‘Watchmen’ da HBO: como a minissérie usa o Massacre de Tulsa para desconstruir super-heróis

Analisamos como ‘Watchmen’ da HBO usa o Massacre de Tulsa de 1921 para reescrever as origens dos super-heróis, transformando trauma histórico em narrativa sobre vigilantismo e poder racial nos EUA.

Em 2019, quando Damon Lindelof anunciou que sua versão de ‘Watchmen’ para a HBO seria uma “remixagem” e não uma adaptação fiel, muitos fãs da graphic novel de Alan Moore suspiraram. Estávamos cansados de ver o material sagrado sendo diluído em blockbusters vazios — vide a tentativa anterior de Zack Snyder em 2009, que capturou a estética mas perdeu a alma crítica da obra. Mas o que Lindelof entregou foi algo mais audacioso: uma análise obrigatória para quem quer entender como o gênero de super-heróis pode, finalmente, crescer e confrontar seu próprio reflexo na história americana. A minissérie não apenas respeita o legado de Moore; o transcende ao colocar o Massacre de Tulsa de 1921 — evento real de terror racial que matou centenas de negros e destruiu o Distrito Negro de Greenwood — como o verdadeiro coração narrativo, desconstruindo a mitologia do herói mascarado desde sua fundação.

A abertura da série já estabelece esse tom disruptivo. O primeiro episódio não começa com explosões ou capas flutuando ao vento. Começa com o Massacre de Tulsa: crianças negras fugindo de homens brancos armados, o cinema de luxo de Greenwood sendo incendiado, famílias separadas no caos. É uma escolha ousada — e necessária. Enquanto Snyder usava a violência como espetáculo estilizado, Lindelof a utiliza como testemunho histórico. A cena é filmada com uma clareza documental que incomoda; não há trilha heroica, apenas o som de tiros e gritos reais. Isso não é pano de fundo para uma história de super-heróis. Isso é a história.

Como ‘Watchmen’ transforma trauma histórico em origem de super-herói

Como 'Watchmen' transforma trauma histórico em origem de super-herói

A genialidade da série está em como conecta esse trauma específico à mitologia geral dos vigilantes mascarados. Descobrimos que Hooded Justice — o primeiro herói mascarado do universo ‘Watchmen’ — não era um justiceiro branco conservador como a história oficial sugeria, mas um sobrevivente negro do massacre chamado Will Reeves. A revelação, construída ao longo do episódio 6 (“This Extraordinary Being”), é um dos momentos mais poderosos da televisão recente. A fotografia em preto e branco que invade a narrativa colorida, a forma como a máscara branca de Hooded Justice se torna tanto símbolo de proteção quanto de aprisionamento racial — tudo isso reescreve a própria noção de “herói” no cinema e TV.

Essa escolha narrativa faz algo que raramente vemos em produções de super-heróis: ela questiona quem tem o direito de vestir a máscara. Em vez de celebrar o vigilantismo como solução, ‘Watchmen’ expõe como a violência mascarada frequentemente serve a quem já detém o poder. A polícia de Tulsa na série usa máscaras para proteger suas identidades dos ataques da Sétima Cavalaria — um grupo supremacista branco que, ironicamente, adotou a máscara de Rorschach como símbolo. A inversão é brutal: o ícone de justiça absoluta do original de Moore torna-se aqui ferramenta de ódio racial.

A apropriação de Rorschach e a perversão de símbolos

A forma como a série lida com Rorschach é talvez sua declaração mais ousada sobre a desconstrução do herói. Na graphic novel de 1986, Rorschach é um anti-herói problemático mas fascinante — seu moralismo preto-e-branco reflete uma visão de mundo simplista que Moore claramente criticava, mas que muitos fãs, perturbadoramente, abraçaram. A série de Lindelof pega essa ambiguidade e a leva à conclusão lógica e terrível: se Rorschach representa justiça absoluta sem nuance, ele se torna a figura perfeita para justificar supremacia branca.

Ver a máscara de manchas de tinta sendo usada por terroristas racistas é visualmente chocante, mas intelectualmente coerente. O show sugere que símbolos de vigilância, quando descontextualizados de sua história, podem ser apropriados por qualquer movimento que se veja como “justiceiro” — inclusive movimentos de ódio. Isso cria uma metalinguagem fascinante: enquanto Moore via sua obra sendo mal interpretada por fãs que idolatravam Rorschach sem entender a crítica implícita, a série mostra exatamente essa dinâmica ocorrendo dentro de seu próprio universo. É uma crítica à própria indústria de super-heróis, que frequentemente glorifica violência estatal ou individual sem questionar suas implicações políticas.

Polícia, poder e as contradições da representação

Polícia, poder e as contradições da representação

Contudo, ‘Watchmen’ não é isenta de contradições — e um texto honesto precisa reconhecê-las. A série retrata a polícia de Tulsa como vítimas de violência supremacista, o que, em 2019, já era uma escolha politicamente carregada. Nos anos seguintes, com os protestos globais contra brutalidade policial pós-2020, essa representação tornou-se ainda mais problemática. O show foca em policiais negros como Angela Abar (Regina King, em atuação que carrega a série) como protagonistas heroicos, mas evita questionar profundamente a natureza institucional da polícia americana.

Essa tensão reflete questões mais amplas sobre a produção. Alan Moore, criador da obra original, recusou veementemente associar-se ao projeto — descrevendo a carta de Lindelof como “divagações neuróticas” e afirmando estar “embaraçado” por qualquer conexão. Além disso, acusações posteriormente documentadas no livro ‘Burn It Down’ de Maureen Ryan (2023) sobre comportamento racista e gestão tóxica por parte de Lindelof durante ‘Lost’ lançam sombras sobre a autenticidade da abordagem racial de ‘Watchmen’. Se o showrunner foi acusado de comentários racistas por colegas de trabalho como Harold Perrineau, como lemos essa “sinceridade” na abordagem do racismo estrutural na série?

Essas questões não invalidam o impacto artístico do show, mas o complicam. É possível apreciar a ousadia de centrar uma história de super-heróis no Massacre de Tulsa — evento historicamente apagado dos livros didáticos americanos até a série ajudar a trazê-lo para o mainstream — enquanto reconhecemos as limitações de sua perspectiva. O fato de que a HBO produziu uma série tão politicamente carregada sobre raça, escrita majoritariamente por uma sala de roteiristas brancos liderada por Lindelof, é uma ironia que o texto não escapa completamente.

O legado de ‘Watchmen’ na era pós-herói

Apesar dessas ressalvas, ‘Watchmen’ permanece como marco zero para o que séries de super-heróis podiam tentar ser antes de se tornarem produtos de consumo infinito. Enquanto ‘The Boys’ opta pelo choque cínico e pelo humor grotesco para criticar o gênero, a abordagem de Lindelof é mais elegiaca e histórica. Ele usa a ficção especulativa não para escapar da realidade, mas para mergulhar mais fundo nela — especificamente nas feridas não cicatrizadas da história americana sobre raça.

A série influenciou diretamente produções subsequentes que tentam trazer peso histórico ao gênero. A forma como trata o tempo — misturando flashbacks do massacre com o presente de 2019 de maneira não-linear — criou um modelo para como eventos históricos traumáticos podem ser integrados à narrativa de fantasia sem serem banalizados. A fotografia de Nicole Kassell (que dirigiu vários episódios) usa paletas de cores distintas para diferentes épocas: sépia enferrujado para 1921, azul elétrico frio para 2019, criando uma linguagem visual onde o passado nunca está realmente morto, apenas esperando para ressurgir.

Por que ‘Watchmen’ da HBO merece ser revisitada

Cinco anos após seu lançamento, ‘Watchmen’ ganha nova camada de relevância. Em um momento onde discussões sobre representação racial na cultura pop frequentemente se reduzem a checklists de diversidade, a série oferece algo mais rico: uma investigação sobre como a violência racial fundou, literalmente, o território onde heróis americanos nascem. O fato de que o herói original negro teve que esconder sua raça para ser aceito como vigilante diz tudo sobre o custo de ser “herói” em uma sociedade racista.

A minissérie prova que super-heróis podem servir a algo maior entretenimento — podem ser veículos para memória histórica e reparação cultural. Mas também prova os limites dessa abordagem quando os criadores não vivem as experiências que retratam. É um objeto cultural complexo: simultaneamente progressista em sua narrativa e problemática em sua produção; historicamente educativa e politicamente contraditória.

Se você ainda não viu, ou se viu apenas como “mais uma série de herói”, vale reassistir com olhos atentos às camadas históricas. Não é perfeita, mas é rara. Em um cenário onde o gênero de super-heróis domina o streaming com fórmulas cada vez mais gastas, ‘Watchmen’ da HBO permanece como um lembrete de que as máscaras podem revelar tanto quanto escondem — especialmente quando olhamos para quem as está autorizado a usar, e quem foi brutalmente impedido de fazê-lo desde o início.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Watchmen’ da HBO

Onde assistir ‘Watchmen’ da HBO?

A minissérie está disponível no streaming Max (antiga HBO Max) e pode ser alugada/comprada digitalmente em plataformas como Amazon Prime Video e Apple TV.

Preciso ler a graphic novel de Alan Moore antes de assistir?

Não é obrigatório, mas recomendado. A série funciona como sequência da obra original de 1986, mantendo eventos canônicos (como o ataque de Nova York) mas expandindo o universo 30 anos depois. Conhecer o original enriquece a compreensão de personagens como Rorschach e Dr. Manhattan.

O Massacre de Tulsa mostrado na série realmente aconteceu?

Sim. O Massacre de Tulsa ocorreu entre 31 de maio e 1º de junho de 1921, quando uma multidão branca atacou e destruiu o distrito de Greenwood, conhecido como “Black Wall Street”. Cerca de 300 pessoas negras foram mortas e 10 mil ficaram desabrigadas. O evento foi silenciado nos livros didáticos americanos por décadas.

Por que os supremacistas usam a máscara de Rorschach na série?

A série sugere que o moralismo absoluto e binário de Rorschach (preto e branco, sem cinzas) foi apropriado por movimentos de ódio que se veem como “justiceiros” contra uma sociedade que, na visão deles, os oprime. É uma crítica à interpretação simplista do personagem de Moore.

‘Watchmen’ da HBO terá segunda temporada?

Não. A série foi concebida como minissérie completa com final fechado. Damon Lindelof afirmou que não planeja continuar a história, embora a HBO tensoe explorado ideias para spin-offs que nunca se concretizaram.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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