Robert Redford quase foi o protagonista de ‘Yellowstone’ na HBO, mas uma decisão bizarra dos executivos mudou o destino da série. Analisamos como essa troca por Kevin Costner salvou o DNA brutal da obra e permitiu que ela se tornasse o fenômeno que é hoje.
Existe uma história nos bastidores de ‘Yellowstone’ que parece saída de uma comédia de erros de Hollywood — e que, se tivesse terminado de outra forma, teria alterado irremediavelmente o DNA da série que se tornou o maior fenômeno de audiência da década. É uma trama que envolve Taylor Sheridan, uma viagem desesperada até Utah e uma frase de executivo tão desconectada da realidade que o próprio criador da série admite: “você não consegue inventar uma coisa dessas”.
Antes de Kevin Costner se tornar o rosto definitivo de John Dutton, e muito antes de ‘Yellowstone’ salvar a relevância da Paramount Network, a série quase nasceu na HBO com Robert Redford no papel principal. E não estamos falando de especulação de tabloide: Redford aceitou o convite. Ele disse sim. E, mesmo assim, a HBO conseguiu deixar o projeto escapar.
A viagem a Sundance que quase mudou a história da TV
Quando Taylor Sheridan apresentou o projeto originalmente para a HBO, ele tinha Kevin Costner em mente. A resposta dos executivos foi um clássico exemplo de miopia corporativa: “Queremos Robert Redford. Se você conseguir Robert Redford, aprovamos o piloto”. Para a emissora de ‘The Sopranos’, Costner não era “prestígio” o suficiente para aquele momento.
Sheridan, conhecido por sua obstinação quase imprudente, não recuou. Ele dirigiu até o Sundance Mountain Resort em Utah — o santuário de Redford — e passou o dia convencendo o ícone de ‘Butch Cassidy’ a liderar seu épico rural. Contra todas as probabilidades, a lenda aceitou.
O que aconteceu a seguir é de dar um nó no estômago de qualquer produtor. Sheridan ligou eufórico para o vice-presidente de produção da HBO: “Consegui o Robert Redford!”. A resposta foi um balde de água gelada: “Ah, Taylor… a gente quis dizer alguém do tipo Robert Redford”. Na linguagem de Hollywood, isso era o código para: “não queremos fazer essa série, não importa quem esteja nela”.
Por que a HBO rejeitou o ‘Succession’ de botas?
Olhando para trás, é fácil apontar o erro da HBO, mas o contexto de 2018 explica o receio. A emissora sempre priorizou o público urbano e cosmopolita. Uma saga sobre criadores de gado em Montana parecia, na época, um “novelão” sem o refinamento intelectual que a marca exigia. Eles temiam que fosse apenas um ‘Dallas’ moderno.
Além disso, há o fator financeiro. Ter Robert Redford em Yellowstone em 2018 não seria apenas uma contratação; seria um evento sísmico. O custo de produção e o cachê de uma lenda viva poderiam inflar o orçamento a níveis que a HBO preferia reservar para dragões ou distopias tecnológicas como ‘Westworld’.
Redford vs. Costner: O peso do anti-herói
Embora Redford e Costner compartilhem o status de deuses do Western, as energias que eles trazem para a tela são opostas. Redford construiu sua carreira sobre o arquétipo do herói relutante e carismático. Existe uma nobreza intrínseca em sua imagem; você olha para Redford e quer, instintivamente, que ele seja o mocinho.
John Dutton, no entanto, é um personagem sombrio. Ele é manipulador, cruel com os filhos e capaz de encomendar assassinatos para manter sua hegemonia territorial. Costner, com sua voz rouca e olhar cansado, trouxe uma dureza necessária. Ele interpreta Dutton como um monarca sitiado, alguém que já perdeu a alma há muito tempo. Com Redford, ‘Yellowstone’ teria sido mais melancólica e trágica; com Costner, ela se tornou visceral e implacável.
O fator idade e o fim de uma era
A física do papel também mudaria tudo. Em 2018, Redford tinha 82 anos; Costner, 63. Dezenove anos de diferença mudam completamente a dinâmica de ação da série. O John Dutton de Costner ainda é uma ameaça física — ele monta, briga e projeta virilidade. O Dutton de Redford seria um patriarca muito mais estático, transformando a série em algo mais próximo de um drama de tribunal ou de sucessão pura, perdendo o vigor do Western de fronteira.
Curiosamente, Redford anunciou sua aposentadoria da atuação justamente em 2018. Se ele tivesse assumido o papel, ‘Yellowstone’ provavelmente teria sido uma minissérie de temporada única. Não teríamos o universo em expansão de ‘1883’ ou ‘1923’. A recusa da HBO, por mais frustrante que tenha sido para Sheridan na época, foi o que permitiu que a série encontrasse sua verdadeira voz na Paramount, longe das exigências de “prestígio artístico” e focada no entretenimento bruto que o público tanto desejava.
O legado de um ‘E Se?’
A história de Robert Redford em Yellowstone serve como um lembrete de que, no entretenimento, o acaso é tão importante quanto o talento. Se a HBO tivesse dito sim, o fenômeno cultural que definiu a TV americana recente — e que gerou debates políticos e sociais intensos — simplesmente não existiria da forma que conhecemos. O John Dutton de Costner não é apenas um personagem; é um ícone de uma certa nostalgia americana que Redford, com toda sua elegância, talvez não conseguisse personificar com tamanha crueza.
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Perguntas Frequentes sobre Robert Redford e Yellowstone
É verdade que Robert Redford aceitou o papel em Yellowstone?
Sim. Segundo o criador Taylor Sheridan, Robert Redford aceitou interpretar John Dutton após uma reunião em Utah, mas a HBO desistiu de produzir a série mesmo com o astro confirmado.
Por que a HBO não quis produzir Yellowstone?
A HBO sentiu que a série não se encaixava no seu perfil de público urbano e sofisticado. Executivos chegaram a dizer que a série parecia um “novelão” e que preferiam alguém “do tipo Robert Redford”, em vez do próprio ator.
Robert Redford já trabalhou com Taylor Sheridan?
Não profissionalmente em frente às câmeras. Embora Redford tenha dado o “sim” inicial para Yellowstone, o projeto nunca avançou com ele e a parceria não se concretizou em outras obras.
Qual foi o último filme de Robert Redford antes de se aposentar?
Redford anunciou sua aposentadoria em 2018, após o lançamento de ‘The Old Man & the Gun’ (The Old Man & the Gun – Um Ladrão com Estilo), mesmo ano em que Yellowstone estreou com Kevin Costner.

