância, a solução não é esconder o horror, mas estetizá-lo de forma que o público consiga se entregar ao jogo. A sequência do jantar de aniversário da tia Marge é exemplar — a câmera flutua em torno da mesa enquanto Beckett envenena a sobremesa, e a coreografia de olhares e sorrisos falsos cria uma tensão quase cômica. Funciona. A plateia ri, se diverte, e sai do cinema sentindo que recebeu exatamente o que o trailer prometia.
Onde a crítica tem razão: os problemas que o público está convenientemente ignorando
Dizer que o público está “certo” e a crítica “errada” seria simplificar demais. Os problemas apontados pelos reviewers são reais — a questão é se eles importam tanto quanto eles acham que importam.
O ritmo é de fato inconsistente. Há momentos em que a narrativa parece marcar passo, especialmente no segundo ato, quando a mecânica dos assassinatos começa a se repetir sem adicionar camadas novas ao personagem. A crítica também acerta no diagnóstico do humor: o filme quer ser comédia negra, mas frequentemente perde o timing. Piadas que deveriam cortar o ar ficam flutuando, sem a crueldade necessária para funcionar.
Mas o ponto mais interessante é a acusação de “abordagem forçada” do tema “eat the rich”. Aqui, preciso discordar parcialmente do consenso crítico. Sim, a sátira de classe é superficial superficial — mas será que isso é realmente um defeito neste tipo de filme? Quando entro em um thriller de vingança com premissa de “herdeiro matando parentes para ficar rico”, não espero Parasita. Espero entretenimento afiado. E nesse quesito, Manual Prático da Vingança Lucrativa entrega.
O que vejo é uma crítica exigindo profundidade temática de um filme que nunca prometeu ser profundo. É como cobrar reflexão social de John Wick. Às vezes, cinema é só cinema — e isso deveria bastar.
Glen Powell e o problema de identidade em Hollywood
Este é o segundo fracasso consecutivo de Powell em bilheteria, após O Sobrevivente, remake de Stephen King. Isso levanta uma pergunta desconfortável: afinal, quem é Glen Powell como star?
Ele tem carisma inegável. Sua performance em Todos Menos Você (2023) provou que pode carregar uma comédia romântica com facilidade antiga — tipo de charme que lembrava os grandes do gênero. Mas Todos Menos Você também marcava um fenômeno interessante: enorme diferença entre crítica e público, similar ao que vemos agora. Parece haver um padrão.
Powell está construindo uma carreira em filmes que a crítica considera “descartáveis” mas o público adora. Isso é sustentável? História de Hollywood sugere que sim — pelo menos por um tempo. Stars como Matthew McConaughey construíram décadas de sucesso em filmes que a crítica torcia o nariz antes de encontrar sua fase “McConaissance”. O mesmo pode acontecer com Powell.
Seu próximo projeto, The Great Beyond, é aposta diferente: ficção científica com J.J. Abrams na direção e elenco que inclui Jenna Ortega e Emma Mackey. Chega em novembro de 2026. Se funcionar, Powell terá provado que pode transitar entre entretenimento “pop” e projetos com maior pretensão. Se falhar, as perguntas sobre sua viabilidade comercial vão aumentar.
A24 e o enigma de um “flop” com 75% de aprovação
Para a A24, Manual Prático da Vingança Lucrativa representa algo incomum: um provável prejuízo financeiro em um filme que o público genuinamente gosta. Com orçamento de $40 milhões e estreia de apenas $3.3 milhões no mercado doméstico, o caminho para lucro é praticamente inexistente. O filme chegou em sexto lugar, atrás de O Morro dos Ventos Uivantes, O Trote, Socorro!, Caminhos do Crime e Eu Só Posso Imaginar 2. Nenhum desses títulos é blockbuster, o que torna o desempenho ainda mais preocupante.
Mas aqui está onde fica interessante: filmes com forte boca a boca tendem a encontrar segunda vida no streaming. A diferença entre 47% e 75% no Rotten Tomatoes não é apenas curiosidade estatística — é indicação de que algo no filme está ressoando com audiências que a crítica não está capturando. E streaming vive disso.
A A24 tem história de transformar “fracassos” de bilheteria em fenômenos de plataformas. O público que não foi ao cinema pode descobrir o filme em casa, e a aprovação de 75% sugere que vão gostar do que encontrarem. Para um estúdio que construiu reputação em filmes de prestígio, ter um “popcorn flick” que funciona pode ser mais valioso do que os números iniciais sugerem.
Veredito: vale o ingresso?
Se você gosta de thrillers que não se levam a sério, com protagonistas moralmente flexíveis e violência estilizada, Manual Prático da Vingança Lucrativa é uma boa opção. Não vai mudar sua vida, não vai gerar discussões filosóficas profundas no carro voltando do cinema — mas vai te entreter por duas horas. Às vezes, isso é exatamente o que se procura.
A crítica não está errada em apontar os defeitos. O ritmo falha, o humor é irregular, a sátira social é rasa. Mas o público também não está errado em perdoar esses problemas. Quando o núcleo do filme funciona — e com Glen Powell no comando, funciona — o resto se torna perdoável.
Para a A24 e Powell, o futuro dirá se esse modelo de “filmes que crítica detesta e público adora” é sustentável. Por enquanto, vale a pena conferir e tirar suas próprias conclusões. Afinal, 75% de aprovação não surgem do nada — há algo ali que merece ser descoberto.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’
Qual a diferença entre crítica e público no Rotten Tomatoes?
A diferença é de 28 pontos percentuais: 47% dos críticos aprovaram o filme, contra 75% do público. É um dos abismos mais extremos entre especialistas e espectadores em lançamentos recentes.
Quem dirige ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’?
O filme é dirigido por Eli Horowitz, co-criador da série “Homecoming” da Amazon. Esta é sua estreia em longas-metragens para cinema.
Qual o orçamento de ‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’?
O filme teve orçamento de aproximadamente $40 milhões. Sua estreia no mercado doméstico arrecadou apenas $3.3 milhões, indicando prejuízo financeiro significativo.
Glen Powell é o protagonista do filme?
Sim, Glen Powell interpreta Beckett, um filho ilegítimo de família bilionária que elimina parentes para garantir herança. Powell também é produtor executivo do filme.
‘Manual Prático da Vingança Lucrativa’ é baseado em algum livro?
Não é adaptação direta de livro, mas a premissa é inspirada no romance “Israel Rank” de Roy Hornim (1917), que também serviu de base para “As Oito Vítimas” (1949), clássico britânico de humor negro.

