‘Watchmen’ da HBO é uma obra-prima que Alan Moore se recusa a reconhecer

Analisamos ‘Watchmen’ da HBO: uma sequela que expande os quadrinhos de Moore com uma abordagem inédita sobre racismo sistêmico e trauma. Por que a série funciona independentemente da recusa do autor original em reconhecê-la — e o que isso revela sobre o limite entre adaptação e traição.

Existe uma tensão curiosa em torno do Watchmen HBO que vai além da qualidade da série em si: a obra é, ao mesmo tempo, uma das produções mais elogiadas da televisão americana dos últimos anos e um objeto que seu criador original se recusa, categoricamente, a reconhecer. Alan Moore não apenas não gosta — ele pediu para ser removido de qualquer adaptação de seus trabalhos em 2005, antes mesmo de a série existir. E ainda assim, o que Damon Lindelof construiu em 2019 é difícil de ignorar.

A questão que fica não é simples: quando uma adaptação supera o original em algum aspecto, ela continua sendo uma traição? Ou o problema é mais sutil — e Moore está certo por razões que os elogios da crítica não conseguem neutralizar?

O que Lindelof fez que Zack Snyder não fez

O que Lindelof fez que Zack Snyder não fez

A série não é uma adaptação direta dos quadrinhos de Moore e Dave Gibbons. É uma sequela. A história se passa 34 anos depois dos eventos originais, numa versão alternativa de Tulsa, Oklahoma, em 2019 — um mundo onde vigilantes foram proscritos após uma onda de ataques contra policiais pelo grupo supremacista Seventh Kavalry, que se inspirou no diário de Rorschach. Angela Abar, interpretada por Regina King, é a protagonista: uma detetive tentando desmantelar esse grupo enquanto dois planos paralelos se formam em torno do Doutor Manhattan.

Essa escolha estrutural é inteligente porque resolve o maior problema de qualquer adaptação de ‘Watchmen’: você não pode recriar os quadrinhos sem que o resultado seja redundante. A história já existe. O que Lindelof fez foi perguntar — e se esse mundo continuasse existindo depois do final dos quadrinhos? O que teria se tornado? E, crucialmente: quem teria sido deixado pra trás?

O filme de Snyder, lançado em 2009, tentou o caminho oposto: fidelidade quase literal. O resultado foi tecnicamente impressionante e narrativamente vazio. Mais do que isso, perdeu o que Moore mais preza na obra original: o subtexto político, a crítica à violência, a ambiguidade moral. Snyder estetizou exatamente o que Moore estava desconstruindo. Lindelof entendeu o problema e fez diferente.

Racismo como estrutura, não como cenário

O que diferencia o ‘Watchmen’ da HBO de praticamente qualquer outra produção de super-heróis — e de boa parte da televisão americana — é a seriedade com que trata o Massacre de Tulsa de 1921. Não como pano de fundo histórico decorativo. Como ferida aberta.

A série começa com aquele ataque. Crianças negras correndo. Casas em chamas. Uma violência racial real, documentada, que durante décadas foi apagada dos livros didáticos americanos. Lindelof coloca isso no primeiro minuto e depois passa nove episódios argumentando que o presente — aquele 2019 ficcional — é uma consequência direta daquele passado. Os traumas não somem. Eles se reorganizam em novas formas de poder e opressão.

Esse é o insight que a série tem e que falta em quase todas as adaptações de quadrinhos: personagens negros com agência, história e complexidade em vez de papéis de suporte. Regina King carrega a série com uma performance que vai de determinação a vulnerabilidade sem nenhum dos dois parecerem performáticos. A cena em que ela descobre a extensão da história de sua família — não vou detalhar para quem não viu — tem o tipo de peso emocional que só funciona quando o roteiro construiu as fundações certas durante horas.

Por que Alan Moore tem razão e ainda assim está errado

Por que Alan Moore tem razão e ainda assim está errado

Em 2022, Moore revelou em entrevista à GQ que Lindelof tentou entrar em contato com ele durante o desenvolvimento da série por meio de uma carta — que Moore descreveu como ‘desvario neurótico’. A resposta foi: não me contacte mais. Ele havia desvinculado seu nome de todas as adaptações de seus trabalhos porque sentia que a indústria fazia alterações que nada tinham a ver com sua obra, mas que continuavam sendo associadas a ele.

Há algo válido nisso. Moore passou décadas vendo ‘Watchmen’ ser transformado em franquia, mercadoria, produto — exatamente contra o que o trabalho original argumentava. A série da HBO, por melhor que seja, existe dentro do mesmo sistema que Moore critica. É uma propriedade intelectual da Warner/HBO sendo explorada comercialmente. O fato de ser bem feita não cancela esse contexto.

E, ao mesmo tempo, o argumento de Moore tem um limite. Uma obra de arte, uma vez publicada, existe independente das intenções do criador. ‘Watchmen’ os quadrinhos já pertenciam à cultura quando a série foi feita. Lindelof não apagou o original — ele criou algo novo que dialoga com ele. A pergunta relevante não é ‘Moore aprovaria?’, mas ‘isso funciona como obra em si mesma?’

A resposta, nos nove episódios de 2019, é que sim. Claramente.

O que 96% no Rotten Tomatoes significa — e o que não significa

A série detém 96% de aprovação da crítica no Rotten Tomatoes. Esse número é um dado, não um argumento. O que ele representa é um consenso incomum entre críticos que raramente concordam sobre o que torna televisão excelente.

Mas nota de crítica não captura tudo. ‘Watchmen’ da HBO não é uma série fácil. O ritmo é deliberado, às vezes hermético. A mitologia exige atenção e, idealmente, alguma familiaridade com os quadrinhos — não para entender a trama, mas para apreciar como a série subverte expectativas do leitor. A trilha de Trent Reznor e Atticus Ross, os mesmos responsáveis por ‘A Rede Social’, cria uma atmosfera industrial e melancólica que se torna personagem à parte. Quem chega esperando ação de super-heróis vai estranhar. Quem chega disposto a acompanhar uma narrativa sobre trauma, identidade e poder vai encontrar uma das produções mais densas que a HBO já fez.

E a HBO tem ‘Família Soprano’. Tem ‘Succession’. O padrão de comparação não é baixo.

Uma adaptação pode ser melhor que o original?

Esta é a questão que o ângulo da recusa de Moore coloca na mesa de forma inevitável. E a resposta honesta é: em alguns aspectos, sim.

Os quadrinhos de Moore são insubstituíveis como objeto de linguagem. A forma como usam o meio — a estrutura em nove painéis, os textos paralelos, os capítulos simétricos — é inseparável do conteúdo. Isso não tem equivalente em televisão e a série nem tenta replicar.

O que a série faz melhor que os quadrinhos é expandir o espectro racial e político de um jeito que o original, sendo um produto dos anos 80 de dois homens britânicos, não conseguia fazer com a mesma profundidade. Moore criou uma obra sobre poder e violência que é formalmente brilhante. Lindelof criou uma obra sobre quem paga o preço do poder e da violência — e isso requer um ponto de vista que os quadrinhos não tinham condições de oferecer da mesma forma.

Não é traição. É continuação. Às vezes, a melhor coisa que uma adaptação pode fazer é perguntar o que o original não se perguntou.

Moore tem o direito de discordar. A série existe independentemente disso — e existe muito bem.

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Perguntas Frequentes sobre Watchmen da HBO

Onde assistir Watchmen da HBO?

A série completa está disponível na HBO Max, plataforma de streaming da Warner. Todos os nove episódios podem ser assistidos com assinatura do serviço.

Precisa ter lido os quadrinhos para entender a série?

Não é obrigatório. A série funciona como obra independente, mas quem leu os quadrinhos de Moore e Gibbons vai reconhecer referências e apreciar melhor como a trama subverte expectativas do material original.

Quantos episódios tem Watchmen da HBO?

A série tem nove episódios, todos lançados em 2019. Cada episódio tem cerca de uma hora de duração.

Vai ter segunda temporada de Watchmen?

Não. Damon Lindelof declarou que contou a história que queria contar e não pretende continuar. A HBO chegou a considerar uma segunda temporada sem ele, mas o projeto não avançou. A série funciona como obra completa e fechada.

Qual a diferença entre o filme de 2009 e a série da HBO?

O filme de Zack Snyder é uma adaptação quase literal dos quadrinhos. A série da HBO é uma sequela que se passa 34 anos depois dos eventos do HQ, com novos personagens e foco em temas como racismo sistêmico que o original não abordava com a mesma profundidade.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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