A série da HBO não tentou refazer ‘Watchmen’ — fez uma sequela que abraçou o polvo gigante que Snyder removeu. Analisamos por que essa escolha preservou o núcleo temático da obra de Alan Moore e criou a adaptação mais fiel ao espírito original.
Existe um momento em ‘Watchmen: O Filme’ (2009) que resume todo o problema da abordagem de Zack Snyder: a decisão de substituir o polvo gigante por Dr. Manhattan como culpado pelo ataque a Nova York. Parece uma mudança cosmética — até você perceber que ela destrói a coluna vertebral da crítica que Alan Moore construiu. A Watchmen série HBO, lançada uma década depois, fez o oposto: abraçou o polvo, abraçou o final controverso, e construiu algo novo sobre fundações antigas. A diferença entre as duas obras não é apenas de qualidade — é de filosofia.
Quando a série da HBO chegou em 2019, eu estava cético. Outra adaptação de ‘Watchmen’? Depois do filme de Snyder e de todas as tentativas falhas de levar Moore para as telas? Mas Damon Lindelof fez algo que nenhum adaptador ousou: ele não tentou contar a mesma história de novo. Ele perguntou ‘o que acontece depois?’ — e essa pergunta simples mudou tudo.
Por que o polvo gigante importa (e Snyder errou ao removê-lo)
No quadrinho original, Ozymandias cria uma ameaça alienígena falsa — um polvo gigante psicologicamente perturbador — para massacrar Nova York e unir a humanidade contra um inimigo comum. É absurdo. É bizarro. E é exatamente isso que Moore queria: uma crítica ao medo do ‘outro’, à manipulação política através de ameaças externas fabricadas.
Snyder substituiu isso por explosões nucleares atribuídas a Dr. Manhattan. Funciona cinematicamente? Funciona. Funciona narrativamente? Também. Mas funciona tematicamente? Aqui está o problema: ao fazer de Dr. Manhattan o ‘inimigo’, Snyder transforma uma história sobre manipulação geopolítica em uma história sobre um super-herói poderoso demais. Ele reduziu a ambiguidade moral de Ozymandias e simplificou uma das narrativas mais complexas dos quadrinhos para algo que se assemelha mais aos filmes de heróis que ‘Watchmen’ originalmente criticava.
Revi o filme recentemente, e essa mudança cria um efeito cascata interessante: Dr. Manhattan se torna uma figura tragicamente central, enquanto Ozymandias perde parte de sua função como arquétipo do ‘bem-intencionado que comete o mal absoluto’. O foco se desloca do coletivo para o individual — exatamente o oposto do que Moore pretendia.
A série da HBO escolheu respeitar o desfecho — e expandir suas consequências
A Watchmen série HBO fez algo mais inteligente: assumiu que o polvo gigante aconteceu. Que meio milhão de pessoas morreram. Que Ozymandias ‘venceu’ e o mundo se uniu sob uma mentira. E então perguntou: como seria viver 34 anos depois?
Essa abordagem de ‘sequela’ em vez de ‘remake’ é a diferença entre reverenciar e reescrever. A série não tenta ‘consertar’ o final controverso de Moore — ela o aceita como verdade canônica e explora suas cicatrizes. Os policiais usando máscaras amarelas em Tulsa não são apenas um elemento visual bacana; são consequência direta do mundo que Ozymandias criou. A tensão racial, o autoritarismo disfarçado de segurança, a memória seletiva da sociedade — tudo flui organicamente daquele final que Snyder considerou ‘impossível de adaptar’.
Alan Moore sempre odiou adaptações. Ele acreditava que histórias deveriam existir no meio para o qual foram criadas. Curiosamente, a série da HBO — que Moore também repudiou publicamente — é a adaptação que mais respeita essa filosofia: ela não tenta substituir o quadrinho, mas dialogar com ele.
O que Snyder acertou — e por que a fidelidade visual não bastou
Para ser justo: o filme de 2009 captura momentos que qualquer fã reconheceria instantaneamente. A abertura com ‘The Times They Are a-Changin” é uma sequência de créditos brilhante que condensa décadas de história alternativa em poucos minutos. Jackie Earle Haley como Rorschach é casting perfeito — ele captura a obsessão doentia, a voz rouca, a deformação moral de um homem que prefere morrer a aceitar uma mentira.
O problema é que Snyder filmou ‘Watchmen’ como se fosse ‘300’ — todo aquele slow-motion, aquela grandiosidade visual, aqueles músculos esculpidos. Funciona para uma história sobre espartanos. Para uma história sobre heróis falhos, envelhecidos, moralmente cinzentos? A estética de Snyder simplifica o que Moore complicou deliberadamente.
Há uma ironia aqui: Snyder é um diretor que claramente ama o material original. Ele reproduziu quadros inteiros do quadrinho no filme. Mas amor não é o mesmo que entendimento — e às vezes, o amor cego impede de ver por que certas escolhas narrativas foram feitas.
A coragem de fazer algo novo vs. a tentação de refazer o mesmo
A série da HBO poderia ter sido um remake com orçamento maior e mais tempo de tela. Poderia ter tentado ‘consertar’ o filme de Snyder. Em vez disso, criou novos personagens (Sister Night, Looking Glass), expandiu o universo (o trauma racial em Tulsa, o legado de Will Reeves), e usou o material original como fundação, não como roteiro.
Isso é especialmente notável porque Hollywood adora remakes e teme sequelas de propriedades ‘sagradas’. A decisão de Lindelof foi arriscada: irritar puristas que queriam adaptação fiel E irritar casuals que não conheciam o original. Mas esse risco criou algo que nem Snyder nem a maioria dos adaptadores de Moore conseguiram: uma obra que se sustenta por si só enquanto honra sua fonte.
Confesso: quando a série revelou que o Senador Keene era um vilão e que havia uma conspiração envolvendo a Sétima Kavalry e cópias de Ozymandias, eu temi que estivéssemos em território de ‘expansão forçada de franquia’. Mas a execução me convenceu. O episódio ‘This Extraordinary Being’, que mergulha no passado de Will Reeves através de uma experiência com drogas chamada Nostalgia, é um dos melhores horas de televisão de 2019 — e funciona precisamente porque conecta o novo ao original de forma orgânica.
Veredito: qual Watchmen vale seu tempo?
Se você quer a experiência mais próxima do quadrinho, o filme de Snyder é visualmente fiel — mas espiritualmente desalinhado. Se você quer algo que expanda o universo de Moore sem traí-lo, a série da HBO é a escolha clara.
A série não é perfeita. O penúltimo episódio depende demais de expositão para resolver fios soltos, e quem não leu o quadrinho pode se perder nas referências a Lady Trieu e ao passado de Ozymandias. Mas ela entende algo fundamental que Snyder perdeu: ‘Watchmen’ nunca foi sobre heróis de fantasia — era sobre política, identidade, e o custo moral de manter a paz através de mentiras. Ao manter o polvo gigante como evento histórico, a série preservou o núcleo temático que o filme diluiu.
Para quem nunca consumiu ‘Watchmen’ em nenhum formato: comece pelo quadrinho. É a obra completa, sem mediações. Depois, assista à série — ela funciona como conversa inteligente com o original. O filme de Snyder? Veja pelos momentos isolados (Rorschach em ação, a sequência de abertura, a Nite Owl arrepiada), mas não espere a experiência completa que Moore construiu.
No fim, a pergunta que importa não é ‘qual adaptação é melhor?’ — é ‘qual adaptação entende o que estava sendo adaptado?’. E nisso, a série da HBO vence por larga margem, não por ser mais fiel quadro a quadro, mas por ser mais fiel ao espírito de uma obra que questiona heróis, autoridade e verdades convenientes. O polvo gigante era absurdo proposital. Removê-lo foi o erro de Snyder. Abraçá-lo foi o triunfo da HBO.
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Perguntas Frequentes sobre Watchmen
Onde assistir a série Watchmen da HBO?
A série ‘Watchmen’ está disponível na HBO Max no Brasil. São 9 episódios lançados em 2019, totalizando uma temporada completa.
Precisa ler o quadrinho para entender a série da HBO?
Não é obrigatório, mas ajuda muito. A série funciona sozinha, mas quem leu a graphic novel reconhece referências e entende melhor o peso de certas revelações — especialmente sobre Ozymandias e o polvo gigante.
Qual a diferença entre o final do filme e o final do quadrinho de Watchmen?
No quadrinho, Ozymandias finge um ataque alienígena com um polvo gigante. No filme de Snyder, ele atribui explosões a Dr. Manhattan. A mudança simplifica a crítica política original de Alan Moore sobre medo do ‘outro’ e manipulação geopolítica.
A série Watchmen tem segunda temporada?
Não. Damon Lindelof declarou que a história está completa e ele não pretende continuar. A HBO considerou novas temporadas com outros showrunners, mas até 2026 nada foi produzido.
Por que Alan Moore não gosta de adaptações de Watchmen?
Moore acredita que histórias devem existir no meio para o qual foram criadas. Para ele, ‘Watchmen’ foi escrito como quadrinho e não funciona em outro formato — uma visão que a série da HBO ironicamente respeitou ao não tentar substituir o original.

