‘Undertone’, da A24, aposta no som como principal vetor de horror — e vai além da trilha assustadora. Analisamos como a escolha de ter um ator presente apenas em voz, gravado separadamente do set, transforma o formato experimental em mecanismo de medo.
Tem um tipo de terror que funciona pelo que você vê. E tem o terror que funciona pelo que você ouve — e que, depois que entra, não sai mais. ‘Undertone’, novo filme da A24, pertence à segunda categoria, com uma consciência técnica que poucos filmes de horror têm coragem de assumir.
Dirigido por Ian Tuason em sua estreia nas longas-metragens, ‘Undertone’ chegou ao circuito depois de passar pelo Fantasia International Film Festival em 2025 com recepção predominantemente positiva — 77% no Rotten Tomatoes, número respeitável para um terror de estreia independente. Mas o que chama mais atenção não é a nota: é a escolha estrutural por trás do filme inteiro, uma arquitetura sonora que transforma a forma de produção em conteúdo narrativo.
Uma atriz em cena. A outra, só na voz. E isso muda tudo.
Nina Kiri, conhecida do público de ‘O Conto da Aia’, carrega praticamente sozinha o peso visual de ‘Undertone’. Ela é Evy, co-apresentadora de um podcast de investigação paranormal que, no meio de um período turbulento — a mãe em estado terminal, a vida social reduzida a quase nada — começa a receber arquivos de áudio misteriosos. Dez gravações de um casal documentando os episódios de sonambulismo da mulher. O que parece material para um episódio interessante do podcast vai se tornando, gradualmente, outra coisa.
Sua mãe, interpretada por Michèle Duquet (de ‘As Virgens Suicidas’), é presença silenciosa — literalmente. Nenhuma fala. Só presença física. E Justin, o parceiro de podcast de Evy interpretado por Adam DiMarco (de ‘Muito Esforçado’), nunca aparece em tela. Toda a sua performance é vocal, gravada separadamente e inserida como o outro lado das ligações e gravações do podcast.
Essa arquitetura não é gimmick. É a espinha dorsal do horror do filme — e a razão pela qual ‘Undertone’ consegue ser perturbador sem depender de um único susto mecânico.
Como DiMarco atuou sem aparecer — e por que isso funcionou
DiMarco descreveu o processo de gravação com um detalhe que diz muito sobre o cuidado técnico da produção: ele gravou a maior parte do áudio no quarto de adolescente do próprio diretor, com um monitor ao vivo conectado a Nina Kiri no set. Tinha um microfone, dois laptops — um deles exibindo apenas a arte oficial do filme, projetando um brilho vermelho no rosto do ator — e um canal direto para o que estava acontecendo no set.
‘Eu realmente sentia que estava conduzindo meu próprio podcast com o microfone’, ele revelou. ‘Parecia bastante real.’ A decisão de ouvir as gravações misteriosas pela primeira vez durante as sessões reais — para garantir reação autêntica — é o tipo de escolha de ator que aparece na performance mesmo que o espectador não saiba exatamente por quê. Você sente a diferença entre alguém reagindo e alguém atuando uma reação.
O que isso cria na prática é uma textura de voz que soa presente sem nunca ser visível. Justin existe no filme como som, como memória auditiva — da mesma forma que as gravações assustadoras existem para Evy. A separação física entre os dois atores durante a produção replica, estruturalmente, a separação que o podcast cria entre quem fala e quem ouve.
O som gravado no iPhone que perturbou os próprios atores
As gravações centrais do filme — os registros do casal Mike e Jessa documentando os episódios noturnos dela — foram captadas em um iPhone real, com os atores em movimento. Tuason foi direto sobre a escolha: queria aquela textura crua, imperfeita, íntima que só uma gravação doméstica tem. O tipo de áudio que parece encontrado, não fabricado.
Kiri descreveu a sensação de ouvi-las como ‘realmente perturbador’. DiMarco disse que ‘tinham uma textura tal que pareciam reais’. Os dois optaram por ouvir os arquivos pela primeira vez durante as gravações, sem preparação prévia — exatamente como Evy e Justin os ouviriam no filme. A reação que você vê na tela é a primeira reação real.
Há algo de creepypasta nessa abordagem, e Tuason assumiu a influência. O horror da internet — aquele que chega disfarçado de documento real, de gravação encontrada, de coisa que alguém mandou no grupo da família sem saber o que era — tem uma eficácia específica porque borra a fronteira entre ficção e experiência. ‘Undertone’ pega essa lógica e a leva ao cinema sem perder a rugosidade original.
Nina Kiri e o set vazio que não era vazio
Kiri admitiu que, antes das filmagens, a preocupação era técnica — memorizar tudo, sustentar cenas inteiras sem parceiros de cena reais. O que aconteceu na prática foi diferente: a equipe reduzida criou um ambiente onde o peso era coletivo, não solitário. Ela mencionou buscar contato visual com membros da equipe durante as gravações para se ancorar em algo humano quando a cena exigia reação a algo que não estava lá.
É um detalhe pequeno que revela muito sobre como o filme foi feito. Não há monstros elaborados, não há jump scares calculados por comitê. Há performers construindo reações genuínas a estímulos invisíveis, com uma equipe inteira se tornando suporte emocional para que o terror funcionasse. O horror de ‘Undertone’ é, no fundo, artesanal.
Por que o formato serve ao conteúdo — e não o contrário
A decisão de ter Justin apenas como voz não é economia de produção. É escolha conceitual com consequências narrativas precisas. Num filme sobre um podcast — sobre a intimidade invasiva do áudio, sobre o que entra pelos ouvidos e ocupa espaço na imaginação — ter o parceiro de Evy como pura presença sonora é coerência formal. Você ouve Justin da mesma forma que Evy ouve as gravações misteriosas. Da mesma forma que, com fones de ouvido, você ouviria o próprio filme.
Kiri colocou com precisão: ‘o som é tão íntimo, especialmente se você está ouvindo com fones. É como se algo estivesse acontecendo bem ao seu lado.’ Isso não é descrição de efeito. É descrição de mecanismo. ‘Undertone’ foi construído para funcionar de uma forma específica, e o formato experimental é o veículo — não o destino.
Tuason entendeu que terror sonoro exige rigor formal, não apenas uma boa trilha assustadora. O medo que entra pelos ouvidos precisa de um canal construído para conduzi-lo. ‘Undertone’ construiu o canal certo — e teve a disciplina de não desviar dele.
‘Undertone’ está em cartaz. Recomendo fones de ouvido — não porque o filme pede, mas porque você vai querer.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Undertone’ (A24)
Onde assistir ‘Undertone’ da A24?
‘Undertone’ estreou no circuito de cinema em 2025 após passagem pelo Fantasia International Film Festival. A distribuição em streaming ainda não foi confirmada oficialmente — vale acompanhar os canais da A24 para anúncios de plataforma.
Quem dirige ‘Undertone’?
O filme é dirigido por Ian Tuason, em sua estreia nas longas-metragens. Tuason também assina o roteiro e foi responsável pelas escolhas técnicas de som que definem o estilo do filme.
‘Undertone’ é um found footage?
Não exatamente. O filme usa gravações domésticas captadas em iPhone como elemento central da narrativa — registros de um casal documentando episódios de sonambulismo — mas não é inteiramente found footage. É um horror mais próximo do formato podcast, com uma estrutura narrativa convencional em torno dessas gravações.
Por que recomendam assistir ‘Undertone’ com fones de ouvido?
O design sonoro do filme foi construído para criar proximidade auditiva — a sensação de que algo está acontecendo bem ao seu lado. Com fones, essa intimidade é amplificada significativamente, o que potencializa o efeito de horror pretendido pela produção.
‘Undertone’ é para quem?
É um terror de ritmo lento, voltado para quem aprecia horror psicológico e atmosférico. Se você busca sustos constantes ou ação, provavelmente vai se frustrar. Se gosta de filmes que constroem tensão de forma gradual e têm interesse por escolhas formais incomuns, ‘Undertone’ foi feito para você.

