O Yellowstone legado é uma história de dois pesos: a série que reinventou o Western para o século XXI e o final conturbado pela saída de Kevin Costner. Analisamos como Taylor Sheridan construiu um universo expandido coerente e por que os últimos episódios falharam em entregar o desfecho que a obra merecia.
Existem séries que terminam e séries que deixam uma marca. ‘Yellowstone’ conseguiu as duas coisas — mas não exatamente pelo mesmo motivo. De um lado, reinventou o Western para o século XXI com uma ousadia que ninguém imaginava possível na era dos anti-heróis urbanos. Do outro, encerrou sua jornada em 2024 com um buraco no meio do enredo e uma disputa de egos que manchou o que poderia ter sido um final clássico. O Yellowstone legado é, portanto, uma história de dois pesos: o que a série construiu em cinco temporadas e o que perdeu nos últimos capítulos.
Eu acompanhei essa jornada desde o piloto de 2018 — quando a premissa de “filho pródigo volta ao rancho” parecia mais uma variação de ‘Dallas’ com cavalos. Taylor Sheridan provou que estava fazendo algo diferente. E a diferença não estava apenas nas paisagens de Montana filmadas com uma cinematografia que transforma o território em personagem, mas na forma como ele pegou tropos centenários do Western e os forçou a conversar com o presente.
Como ‘Yellowstone’ reinventou o Western moderno
Western sempre foi um gênero de fronteiras — geográficas e morais. Mas em algum momento entre os spaghetti westerns de Sergio Leone e os blockbusters dos anos 90, a TV esqueceu disso. O gênero virou nostalgia, algo que a gente revisitava em maratonas de filmes antigos, não algo que se fazia novo. Sheridan entendeu algo fundamental: o cowboy do século XXI não é um anacronismo romantizado. É um homem encurralado pelo tempo.
John Dutton, interpretado por Kevin Costner com uma gravidade que o ator construiu ao longo de décadas, não é um herói de chapéu branco. É um patriarca disposto a cometer qualquer atrocidade para manter suas terras. O que torna isso interessante não é a violência em si — ‘Breaking Bad’ já havia explorado a moralidade cinza com maestria. É o contexto. Dutton luta contra desenvolvedores imobiliários, contra o governo, contra uma reserva indígena vizinha. Seus inimigos não são bandidos de chapéu preto; são as forças do próprio progresso.
Aquela sequência do primeiro episódio, quando Dutton ordena que seu filho execute o cavalo ferido do neto, estabeleceu o tom em 90 segundos. Não haveria romantização. O cowboy que Sheridan apresenta é um homem que faz o que precisa ser feito, não o que gostaria de fazer. É uma visão dura, desromantizada — e completamente atual atual. A cena também funciona como declaração de princípios cinematográficos: a câmera de Sheridan não desvia, não suaviza. O espectador é forçado a testemunhar.
O império que Taylor Sheridan construiu ao redor dos Dutton
Antes de ‘Yellowstone’, Sheridan era conhecido por roteiros afiados como ‘Hell or High Water’ e ‘Sicario’. Era um ator de personagem que virou roteirista de prestígio. Mas foi na TV que ele construiu algo que poucos criadores conseguem: um universo expandido coerente.
Os prequels ‘1883’ e ‘1923’ não foram spin-offs genéricos feitos para capitalizar sucesso. Eram peças fundamentais de uma mitologia que Sheridan planejou com cuidado. ‘1883’ conta a jornada dos primeiros Dutton até Montana com uma brutalidade que lembra os Westerns clássicos de Robert Aldrich; ‘1923’ explora a geração que enfrentou a Grande Depressão e as consequências da colonização. Cada série adiciona camadas à obsessão familiar por terra que ‘Yellowstone’ apresenta como fato consumado.
O resultado é algo que nem mesmo ‘Família Soprano’ ou ‘Breaking Bad’ alcançaram em termos de expansão narrativa. Os spin-offs de Breaking Bad — ‘Better Call Saul’ e ‘El Camino’ — são obras-primas, mas permanecem como satélites da história original. Sheridan criou uma galáxia. E não parou por aí: ‘O Dono de Kingstown’, ‘Tulsa King’ e ‘Lioness’ expandiram seu domínio para além do Western, mantendo a assinatura temática de disputas violentas por poder e território.
A atratividade que Sheridan exerce sobre atores de primeira linha é sintomática. Jeremy Renner, Sylvester Stallone, Nicole Kidman — nomes que normalmente reservam seu talento para cinema de prestígio aceitaram trabalhar em suas séries. Há algo no material que atrai performers que querem personagens com peso, não apenas exposição.
Por que a saída de Kevin Costner condenou o final da série
John Dutton era o centro gravitacional de ‘Yellowstone’. Não porque os outros personagens fossem fracos — Beth Dutton, interpretada por Kelly Reilly com uma ferocidade que merecia mais reconhecimento de prêmios, é um dos personagens femininos mais complexos da TV recente. Mas porque a premissa inteira da série girava em torno da obsessão de um homem por sua terra.
Quando Kevin Costner abandonou a série durante a quinta temporada, o motivo foi uma combinação de fatores: conflitos de agenda com sua franquia de filmes ‘Horizon’, disputas salariais, divergências criativas com Sheridan. O resultado prático foi que ‘Yellowstone’ perdeu seu protagonista no momento em que mais precisava dele.
O que Sheridan fez foi o que qualquer roteirista faria nessas circunstâncias: matou John Dutton fora da tela. Foi um subterfúgio narrativo necessário, mas profundamente insatisfatório. O personagem que carregou cinco temporadas de tensão merecia um arco de encerramento digno. Em vez disso, seus filhos tiveram que resolver tramas que não eram deles.
O problema estrutural vai mais fundo. Beth e Kayce Dutton nunca foram verdadeiramente investidos no legado do rancho — eram leais ao pai, não à terra. Com John morto, a urgência que sustentava a série evaporou. Assistir aos episódios finais foi como ver um corpo sem coração tentando funcionar. Os músculos se moviam, mas não havia vida.
Como ‘Yellowstone’ será lembrado apesar do final conturbado
A ironia é que o legado de ‘Yellowstone’ acabou sendo tão dramático quanto as tramas dos Dutton — felizmente, sem os corpos. A disputa nos bastidores entre Costner e Sheridan, o final apressado, a sensação de oportunidade perdida: tudo isso fará parte da história da série. Mas seria injusto deixar que os últimos episódios definam o que ‘Yellowstone’ significou.
Por mais que a crítica de prestígio tenha demorado a abraçar a série — indicações a prêmios foram escassas para um programa desse porte — ‘Yellowstone’ conquistou algo que poucas obras de prestígio conseguem: o público comum. Não o público que segue tendências do Twitter, mas aquele que trabalha o dia todo e quer ver algo que fala com sua realidade.
A série capturou a sensibilidade da classe trabalhadora de uma forma que ‘Breaking Bad’ ou ‘Família Soprano’, com sua sofisticação metropolitana, nunca alcançaram. Há algo genuíno na forma como Sheridan retrata pessoas que lutam para preservar seu modo de vida contra forças que nem sequer reconhecem como legítimas. É uma fantasia de resistência que ressoa profundamente em uma América dividida.
O universo continua expandindo. ‘Marshals’, centrada em Kayce, estreia em março de 2026. ‘The Dutton Ranch’, focada em Beth e Rip, está em produção. Sheridan construiu algo grande demais para morrer com um final mal executado. O Yellowstone legado que importa não é o dos últimos episódios, mas o de uma série que provou que o Western não precisava morrer — só precisava encontrar alguém que entendesse como ressuscitá-lo.
Se você gosta de Western, ‘Yellowstone’ merece seu tempo — inclusive pelo final imperfeito. Há uma honestidade nessa imperfeição que combina com o que a série sempre foi: uma história sobre pessoas tentando manter algo vivo em um mundo que não valoriza mais o que elas valorizam. Às vezes, o esforço importa mais que o resultado.
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Perguntas Frequentes sobre Yellowstone
Onde assistir Yellowstone?
Nos Estados Unidos, ‘Yellowstone’ está disponível no Peacock. No Brasil, as temporadas podem ser encontradas no Paramount+ e em algumas temporadas na Netflix. A disponibilidade varia por região.
Quantas temporadas tem Yellowstone?
‘Yellowstone’ tem 5 temporadas, totalizando 53 episódios. A série foi encerrada em 2024, com a segunda metade da quinta temporada servindo como conclusão.
Por que Kevin Costner saiu de Yellowstone?
Kevin Costner deixou a série durante a quinta temporada por uma combinação de fatores: conflitos de agenda com sua franquia de filmes ‘Horizon’, disputas salariais e divergências criativas com Taylor Sheridan. Sua saída forçou o roteiro a matar John Dutton fora da tela.
Quais são os spin-offs de Yellowstone?
Os principais spin-offs são ‘1883’ (prequel sobre os primeiros Dutton), ‘1923’ (sobre a geração da Grande Depressão), ‘Marshals’ (centrado em Kayce, estreia em 2026) e ‘The Dutton Ranch’ (focado em Beth e Rip, em produção). O universo também inclui ‘1883: The Bass Reeves Story’ e ‘1944’ (anunciado).
Yellowstone vale a pena assistir?
Sim, especialmente para quem gosta de Western ou dramas familiares complexos. A série reinventou o gênero para o século XXI com personagens densos e conflitos morais relevantes. O final é decepcionante, mas as cinco temporadas oferecem uma das experiências mais envolventes da TV recente.

