Com três Capitães América confirmados em ‘Vingadores: Doutor Destino’, analisamos como o retorno de Chris Evans pode ofuscar o legado de Sam Wilson e o que isso revela sobre a crise criativa do MCU pós-‘Ultimato’.
Há um momento em ‘Vingadores: Ultimato’ que sempre me pegou desprevenido: Steve Rogers sentado naquele banco de parque, finalmente vivendo a vida que ele sacrificou. Era o fechamento perfeito para uma jornada de onze anos. Agora, a Marvel parece determinada a desfazer esse desfecho — e o preço pode ser o legado de Sam Wilson.
As notícias sobre o elenco de ‘Vingadores: Doutor Destino’ revelam um problema que vai além de nostalgia mal dosada. Ter três personagens que já carregaram o manto de Capitão América no mesmo filme não é apenas redundância — é um sintoma de uma crise criativa mais profunda. Sam Wilson, John Walker e Steve Rogers vão dividir tela, e a pergunta que fica é: para quem, exatamente, este filme está sendo feito?
Três Capitães América e nenhum plano claro
Vamos ser precisos sobre o cenário. Sam Wilson é o Capitão América atual do MCU — ganhou o escudo legitimamente após uma jornada emocional em ‘Falcão e o Soldado Invernal’ e protagonizou ‘Admirável Mundo Novo’, onde enfrentou Thaddeus Ross e provou que pode carregar um blockbuster sozinho. John Walker foi o Capitão América imposto pelo governo, uma versão falha e interessante do conceito, agora integrado aos Thunderbolts. Steve Rogers é o original, aposentado após viajar no tempo para viver com Peggy Carter.
O problema não é a existência desses três personagens. O problema é que a Marvel parece não saber o que fazer com nenhum deles. Sam não foi estabelecido como líder de uma nova equipe de Vingadores — ‘Admirável Mundo Novo’ focou em sua jornada pessoal, sem construir o senso de comunidade heroica que Steve tinha com os Vingadores originais. John tem um arco interessante mas periférico. E Steve… bem, Steve já teve seu fechamento perfeito. Trazer ele de volta para aparecer ao lado de quem carrega seu legado é um movimento que grita insegurança criativa.
O retorno de Chris Evans e o eclipse de Sam Wilson
Anthony Mackie esperou anos para protagonizar um filme solo como Capitão América. Quando finalmente aconteceu, ‘Admirável Mundo Novo’ fez US$ 415 milhões mundialmente — números respeitáveis para um filme pós-‘Ultimato’, mas distantes dos US$ 2 bilhões de seu antecessor. A crítica foi dividida: elogiaram a atuação de Mackie e a sequência do duelo aéreo, mas apontaram problemas de ritmo e um terceiro ato apressado.
Agora, antes que Sam consiga se firmar como o rosto de uma nova era, o rosto da era antiga retorna. A presença de Steve Rogers em ‘Vingadores: Doutor Destino’ — independentemente de carregar escudo ou não — vai inevitavelmente atrair a atenção que deveria estar consolidando Sam como líder. Evans tem o carisma e o histórico para roubar qualquer cena em que apareça. Não é culpa dele; é simplesmente a realidade de trazer de volta um ícone estabelecido para dividir espaço com quem está tentando assumir esse papel.
A Marvel poderia contornar isso posicionando Sam como protagonista central, dando a ele os momentos de liderança e decisão que Steve teve em ‘Vingadores: Guerra Infinita’. Mas os primeiros indícios de marketing sugerem o contrário: o foco está em Robert Downey Jr. como Doutor Destino e no retorno de Evans. Sam Wilson parece mais um coadjuvante em seu próprio legado.
Quando nostalgia substitui construção narrativa
‘Vingadores: Guerra Infinita’ e ‘Vingadores: Ultimato’ funcionaram porque foram construídos sobre uma década de desenvolvimento de personagens. Cada herói na tela tinha uma história que o público acompanhava. O impacto emocional era ganho, não fabricado.
‘Vingadores: Doutor Destino’ parece seguir o caminho oposto. Em vez de construir sobre o que foi estabelecido pós-‘Ultimato’, o filme está trazendo de volta nomes familiares para gerar entusiasmo. Downey Jr. como vilão. Evans de volta. Possivelmente Hayley Atwell como Capitã Carter — porque quatro Capitães América seriam ainda mais absurdos que três.
Não é que nostalgia seja intrinsecamente ruim. O problema é usar nostalgia como substituto para desenvolvimento narrativo. Sam Wilson merecia entrar em sua primeira aventura de Vingadores com o peso de protagonista estabelecido. Em vez disso, ele entra competindo por espaço com o homem que ele substituiu — e com uma versão falha do símbolo que ele carrega.
John Walker: o Capitão América que ninguém pediu para ver novamente
Confesso que a presença de John Walker neste contexto me intriga mais do que me irrita. Wyatt Russell criou um personagem fascinantemente ambíguo em ‘Falcão e o Soldado Invernal’ — um homem que genuinamente acreditava estar à altura do manto, mas que falhou moralmente de formas que o público não perdoou facilmente. A cena em que ele executa um combatente com o escudo, manchando o símbolo de sangue, foi um dos momentos mais perturbadores da série.
A questão é: qual é a função dele em um filme que já tem dois outros Capitães América? Se Walker serve como contraponto moral, mostrando o que Sam poderia ter se tornado sem sua consciência, há potencial dramático. Mas se é apenas mais um nome para encher o elenco, sua presença só amplia a confusão temática.
Sam já provou ser melhor que Walker. Sam já provou ser digno do escudo que Steve lhe entregou. Ter ambos reaparecendo no mesmo momento da vida de Sam soa como a Marvel não confiando que o personagem pode carregar uma história sozinho.
O que Sam Wilson representa — e o que o MCU pode desperdiçar
O maior risco não é apenas ‘Vingadores: Doutor Destino’ ser um filme confuso. O risco é que ele defina o tom para ‘Vingadores: Guerras Secretas’ de forma que Sam Wilson nunca alcance o status que Steve Rogers teve. E isso seria um desperdício narrativo enorme.
Sam Wilson representa algo que Steve nunca poderia: um Capitão América negro em uma América contemporânea. Sua jornada em ‘Falcão e o Soldado Invernal’ abordou questões raciais, legado e identidade de formas que o MCU raramente ousou — particularmente no episódio em que Isaiah Bradley relata sua história como soldado negro usado como cobaia pelo governo americano. Reduzir isso a um coadjuvante em um filme cheio de rostos familiares seria um retrocesso.
A Marvel precisa decidir: quer contar histórias novas ou quer apenas recriar a glória do passado? Trazer Evans de volta é um movimento que funciona no curto prazo — o público vai aplaudir, os fãs vão postar clips, as bilheterias vão refletir o entusiasmo. Mas no longo prazo, cada retorno de um ícone antigo é uma admissão de que os novos ícones não estão funcionando.
O veredito: um filme que precisa provar seu propósito
Vou ser direto: estou cético, mas não fechado. ‘Vingadores: Doutor Destino’ pode surpreender e usar esses múltiplos Capitães América para explorar o que o símbolo realmente significa — cada um representando uma faceta diferente do ideal americano. Sam como o presente, Steve como o mito, Walker como o aviso.
Mas para isso funcionar, Sam Wilson precisa ser o centro gravitacional da história. Se o filme o reduz a um figurante enquanto Steve e Downey Jr. roubam o show, será um lembrete doloroso de que o MCU prefere nostalgia arriscada a construção paciente de novos heróis.
Sam Wilson merece melhor. E o público merece uma Marvel que confie em seus novos personagens o suficiente para deixá-los brilhar sem sombras do passado atrapalhando.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Vingadores: Doutor Destino’
Quantos Capitães América estarão em ‘Vingadores: Doutor Destino’?
Três atores que já interpretaram Capitão América estão confirmados: Anthony Mackie (Sam Wilson, o atual), Chris Evans (Steve Rogers, o original) e Wyatt Russell (John Walker, o ex-Capitão governo). Hayley Atwell como Capitã Carter é uma possibilidade, mas não confirmada.
Sam Wilson é o Capitão América oficial do MCU?
Sim. Sam Wilson assumiu oficialmente o manto no final de ‘Falcão e o Soldado Invernal’ (2021) e protagonizou ‘Capitão América: Admirável Mundo Novo’ (2025). Ele é o Capitão América canônico do MCU atual.
Chris Evans vai interpretar Capitão América novamente?
Chris Evans está confirmado no elenco de ‘Vingadores: Doutor Destino’, mas detalhes do papel não foram revelados. Pode ser Steve Rogers, uma versão alternativa do Multiverso, ou outro personagem — a Marvel não confirmou oficialmente.
Quando estreia ‘Vingadores: Doutor Destino’?
‘Vingadores: Doutor Destino’ está programado para estreia em maio de 2026. É o primeiro de dois filmes Vingadores planejados para encerrar a Fase 6 do MCU, seguido por ‘Vingadores: Guerras Secretas’ em 2027.
Quem é o vilão de ‘Vingadores: Doutor Destino’?
Doutor Destino, interpretado por Robert Downey Jr., é o vilão central. A escolha gerou debate: Downey Jr. foi o rosto do MCU como Homem de Ferro por 11 anos, e sua conversão em vilão é uma das apostas mais arriscadas da Marvel.

