‘Armadilha’: O sucesso na Netflix e a mania de ‘redimir’ Shyamalan

Analisamos ‘Armadilha’, o novo suspense de M. Night Shyamalan que conquistou o streaming. Descubra por que a atuação de Josh Hartnett eleva o filme e por que a indústria precisa parar de tratar cada lançamento do diretor como uma ‘volta por cima’.

Há um ciclo previsível que Hollywood repete a cada biênio: o decreto de que M. Night Shyamalan finalmente “voltou”. O diretor de ‘O Sexto Sentido’ parece condenado a uma perpétua prova de vida cinematográfica, como se cada novo crédito fosse um exame de recuperação. Com ‘Armadilha’ (Trap) escalando o topo das paradas de streaming, assistimos a mais um capítulo dessa narrativa de redenção que, francamente, já cansou.

O problema central não é o filme em si, mas a forma como a indústria se recusa a aceitar Shyamalan pelo que ele é: um autor de gênero consistente que, ocasionalmente, tropeça. Esta é a quarta “volta por cima” em dez anos. Talvez o verdadeiro plot twist seja admitir que ele nunca foi a lugar nenhum.

O que ‘Armadilha’ faz de certo: Tensão em ambiente confinado

O que 'Armadilha' faz de certo: Tensão em ambiente confinado

A premissa é um mecanismo de relojoaria: Cooper (Josh Hartnett, em um retorno triunfal) leva a filha ao show da popstar Lady Raven. O que parece um gesto de pai do ano revela-se um cerco tático. A polícia sabe que um serial killer, o ‘Açougueiro’, está no prédio. O diferencial? Shyamalan nos revela nos primeiros minutos que Cooper é o assassino.

A partir daí, o filme se torna um jogo de gato e rato onde torcemos pelo rato — mesmo sabendo que ele é um monstro. A direção de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom (de ‘Me Chame Pelo Seu Nome’) abandona a frieza clínica de ‘Tempo’ para abraçar as cores saturadas e o caos visual de um show pop, criando um contraste perturbador com a psicopatia silenciosa de Cooper.

Shyamalan brilha quando trabalha sob restrições. ‘Armadilha’ funciona porque, durante dois terços da projeção, ele se limita ao espaço geográfico da arena. É o Shyamalan de ‘A Visita’ e ‘Corpo Fechado’: focado, econômico e visualmente inventivo.

Josh Hartnett e a desconstrução do carisma

Seria fácil entregar um vilão caricato. Hartnett, no entanto, opera em uma frequência de micro-expressões. Ele interpreta um homem interpretando um pai normal. O desconforto nasce da facilidade com que ele alterna entre o sorriso afável para a filha e o olhar predatório ao calcular a próxima saída de emergência.

Essa dualidade sustenta o filme quando o roteiro começa a dar sinais de fadiga. Shyamalan usa muitos closes extremos, forçando o espectador a buscar rachaduras na máscara de Cooper. É uma aula de como usar a presença física de um ator para construir suspense sem a necessidade de diálogos expositivos.

A exaustiva métrica da “Redenção” de Shyamalan

A exaustiva métrica da

Por que insistimos que ‘Armadilha’ é um retorno? ‘Batem à Porta’ (2023) foi elogiado. ‘Fragmentado’ (2016) foi um fenômeno. ‘A Visita’ (2015) salvou sua carreira financeiramente. A verdade é que a régua para Shyamalan é móvel. Se ele não entrega uma obra-prima que mude a história do cinema, a crítica o coloca no banco dos réus.

A timeline não mente: desde 2015, ele mantém uma média de acertos maior que muitos diretores queridinhos da Academia. Ele financia os próprios filmes, mantém controle criativo total e entrega histórias originais em um mar de sequências e remakes. O rótulo de “gênio decaído” é uma peça de ficção mais conveniente para os críticos do que a realidade de um diretor que simplesmente gosta de polpa e suspense B.

Vale a pena assistir ‘Armadilha’?

Sim, mas com ressalvas. O terceiro ato do filme sofre de uma expansão desnecessária. Quando a trama sai da arena, a tensão se dilui e as conveniências de roteiro — um mal comum no cinema de Shyamalan — tornam-se mais evidentes. O final não é o choque que muitos esperam, mas uma conclusão funcional.

Assista por Hartnett e pela direção segura de quem sabe exatamente onde colocar a câmera para gerar ansiedade. ‘Armadilha’ não é a redenção definitiva de Shyamalan porque ele não deve desculpas por sua filmografia. É apenas mais um thriller sólido de um diretor que, para o bem ou para o mal, é único em Hollywood.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Armadilha’ (Trap)

‘Armadilha’ é baseado em uma história real?

Parcialmente. Shyamalan se inspirou na ‘Operação Flagship’ de 1985, onde a polícia dos EUA prendeu 101 fugitivos ao atraí-los com ingressos grátis para um jogo da NFL.

Onde assistir ao filme ‘Armadilha’ de Shyamalan?

No Brasil, o filme está disponível para compra e aluguel em plataformas digitais como Apple TV+ e Prime Video, e integra o catálogo do Max (antigo HBO Max).

Quem interpreta a cantora Lady Raven em ‘Armadilha’?

A personagem é interpretada por Saleka Shyamalan, filha do diretor na vida real. Ela também compôs e cantou todas as músicas originais para o filme.

O filme ‘Armadilha’ tem um grande twist no final?

Diferente de ‘O Sexto Sentido’, o principal twist ocorre no início do filme. O final foca mais na resolução da perseguição do que em uma reviravolta que muda todo o sentido da história.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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