Gareth Edwards revelou ter barrado uma versão excessivamente comercial da polêmica cena do Snickers em ‘Jurassic World Rebirth’. Analisamos como o diretor de ‘Rogue One’ protegeu a integridade do filme contra o marketing invasivo e por que essa decisão salvou a abertura da sequência.
Existe um momento em ‘Jurassic World Rebirth’ que divide opiniões desde o dia da estreia: a cena de abertura em que um cientista comendo um Snickers provoca, inadvertidamente, a fuga do Distortus rex. O papel da barra de chocolate fica preso em um ventilador, causa uma falha em cascata nos sistemas de segurança e o que era para ser um dia normal de trabalho vira um banho de sangue jurássico. Para alguns, é um momento de tensão inventivo; para outros, parece publicidade invasiva disfarçada de roteiro.
O que poucos sabem é que essa cena quase foi muito pior. Gareth Edwards, o diretor, revelou em entrevista que a versão original era tão descaradamente publicitária que ele se recusou a filmá-la. Nas palavras dele: “Parecia um anúncio obsceno de Snickers. Eu não conseguia fazer isso.” Essa declaração revela a eterna queda de braço entre a visão autoral e as exigências comerciais em blockbusters de centenas de milhões de dólares.
A arte de vender sem vender: De Spielberg ao Snickers
Product placement em cinema não é novidade, mas a eficácia depende da sutileza. Steven Spielberg é o mestre dessa integração: em ‘E.T.: O Extraterrestre’, a trilha de Reese’s Pieces usada por Elliott é orgânica à trama. No ‘Jurassic Park’ original (1993), a lata de Barbasol não era apenas merchandising; era um MacGuffin fundamental para a espionagem industrial de Dennis Nedry.
O problema surge quando a marca interrompe a narrativa em vez de servi-la. Edwards percebeu que a proposta inicial para o Snickers cruzava essa linha. Ele manteve o produto — a marca é visível — mas eliminou o que descreveu como “ênfase pornográfica” no chocolate. Em um gênero que exige a suspensão de descrença para aceitar dinossauros vivos, um comercial de 30 segundos no meio do clímax quebraria o feitiço instantaneamente.
Por que Gareth Edwards era o homem certo (e difícil) para o cargo
Edwards não é um “diretor de aluguel” comum. Desde ‘Monsters’ (2010), ele demonstra uma obsessão pela escala e pelo realismo sujo. Em ‘Godzilla’ (2014) e ‘Rogue One’, ele provou que consegue filmar o colossal mantendo o ponto de vista humano. Essa assinatura visual — planos abertos que diminuem os personagens diante de forças da natureza — exige uma pureza de enquadramento que o marketing agressivo costuma destruir.
Ter um diretor com esse peso criativo foi a defesa da Universal contra as críticas de ‘Jurassic World Dominion’, que muitos consideraram genérico. Ao dar a Edwards o poder de dizer “não” a um patrocinador, o estúdio protegeu a integridade da franquia. Dizer não a um parceiro comercial de peso como a Mars Inc. não é uma decisão trivial; é uma manobra política que prioriza o valor a longo prazo da obra sobre o lucro imediato do patrocínio.
A execução técnica: Onde o Snickers vira cinema
Se a marca do chocolate fosse genérica, a cena provavelmente seria elogiada como um retorno à forma. A sequência é tecnicamente impecável: a câmera de Edwards acompanha o papel sendo sugado pelo ventilador em um plano-detalhe hipnótico, criando uma tensão física quase palpável antes do caos irromper. A introdução do Distortus rex segue a cartilha clássica de suspense: sons metálicos, sombras e apenas vislumbres da criatura antes da revelação total.
A dissonância cognitiva ocorre porque o público de 2025 está treinado para detectar manipulação comercial. No entanto, a execução de Edwards salva o momento. Ele transforma um objeto mundano em um agente do caos, lembrando a teoria do caos de Ian Malcolm: um pequeno detalhe (um papel de bala) derrubando um sistema complexo. É uma rima temática com o filme original, mesmo que carregue o logotipo de um chocolate de amendoim.
O veredito: Integridade ou Marketing?
Com uma arrecadação de US$ 869 milhões, ‘Jurassic World Rebirth’ provou que o público tolera o product placement, desde que a direção seja competente. Edwards entregou um filme que parece cinema, não um infomercial. A decisão de barrar o “anúncio obsceno” foi o que permitiu que a conversa pós-filme fosse sobre a tensão do Distortus rex e não sobre a marca do chocolate.
Para o futuro da franquia, o precedente é importante. Edwards demonstrou que é possível coexistir com as marcas sem sacrificar a dignidade da narrativa. Em um Hollywood cada vez mais dependente de parcerias, o “não” de um diretor pode ser a ferramenta mais importante para manter a magia das telas viva.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Jurassic World Rebirth’
O Snickers realmente aparece em ‘Jurassic World Rebirth’?
Sim, a barra de chocolate Snickers é um elemento central na cena de abertura, onde o descarte incorreto da embalagem causa uma falha técnica que liberta o Distortus rex.
O que Gareth Edwards mudou na cena do chocolate?
O diretor revelou que a versão original parecia um comercial de TV. Ele removeu closes excessivos e falas que enfatizavam o produto, focando na tensão narrativa em vez da marca.
Quem é o novo dinossauro, Distortus rex?
O Distortus rex é a principal ameaça de ‘Rebirth’, uma criatura geneticamente modificada que se destaca por sua agilidade e camuflagem em ambientes industriais.
‘Jurassic World Rebirth’ tem cenas pós-créditos?
Sim, o filme conta com uma breve cena após os créditos que sugere o retorno de personagens da trilogia clássica para uma possível continuação.
Onde assistir ao novo Jurassic World?
Após o período nos cinemas, o filme está disponível para streaming na plataforma Peacock (nos EUA) e deve chegar ao Telecine/Globoplay ou SkyShowtime em outras regiões.

