‘V de Vingança’ 20 anos depois: diretor explica mudanças na graphic novel

Vinte anos depois, James McTeigue explica por que a adaptação da ‘V de Vingança graphic novel’ suavizou o niilismo de V e cortou subtramas — e como essas mudanças controversas garantiram ao filme um impacto cultural que a obra original jamais alcançaria.

Adaptar Alan Moore para o cinema é tarefa que já destruiu reputações. O autor de ‘Watchmen’ e ‘Batman: A Piada Mortal’ tem fama de odiar cada versão hollywoodiana de sua obra — e, honestamente, com razão. Mas ‘V de Vingança’ é o caso raro onde as mudanças radicais não apenas funcionaram, como criaram algo com vida própria. Vinte anos depois, o diretor James McTeigue finalmente explicou o raciocínio por trás das decisões que deixaram fãs da V de Vingança graphic novel divididos. E a justificativa revela algo que poucos querem admitir: às vezes, simplificar é a única forma de preservar a essência.

Por que o V do filme é menos niilista que o dos quadrinhos

Por que o V do filme é menos niilista que o dos quadrinhos

A admissão de McTeigue é direta: no material original de Moore e David Lloyd, V é ‘um pouco mais louco, um pouco mais niilista’. Quem leu a graphic novel sabe que isso é eufemismo. O V dos quadrinhos não é herói — é força da natureza amoral, anarquista puro que manipula Evey com crueldade calculada. Há momentos em que ele parece mais vilão que protagonista.

O filme optou por suavizar essas arestas. O resultado? Um personagem que o público consegue apoiar sem se sentir cúmplice de algo perturbador. McTeigue defende que era necessário ‘encontrar o equilíbrio certo’ — e, considerando que o filme arrecadou US$ 134,7 milhões com orçamento de US$ 50 milhões, a aposta comercial funcionou. Mas há um custo narrativo: a versão cinematográfica cria uma divisão mais clara entre bem e mal que a obra original propositalmente evitava.

Isso não é necessariamente ruim. Moore escreveu sua graphic novel como resposta ao thatcherismo britânico, com toda a complexidade política que isso exigia. O filme, produzido pós-11 de setembro e lançado em 2006, precisava funcionar para um público global que não vivera o contexto britânico dos anos 80. A simplificação tornou a mensagem universal — às custas do niilismo que dava à obra original sua força perturbadora.

Os cortes necessários que salvaram o filme de si mesmo

McTeigue cita especificamente o que foi removido: a personagem Helen Heyer e todo um ‘enredo C’ que existia na graphic novel, além de mudanças significativas no arco de Evey e do personagem Creedy. Para fãs puristas, isso soa como traição. Mas há uma realidade prática que críticos de adaptação frequentemente ignoram: estrutura narrativa não é opcional em cinema.

A graphic novel de Moore é densa, com múltiplas tramas entrelaçadas e uma abordagem quase literária de construção de mundo. Funciona no formato quadrinho, onde o leitor controla o ritmo. Em filme de duas horas, essa densidade seria catastrófica — você terminaria com um roteiro inchado que não daria tempo para nenhum momento respirar. Os Wachowskis, responsáveis pelo roteiro, sabiam disso por experiência própria com a trilogia ‘Matrix’.

O que McTeigue chama de ‘becos sem saída’ na graphic novel são exatamente isso: ramificações que enriquecem a obra como texto, mas que tornariam o filme inassistível. A escolha foi entre adaptar tudo mal ou adaptar parte bem. Eles escolheram a segunda opção — corretamente, na minha avaliação.

O contexto de produção que ninguém menciona

O contexto de produção que ninguém menciona

Há um detalhe na entrevista de McTeigue que merece mais atenção: o estúdio ‘não perguntou sobre a política’ do filme. Isso em 2005, com os Wachowskis vindo do sucesso comercial de ‘Matrix’. A liberdade criativa que o projeto teve foi extraordinária para uma produção mainstream com orçamento de US$ 50 milhões.

Esse contexto explica muito das escolhas. Sem pressão de estúdio para suavizar a mensagem política, os cineastas puderam focar no que importava: fazer a adaptação funcionar como filme. As mudanças não foram impostas de cima — foram decisões criativas de pessoas que entendiam que capturar ‘a essência e a autenticidade’ da obra exigia sacrifícios.

A ironia é que Alan Moore, famoso por rejeitar adaptações de seu trabalho, provavelmente nunca aceitaria essa justificativa. Mas Moore também nunca teve que fazer um filme funcionar em 132 minutos. Há uma diferença fundamental entre criar uma obra literária e traduzi-la para outro meio — e reconhecer isso não é concessão à mediocridade, é honestidade profissional.

O legado que a graphic novel nunca teria alcançado sozinha

Há um argumento que fãs da graphic novel evitam mencionar: a máscara de Guy Fawkes se tornou símbolo político global por causa do filme, não dos quadrinhos. Grupos ativistas do Anonymous aos protestos de Occupy Wall Street adotaram a imagem de V exatamente como o filme o apresentou — heróico, romantizado, visualmente icônico.

A versão niilista de V da graphic novel provavelmente nunca teria esse apelo. Ela é perturbadora demais, moralmente ambígua demais para funcionar como símbolo de resistência popular. O filme, ao simplificar, criou algo que transcendeu o entretenimento e entrou na cultura política real.

Isso valida a defesa de McTeigue de que as mudanças capturaram ‘a essência’ da obra. A essência de ‘V de Vingança’ — independente do meio — é a ideia de resistência ao autoritarismo. O filme preservou isso mesmo sacrificando elementos que fãs consideravam essenciais. O resultado é uma obra que Moore pode desprezar, mas que fez mais pela mensagem original que a graphic novel sozinha jamais conseguiria.

Veredito: traição ou tradução necessária?

Depois de reler a graphic novel e reassistir ao filme para esta análise, minha posição é clara: as mudanças foram corretas para o meio cinematográfico. O V de Moore é obra-prima da literatura em quadrinhos, com complexidade que funciona precisamente porque o formato permite. Tentar traduzir tudo isso para o cinema resultaria em um filme de três horas incoerente que nenhum estúdio financaria.

McTeigue e os Wachowskis fizeram o que bons adaptadores fazem: identificaram o núcleo emocional e temático da obra e construíram ao redor dele, descartando o que não servia ao novo formato. É o mesmo princípio que torna ‘O Senhor dos Anéis’ de Peter Jackson uma adaptação magistral apesar de cortar personagens inteiros de Tolkien. Fidelidade literal não é virtude em adaptação — fidelidade à essência é.

Para quem quer a experiência completa da visão de Moore, a graphic novel continua disponível e é leitura essencial. Para quem quer uma introdução acessível às mesmas ideias, o filme cumpre seu papel. O problema surge apenas quando insistimos que um deveria ser o outro — algo que nem Moore nem McTeigue jamais pretenderam.

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Perguntas Frequentes sobre ‘V de Vingança’

‘V de Vingança’ é baseado em história real?

Não. O filme é adaptação da graphic novel de Alan Moore e David Lloyd, publicada em 1982. Porém, a máscara usada por V é inspirada em Guy Fawkes, conspirador real que tentou explodir o Parlamento britânico em 1605.

Qual a diferença entre o filme e a graphic novel?

O V dos quadrinhos é mais niilista e moralmente ambíguo, enquanto o do filme é mais heroico. A graphic novel tem subtramas (como a de Helen Heyer) que foram cortadas. O contexto também muda: a obra original responde ao thatcherismo britânico; o filme adapta-se ao cenário pós-11 de setembro.

Alan Moore aprovou o filme?

Não. Moore é famoso por rejeitar todas as adaptações de sua obra para o cinema. Ele pediu para ter seu nome removido dos créditos de ‘V de Vingança’ e doou os direitos autorais do filme para os artistas envolvidos.

Por que a máscara de V virou símbolo do Anonymous?

A máscara de Guy Fawkes popularizada pelo filme tornou-se símbolo de resistência ao autoritarismo. O Anonymous adotou a imagem em 2008, durante protestos contra a Igreja da Cientologia, e ela se espalhou para movimentos como Occupy Wall Street.

Onde assistir ‘V de Vingança’?

O filme está disponível em streaming em plataformas como Amazon Prime Video, HBO Max e Netflix, dependendo da região. Também pode ser alugado ou comprado em serviços digitais como Apple TV e Google Play.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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