‘V de Vingança’: a cena que a Warner tentou cortar e por que isso mudaria tudo

O diretor James McTeigue revelou que a Warner tentou remover a cena da carta de Valerie em ‘V de Vingança’. Analisamos por que esse corte destruiria o arco de Evey e apagaria a representação LGBTQIA+ central da obra.

Existe um tipo de intervenção de estúdio que não é sobre cortes por tempo ou orçamento — é sobre medo. Medo de controvérsia, medo de alienar públicos, medo de… o quê, exatamente? Em 2005, a Warner Bros. olhou para uma das sequências mais poderosas de ‘V de Vingança’ e pensou: ‘talvez seja melhor tirar isso’. A cena em questão é a carta de Valerie Page. Se eles tivessem conseguido, não teriam apenas encurtado o filme. Teriam destruído sua alma.

A revelação veio do próprio diretor James McTeigue, em entrevista à ScreenRant em março de 2025, pelo 20º aniversário do filme. Segundo ele, depois das filmagens concluídas, o estúdio pediu explicitamente que removesse a sequência onde Evey, aprisionada, lê a carta de uma mulher lésbica perseguida pelo regime fascista. A justificativa nunca foi dita claramente, mas o contexto fala por si: nos anos 2000, representação LGBTQIA+ em blockbusters ainda era tratada como risco comercial.

Por que a carta de Valerie é o coração narrativo do filme

Por que a carta de Valerie é o coração narrativo do filme

McTeigue usou a palavra certa: ‘crisol’. A carta de Valerie não é um adereço emocional — é o ponto de transformação de Evey Hammond. Até aquele momento, ela é refém do medo. Medo do governo, medo de V, medo de morrer. Valerie entrega a ela algo que nenhuma palestra de V conseguiria: a prova concreta de que a dignidade humana sobrevive mesmo sob o pior tipo de opressão.

Quem assistiu ao filme se lembra: a carta escrita em pedaços de papel higiênico, a voz em off de Natasha Wightman narrando uma vida simples — uma mulher que amou outra mulher, que perdeu tudo por isso, mas que se recusou a odiar seus perseguidores. ‘Eu não vou ficar aqui deitada e deixar vocês me destruírem’, ela escreve. ‘Vou morrer sabendo quem sou.’ Não é heroísmo grandioso. É heroísmo íntimo. E é exatamente isso que quebra Evey.

A sequência funciona porque é construída com paciência visual. São minutos de um filme de ação dedicados a uma história dentro de outra história — enquadramentos fechados no rosto de Evey, a luz fraca da cela, o som da caneta riscando papel. Uma mulher que nunca conhecemos, cujo maior crime foi amar quem amou. Se você corta isso, Evey sai da prisão por… quê? Porque V a torturou o suficiente? Porque ela simplesmente decidiu não ter mais medo? Sem Valerie, a transformação dela é narrativamente vazia. Com Valerie, é devastadora.

2005: quando representação LGBTQIA+ era ‘risco comercial’

Para entender a hesitação da Warner, é preciso lembrar onde estava a indústria em meados dos anos 2000. ‘Brokeback Mountain’ chegou aos cinemas no mesmo ano e foi tratado como evento excepcional — não como normalidade. A ideia de um blockbuster de ação, baseado em quadrinhos, dedicar minutos preciosos a uma história de amor lésbico não era apenas incomum. Era quase inexistente.

O regime Norsefire de ‘V de Vingança’ é explicitamente fascista, e a perseguição a minorias é parte central de sua ideologia. Valerie não é um personagem aleatório — ela é a prova viva (e depois morta) de como aquele sistema consome pessoas reais. Cortar sua história seria tornar o fascismo do filme algo abstrato, uma ameaça genérica em vez de uma violência específica contra corpos específicos.

McTeigue reconheceu isso implicitamente quando disse que a sequência é ‘o que transforma Evey’. Mas há outra camada: é também o que transforma o público. Ver uma mulher gay sendo presa, torturada e usada como cobaia por um governo que a considera ‘anormal’ não é apenas comentário social — é espelho. Em 2005, esse espelho era raro demais para ser jogado fora.

O que se perde quando estúdios editorializam significado

O que se perde quando estúdios editorializam significado

Há uma diferença entre cortes por ritmo — que todo filme sofre — e cortes por contenção de conteúdo. O primeiro é craft. O segundo é autocensura disfarçada de ‘notas criativas’. McTeigue teve sorte: Joel Silver o protegeu durante as filmagens, e quando o estúdio pediu a remoção, ele simplesmente recusou. ‘Você não pode tirar isso’, disse. E, para crédito da Warner, eles aceitaram.

Mas e se ele não tivesse recusado? E se o estúdio tivesse insistido? Teríamos um filme onde Evey aprende a viver sem medo, mas o público nunca entende por quê. Teríamos uma história sobre resistência ao fascismo que silencia uma de suas vítimas mais claras. Teríamos, no fim das contas, uma versão mais limpa e mais covarde de si mesmo.

A intervenção que quase aconteceu em ‘V de Vingança’ ilustra algo maior sobre como obras de arte política são tratadas por corporações. A Warner não queria censurar a crítica ao fascismo em si — queria remover a parte que poderia gerar manchetes desconfortáveis. É mais fácil defender liberdade abisa do que liberdade concreta para pessoas concretas.

Legado: o que a recusa de McTeigue preservou

Vinte anos depois, a carta de Valerie permanece como uma das sequências mais citadas do filme. Frases como ‘a igualdade é um fato, não uma escolha’ e ‘não vou me desculpar por quem sou’ circulam em redes sociais, camisetas e manifestações reais. Não são apenas linhas de diálogo — se tornaram ferramentas de resistência.

Se a Warner tivesse vencido essa batalha, ‘V de Vingança’ ainda seria um filme competente sobre tirania. Mas seria esquecível. O que o torna memorável não é só a máscara de Guy Fawkes ou os explosivos no Parlamento — é a humanidade de pessoas como Valerie, cujas vidas o fascismo tenta apagar e cujas vozes o filme se recusa a silenciar.

McTeigue disse que o que vemos é o que ele queria na tela. Isso é raro. Mais raro ainda é um diretor reconhecer, duas décadas depois, que precisou lutar para que algo essencial permanecesse. A carta de Valerie não é apenas sobre Evey. É sobre todos os Valeries reais — e sobre a responsabilidade de quem conta histórias em não apagá-las.

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Perguntas Frequentes sobre ‘V de Vingança’

Onde assistir ‘V de Vingança’?

‘V de Vingança’ está disponível na Netflix, Amazon Prime Video e pode ser alugado ou comprado em plataformas como Apple TV, Google Play Movies e Microsoft Store. A disponibilidade varia por região.

A cena da carta de Valerie está no quadrinho original?

Sim. Valerie Page é personagem do graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, publicado em 1982. A carta foi adaptada quase integralmente no filme, preservando frases icônicas como ‘vou morrer sabendo quem sou’.

Quem interpreta Valerie em ‘V de Vingança’?

Valerie é interpretada por Natasha Wightman. A atriz aparece brevemente em flashback e sua voz em off narra a carta que Evey lê na prisão — sequência que se tornou uma das mais memoráveis do filme.

‘V de Vingança’ é baseado em fatos reais?

Não. O filme é adaptação do graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, ambientado em um Reino Unido distópico fictício. Porém, o regime Norsefire e a perseguição a minorias espelham regimes totalitários reais do século XX.

Por que a Warner queria cortar a cena de Valerie?

A justificativa oficial nunca foi dada, mas o contexto aponta para o clima da indústria em 2005: representação LGBTQIA+ em blockbusters era vista como risco comercial. McTeigue recusou o corte e Joel Silver o apoiou.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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