‘We Bury the Dead’: como um ranger de dentes renova o terror de zumbis

Em ‘We Bury the Dead’, o diretor Zak Hilditch utiliza um design de som perturbador baseado no ranger de dentes para renovar o gênero de zumbis. Analisamos como a performance física de Daisy Ridley e a atmosfera da Tasmânia criam um terror sensorial único e visceral.

Existe uma categoria de horror que não entra pelos olhos, mas se instala diretamente no sistema nervoso através do canal auditivo. O chiado estático de ‘Silent Hill’ ou os estalos rítmicos dos Clickers em ‘The Last of Us’ provam que o som certo pode ser mais aterrorizante que qualquer maquiagem de látex. ‘We Bury the Dead’ terror entende essa lógica com uma precisão cruel ao introduzir uma nova assinatura sonora ao gênero: o ranger de dentes.

O bruxismo terminal como ferramenta de desconforto

O bruxismo terminal como ferramenta de desconforto

O diretor Zak Hilditch, que já havia explorado o desespero humano no excelente ‘These Final Hours’, evita aqui o clichê do rosnado gutural. Em vez disso, seus mortos-vivos — vítimas de um experimento militar na Tasmânia — emitem um som de fricção óssea constante. É o som do bruxismo levado ao limite da destruição física.

O design de som não trata esse ruído como um efeito especial, mas como uma textura orgânica. Ouvir o estalo de dentes se partindo sob pressão é um gatilho de desconforto universal. Hilditch usa esse som para anunciar a presença das criaturas antes mesmo de vê-las, transformando o silêncio da floresta australiana em um ambiente carregado de ansiedade. É uma escolha de body horror auditivo que torna a experiência visceral sem precisar recorrer ao jump scare barato.

A fisicalidade de Daisy Ridley no silêncio da Tasmânia

No papel de Ava, Daisy Ridley entrega uma performance que se distancia totalmente de sua persona em grandes franquias. Ela é uma mulher movida por um luto que ainda não se concretizou, procurando pelo marido em uma zona de exclusão. Ridley utiliza sua fisicalidade para transmitir exaustão; cada movimento parece pesado, cada respiração é calculada para não atrair o que está escondido na névoa.

A química visual entre a atuação contida de Ridley e a fotografia fria de Steve Annis (‘I Am Mother’) cria uma atmosfera de isolamento absoluto. O filme não tem pressa. Hilditch entende que, no terror de sobrevivência, o tempo é o maior inimigo. A contenção da protagonista amplifica o horror quando ele finalmente rompe o silêncio: quando o ranger de dentes começa, sabemos que a racionalidade de Ava é a única coisa que a separa daquelas figuras mecânicas e sem alma.

Zak Hilditch e a reinvenção do apocalipse íntimo

Zak Hilditch e a reinvenção do apocalipse íntimo

O subgênero de zumbis sofre com o desgaste da repetição, mas ‘We Bury the Dead’ encontra fôlego ao focar no ‘apocalipse íntimo’. Não há grandes batalhas épicas ou cidades em chamas; há apenas o processo doloroso de enterrar o passado — literalmente. A escolha da Tasmânia como cenário isolado contribui para essa sensação de que o mundo acabou e ninguém mais ficou sabendo.

Diferente de ‘Train to Busan’, que foca na adrenalina, ou ’28 Days Later’, que foca na raiva, o filme de Hilditch foca na perda da identidade. O ranger de dentes é o último vestígio de uma função motora sem propósito, um loop infinito de dor que define essas criaturas. É um filme que exige paciência, mas recompensa o espectador com uma atmosfera que gruda na pele muito depois dos créditos subirem.

Para quem é (e para quem não é) o filme

Se você busca um filme de ação frenética com hordas de mortos-vivos, este não é o seu lugar. ‘We Bury the Dead’ é um thriller psicológico com elementos de horror sensorial. É recomendado para quem aprecia a cinematografia de diretores como Ari Aster ou o próprio trabalho anterior de Hilditch na Netflix (‘1922’). O impacto do design de som em uma sala de cinema é insubstituível, mas se for assistir em casa, o uso de bons fones de ouvido é obrigatório para captar as nuances da destruição dentária que dá título ao medo aqui.

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Perguntas Frequentes sobre ‘We Bury the Dead’

Qual é a história de ‘We Bury the Dead’?

O filme acompanha Ava (Daisy Ridley), que entra em uma zona de exclusão na Tasmânia após um experimento militar falhar, buscando encontrar seu marido desaparecido em meio a uma nova e perturbadora forma de mortos-vivos.

Onde assistir ‘We Bury the Dead’?

O filme teve estreia mundial em festivais e está em cartaz nos cinemas brasileiros. Espera-se que chegue às plataformas de streaming no primeiro semestre de 2026.

Por que os zumbis rangem os dentes no filme?

É uma escolha estética e narrativa do diretor Zak Hilditch para representar a perda de funções cerebrais superiores, restando apenas impulsos motores repetitivos e violentos, criando um efeito sonoro perturbador conhecido como bruxismo terminal.

‘We Bury the Dead’ é muito violento?

O filme foca mais na tensão psicológica e no horror sensorial (som) do que no gore explícito, embora possua cenas de violência gráfica pontuais e um clima de angústia constante.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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