‘XO, Kitty’ 3ª temporada: A série encontra sua própria identidade no topo da Netflix

A 3ª temporada de ‘XO, Kitty’ chegou ao topo da Netflix finalmente encontrando sua própria identidade. Analisamos como a série supera o rótulo de spinoff ao abordar herança cultural e relacionamentos com mais profundidade que os filmes originais.

Há uma satisfação particular em ver uma série que começou como ‘aquela spinoff de um filme de romance adolescente’ se tornar, na sua terceira temporada, algo mais interessante que o material original. XO, Kitty 3ª temporada chegou ao topo da Netflix nos EUA e, pela primeira vez, a sensação não é de ‘sucesso de público adolescente’ — é de que a série finalmente encontrou o que quer dizer.

Não é pouca coisa para um programa que começou como derivativo. ‘Para Todos os Garotos que Já Amei’ funcionou como uma trilogia de filmes românticos competente, com a Lara Jean de Lana Condor carregando o peso de ser o rosto de uma franquia que definia ‘fofinho’ como estratégia comercial. Mas ‘Com Carinho, Kitty’ sempre carregou um potencial inexplorado: a irmã mais nova, a caçula das Covey, tinha uma energia caótica que prometia algo menos controlado. Demorou três temporadas, mas a promessa foi cumprida.

Como a 3ª temporada deixa de ser ‘mais um teen’

Como a 3ª temporada deixa de ser 'mais um teen'

A terceira temporada começa com Kitty voltando a KISS para o último ano do ensino médio, depois de um verão em Nova York. O ponto de partida é familiar: vida amorosa bagunçada, mal-entendidos que poderiam ser resolvidos com uma conversa honesta, drama escolar. A diferença está no que a série faz com esse material.

Pela primeira vez, Kitty (Anna Cathcart) para de tentar resolver a vida amorosa de todo mundo ao redor e foca em si mesma. A Kitty das primeiras temporadas era uma matchmaker obsessiva que se metia onde não era chamada — a da terceira temporada é uma adolescente que finalmente entende que nem tudo gira em torno de arrumar casais. Cathcart, que sempre teve o timing cômico como ponto forte, agora mostra um registro mais contido: há silêncios e hesitações que não existiam antes.

O resultado é uma temporada que se sente mais contida, mas não menos interessante. Há menos barulho, mais intenção. E isso inclui o tão esperado romance com Min Ho — que, ao contrário do que o público poderia esperar, não é um ‘felizes para sempre’ instantâneo. A série tem a coragem de mostrar que dois personagens finalmente ficarem juntos é apenas o começo de outra história, não o fim de uma.

A herança cultural que os filmes só arranharam

É aqui que ‘Com Carinho, Kitty’ mais claramente supera ‘Para Todos os Garotos que Já Amei’. Nos filmes, a herança coreana das irmãs Covey era um elemento de cenário — presente, mas não central. A mãe falecida existia como memória afetiva, não como força narrativa ativa.

A série inverte essa equação. A jornada de Kitty em KISS começou, na primeira temporada, como uma tentativa de se conectar com a memória da mãe. Na terceira, essa conexão se aprofunda de formas que os filmes nunca ousaram. A relação de Alex e Jiwon ganha mais espaço, e a herança cultural deixa de ser ‘tema de fundo’ para se tornar o motor emocional real da história.

Não é que os filmes fossem superficiais sobre isso — é que eles tinham outras prioridades. A trilogia de Lara Jean era, no fim das contas, sobre primeiro amor e crescimento pessoal dentro de uma estrutura rom-com clássica. ‘Com Carinho, Kitty’ herdou essa estrutura, mas aos poucos foi percebendo que tinha algo diferente a dizer. A terceira temporada é o momento em que a série para de pedir desculpas por ser um spinoff e começa a agir como se fosse o material principal.

Relacionamentos queer e a maturidade que o cinema teen evita

Relacionamentos queer e a maturidade que o cinema teen evita

A série também se destaca ao incluir relacionamentos queer não como subtrama, mas como parte orgânica do tecido narrativo. ‘Para Todos os Garotos que Já Amei’ era reticente nessa área — não por malícia, mas por escolha de focar em uma dinâmica heterossexual central. A série expande esse universo de forma que faz sentido para a idade e o contexto dos personagens.

A terceira temporada continua essa tradição com mais confiança. Não há sensação de ‘box-checking’ — aquela prática de incluir diversidade apenas para marcar pontos. Os relacionamentos, sejam eles quais forem, são tratados com a mesma mistura de melancolia e humor que define o tom do programa. Quando Q e Florian navegam sua relação, ou quando Yuri enfrenta as consequências de escolhas passadas, a série não romantiza nem julga — apenas observa.

Isso adiciona uma camada de maturidade que contrasta com o material original. Os filmes eram, propositalmente, uma fantasia romântica idealizada — daí o charme. A série opera em um registro diferente: aceita que relacionamentos adolescentes são confusos, que identidade é fluida, que ‘certo’ e ‘errado’ são conceitos menos úteis do que parecem.

Série vs. filmes: a comparação que importa

‘Para Todos os Garotos que Já Amei’ conta uma história mais contida e tradicional. Isso não é defeito — é escolha. Os filmes funcionam como uma trilogia romântica coesa, com começo, meio e fim claramente definidos. Não há drama excessivo, não há reviravoltas que parecem forçadas apenas para manter o público engajado.

‘Com Carinho, Kitty’ é, por natureza, mais bagunçada. A série abraça o drama teen em sua forma mais caótica — mal-entendidos, triângulos amorosos, personagens novos que aparecem para complicar o que parecia resolvido. A terceira temporada introduz Marius, Gigi e Yisoo como elementos de frescor, mas também como prova de que o programa não tem interesse em ser ‘limpo’.

Para alguns, isso será dealbreaker. Se você prefere narrativas bem comportadas onde cada peça se encaixa com precisão, os filmes continuarão sendo a experiência mais satisfatória. Mas se você aceita que adolescência é, por definição, um período de bagunça identitária, a série oferece algo mais honesto.

Veredito: para quem vale a pena?

A terceira temporada de ‘Com Carinho, Kitty’ não vai converter quem já tinha rejeitado a série. O que ela faz é recompensar quem estava esperando o programa encontrar sua voz. E essa voz, descobrimos agora, tem mais a dizer sobre herança, família e identidade do que os filmes originais jamais sugeriram.

Para fãs do universo que queriam ver Lara Jean e Peter Kavinsky novamente: há uma breve menção ao status do casal, mas não espere muito. A série sabe que seu trabalho não é servir de epílogo para os filmes — é construir algo próprio.

Se você aguenta drama teen com todos os seus clichês — mal-entendidos evitáveis, triângulos amorosos, personagens tomando decisões questionáveis — há aqui uma temporada que justifica a existência da série. Se você esperava algo mais contido, os filmes originais continuam lá, intactos.

A pergunta que fica não é se ‘Com Carinho, Kitty’ é melhor ou pior que ‘Para Todos os Garotos que Já Amei’. É se ela merecia existir independentemente. Depois da terceira temporada, a resposta finalmente é sim.

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Perguntas Frequentes sobre ‘XO, Kitty’ 3ª temporada

Onde assistir ‘XO, Kitty’ 3ª temporada?

‘XO, Kitty’ é uma produção original Netflix, disponível exclusivamente na plataforma. As três temporadas estão disponíveis para assinantes.

Quantos episódios tem a 3ª temporada de ‘XO, Kitty’?

A terceira temporada tem 10 episódios, mesma quantidade das temporadas anteriores. Cada episódio tem aproximadamente 30 minutos.

Precisa ver os filmes ‘Para Todos os Garotos que Já Amei’ antes da série?

Não é obrigatório. A série funciona de forma independente, mas conhecer os filmes ajuda a entender referências e o contexto familiar das irmãs Covey.

Qual a relação entre ‘XO, Kitty’ e os filmes originais?

‘XO, Kitty’ é um spinoff centrado em Kitty Covey, a irmã mais nova de Lara Jean (protagonista dos filmes). A série se passa depois dos eventos da trilogia cinematográfica.

Para quem é recomendada a 3ª temporada?

Para quem gosta de drama teen com romance, aceitando os clichês do gênero. Também para quem busca representação de herança cultural asiática e relacionamentos queer tratados com naturalidade.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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