‘WandaVision’: por que o maior risco da Marvel virou sua melhor série de fantasia

Em ‘WandaVision’, a Marvel transformou pastiche de sitcom em ferramenta narrativa para contar uma história sobre luto — e criou sua melhor série de fantasia. Analisamos por que o risco criativo funcionou e o que séries ‘seguras’ como ‘Falcão e o Soldado Invernal’ erram ao jogar no convencional.

Em 2021, a Marvel tinha um problema: precisava justificar uma investida em séries para streaming, mas suas histórias sempre seguiram a mesma fórmula testada e aprovada. Foi nesse contexto que ‘WandaVision’ chegou — uma série que, no papel, soava como uma loucura criativa. Noventa minutos de ‘sitcom de vizinhança perfeita’ com dois super-heróis? Em preto e branco? Com risada gravada? Deveria ter sido um desastre. Em vez disso, se tornou o melhor exemplo de por que o MCU precisa arriscar mais — e prova que jogar seguro é exatamente o que está matando a franquia.

O que torna ‘WandaVision’ fascinante não é apenas sua originalidade, mas o fato de que ela expõe, por contraste, tudo que deu errado em produções posteriores. ‘Falcão e o Soldado Invernal’ tinha os ingredientes para funcionar: dois personagens carismáticos, dinâmica de buddy cop, ação tradicional. Resultou em uma série competente mas esquecível. ‘Invasão Secreta’ prometia thriller de espionagem e entregou mediocridade. O contraste com a série da Feiticeira Escarlate é brutal: aqui, o risco criativo foi total, e o payoff foi proporcional.

Como o pastiche de sitcom se tornou ferramenta narrativa genial

Como o pastiche de sitcom se tornou ferramenta narrativa genial

Abrir a série com uma homenagem a ‘I Love Lucy’ foi um ato de coragem que poucos estúdios aprovariam hoje. Três episódios inteiros dedicados a recriar a gramática visual de sitcoms dos anos 50, 60 e 70 — incluindo aquele efeito de ‘filmado ao vivo’ com câmeras fixas e iluminação de estúdio — poderia ter afugentado qualquer espectador esperando a ação típica da Marvel. Mas funcionou precisamente por ser tão específico.

Quem assistiu em tempo real, semana a semana, se lembra: cada episódio trazia uma camada nova de desconforto. Aqueles comerciais bizarros no meio das sitcoms — com produtos como ‘Stark Industries ToastMate’ fazendo referência obscura a armas que destruíram vidas — eram pistas de que algo estava muito errado. A transição gradual do preto e branco para o colorido, a mudança de formato de câmera (de 4:3 para widescreen), a introdução de elementos que ‘não pertenciam’ àquele mundo de comédia: tudo construía tensão de forma visual, não expositiva.

O momento em que a série revela sua verdadeira natureza — aquele ‘Previously on…’ que expõe o luto de Wanda por Vision — funciona porque o formato de sitcom serviu como negação. Por nove episódios, a série nos fez rir junto e perguntar o que diabos estava acontecendo, e então nos forçou a confrontar a verdade: aquela fantasia de vida perfeita era o mecanismo de defesa de alguém que perdeu tudo.

Por que séries ‘seguras’ naufragam onde ‘WandaVision’ brilha

Aqui está onde ‘WandaVision’ se torna um estudo de caso valioso. Compare com ‘Falcão e o Soldado Invernal’: Anthony Mackie e Sebastian Stan têm química natural, a premissa de thriller político combinava com o momento pós-‘Vingadores: Fim do Jogo’, e o tema de legado do Capitão América era relevante. Mas a série recusou-se a arriscar qualquer coisa. Cada escolha narrativa era a mais óbvia possível, cada conflito resolvido da forma mais convencional.

O resultado é uma série que funciona como conteúdo de fundo — você assiste enquanto mexe no celular, perde alguns minutos, e não sente que perdeu nada importante. ‘WandaVision’ exige o oposto: atenção total, tolerância ao desconforto, paciência para uma revelação que demora a chegar. E recompensa cada minuto investido.

‘Invasão Secreta’ cometeu o mesmo erro em escala maior. Material de origem brilhante — uma história de infiltrados Skrulls na sociedade humana, paranóia estilo ‘Invasão de Corpo’ — reduzido a um thriller genérico que ignorava tudo que tornava a HQ interessante.

A fantasia como espelho do luto: o sistema de magia de Wanda

O título chama ‘WandaVision’ de ‘melhor série de fantasia’ do MCU, e a justificativa está em como a série trata a magia. Aqui, feitiçaria não é apenas poder genérico com efeitos visuais bonitos — é extensão direta do estado emocional da protagonista. Quando Wanda cria aquela bolha em Westview, ela não está ‘lançando um feitiço’; está projetando sua dor em escala urbana, reescrevendo a realidade porque não consegue aceitar a perda.

A criadora Jac Schaeffer e o diretor Matt Shakman entenderam algo fundamental: o sistema de magia funciona porque tem custo. Cada uso do poder de Wanda carrega peso emocional — ela é uma feiticeira cujas habilidades são proporcionais ao seu sofrimento. Isso posiciona Wanda não como uma super-heroína com poderes arbitrários, mas como uma força da natureza cujas habilidades são tão magnéticas quanto perigosas.

A batalha final contra Agatha Harkness exemplifica isso. Quando Wanda absorve os grimórios da bruxa e assume seu papel como Feiticeira Escarlate, a sequência não é apenas espetáculo visual — é a culminação de nove episódios construindo uma protagonista que finalmente aceita quem é. Elizabeth Olsen entrega esse momento com olhar que mistura aceitação e terror, entendendo que abraçar seu poder significa também abraçar sua dor.

O que ‘Loki’ e ‘X-Men ’97’ confirmam sobre a fórmula do sucesso

As exceções posteriores provam a regra. ‘Loki’ era, no papel, uma aposta questionável: série focada em um vilão secundário, tratando de conceitos temporais complicados, com uma burocracia multiversal como cenário central. Deveria ser entediante. Em vez disso, tornou-se uma das produções mais queridas do MCU justamente por abraçar sua estranheza.

‘X-Men ’97’ é ainda mais revelador. Uma continuação de um desenho dos anos 90, lançada quase três décadas depois, com tom dramático que beira o trágico? Não há executivo que aprovaria esse projeto sem hesitação. Mas a série se tornou um fenômeno de crítica e público porque entendeu algo que produções ‘seguras’ ignoram: o público não quer mais do mesmo.

Veredito: quando o risco se paga

‘WandaVision’ não é perfeita. O último episódio recorre a certos clichês de batalha Marvel, e alguns fãs de quadrinhos criticaram a ausência de Mephisto. Mas esses defeitos importam pouco diante do que a série alcança: uma obra que usa a linguagem do entretenimento comercial para contar uma história sobre luto, negação e aceitação, sem nunca subestimar sua audiência.

Para quem gosta de fantasia, a série oferece um dos melhores sistemas de magia já vistos em live-action. Para fãs de terror psicológico, os elementos de ‘algo errado sob a superfície perfeita’ funcionam como em ‘As Esposas de Stepford’ — onde a felicidade suburbana esconde horror — e ‘Corra’, onde a cordialidade mascara opressão. Para quem curte sitcom clássica, os pastiches são feitos com reverência genuína, não como piada descartável.

A lição que a Marvel deveria aprender é clara: seu público está disposto a seguir para lugares estranhos, desde que a viagem pareça intencional. ‘WandaVision’ provou que você pode abrir uma série de super-heróis com três episódios de sitcom em preto e branco, e ainda assim criar uma das melhores coisas que a franquia já produziu. A pergunta que resta é se os estúdios terão coragem de repetir a dose — ou se vão continuar apostando no seguro, no convencional, no esquecível.

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Perguntas Frequentes sobre ‘WandaVision’

Onde assistir ‘WandaVision’?

‘WandaVision’ está disponível exclusivamente no Disney+, plataforma de streaming da Disney. A série é uma produção original Marvel Studios lançada em janeiro de 2021.

Quantos episódios tem ‘WandaVision’?

A série tem 9 episódios, com duração variando entre 30 e 50 minutos. Os primeiros episódios são mais curtos (formato sitcom), aumentando progressivamente conforme a narrativa se expande.

Preciso ver os filmes dos Vingadores para entender ‘WandaVision’?

Recomenda-se ter visto pelo menos ‘Vingadores: Era de Ultron’ (introdução de Wanda e Vision), ‘Vingadores: Guerra Infinita’ e ‘Vingadores: Fim do Jogo’ (eventos que motivam a trama). A série assume conhecimento do que aconteceu com Vision.

Qual é a ordem cronológica de ‘WandaVision’ no MCU?

‘WandaVision’ se passa três semanas após os eventos de ‘Vingadores: Fim do Jogo’ (2019), sendo a primeira série do MCU Fase 4. Cronologicamente, antecede ‘Falcão e o Soldado Invernal’ e o filme ‘Doutor Estranho no Multiverso da Loucura’.

Quem é a vilã de ‘WandaVision’?

Agatha Harkness, interpretada por Kathryn Hahn, é revelada como a antagonista. Bruxa centenária que manipulou eventos em Westview para roubar o poder de Wanda. A personagem ganhou série própria, ‘Agatha All Along’, em 2024.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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