‘Uma Batalha Após a Outra’: por que a ação de PTA superou ‘John Wick’

Analisamos como Paul Thomas Anderson superou o padrão técnico de ‘John Wick’ em seu novo filme. Descubra como o uso de transições invisíveis e a técnica de silhuetas criam uma das cenas de ação mais realistas da carreira de Leonardo DiCaprio.

Quando especialistas em efeitos visuais do Corridor Crew — um dos canais de maior autoridade técnica no YouTube — param uma cena para afirmar que o trabalho em ‘Uma Batalha Após a Outra’ superou o padrão ouro estabelecido por ‘John Wick’, o debate deixa de ser sobre gosto e passa a ser sobre engenharia cinematográfica. O ponto de ruptura não é a escala da ação, mas o que Paul Thomas Anderson (PTA) priorizou: a invisibilidade técnica absoluta.

A sequência em questão mostra Leonardo DiCaprio, no papel de Bob Ferguson, tentando saltar para um telhado, falhando e despencando enquanto recebe uma descarga de taser. Tudo parece ocorrer em um único plano contínuo. É nesse “parece” que reside a sofisticação que coloca o filme um degrau acima da famosa queda de John Wick em ‘John Wick 3: Parabellum’.

A costura invisível de PTA vs. o espetáculo físico de Stahelski

A costura invisível de PTA vs. o espetáculo físico de Stahelski

É preciso reconhecer: a queda de John Wick em ‘Parabellum’ é um marco. Chad Stahelski, sendo um ex-dublê, foca na clareza da performance física. No entanto, os analistas do Corridor Crew apontaram uma distinção fundamental na abordagem de PTA. Enquanto Stahelski usa a edição tradicional para pontuar impactos, Anderson utiliza o que chamamos de stitching (costura) digital para fundir performances.

Jordan Allen detalhou o desafio técnico: “O problema criativo é transicionar para os dublês durante a queda, voltar para DiCaprio no ar e transicionar novamente para o impacto — tudo sem que o olho perceba o corte”. Em ‘Uma Batalha Após a Outra’, o espectador não consegue identificar onde termina o ator e começa o profissional de risco. Três performances distintas foram fundidas em um movimento orgânico que desafia a percepção de montagem.

A técnica da silhueta: fotografia a serviço da ação

O segredo para essa fluidez está no uso estratégico de silhuetas. Jordan Allen foi preciso ao observar que, abaixo de certos níveis de luz, o detalhe desaparece, restando apenas o contorno. Michael Bauman, o diretor de fotografia de PTA, utilizou a iluminação não apenas para criar atmosfera, mas como uma ferramenta de VFX em tempo real.

Ao posicionar DiCaprio contra fontes de luz que o transformam em silhueta no momento exato da transição para o dublê, a equipe de pós-produção ganha “zonas seguras” para realizar o corte digital. Em ‘John Wick’, a estética de neon e alto contraste dificulta esse truque, deixando as emendas entre Keanu Reeves e seus dublês mais expostas ao escrutínio técnico.

Física do impacto: por que a queda de DiCaprio parece mais real

Niko Pueringer trouxe uma observação técnica sobre a velocidade de quadro. Na cena de DiCaprio, a velocidade de impacto foi calculada para simular a gravidade real, mesmo usando descensores de segurança. O dublê atinge o colchão a cerca de 25 milhas por hora, e o colchão é removido digitalmente com uma precisão que mantém o “quique” natural do corpo humano.

A transição final para o plano de DiCaprio acontece enquanto a câmera faz um movimento de inclinação (tilt) descendente. A economia de movimento de câmera aqui é o que vende a ilusão: ao não mover a câmera no espaço 3D durante a troca de performers, PTA elimina o erro de paralaxe que frequentemente denuncia o uso de dublês em filmes de ação convencionais.

O paradoxo do Oscar: por que a perfeição gera invisibilidade

‘Uma Batalha Após a Outra’ acumulou 13 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme e Direção, mas foi ignorado na categoria de Melhores Efeitos Visuais. É o paradoxo do efeito perfeito: a Academia tende a premiar o VFX “visível” — como as criaturas de ‘Avatar: Fogo e Cinzas’ ou os mundos de ‘Jurassic World: Recomeço’.

O trabalho de composição invisível de PTA é tão bem executado que muitos votantes sequer perceberam que havia efeitos ali. É uma injustiça técnica que reforça o viés de que VFX só existe quando há explosões ou alienígenas na tela. O ilusionismo de Anderson, que faz um ator de 50 anos parecer estar em perigo real, é, ironicamente, prejudicado por sua própria excelência.

O futuro da ação: do virtuosismo ao realismo imersivo

Se ‘John Wick’ salvou o gênero de ação nos anos 2010 ao trazer de volta a coreografia legível, PTA está indicando o caminho para a próxima década. Não se trata mais de mostrar que o ator está lá (o que muitas vezes limita a cena), mas de usar a tecnologia para tornar o impossível indistinguível da realidade.

A diferença entre a franquia de Keanu Reeves e o novo épico de Anderson é a diferença entre assistir a um balé técnico e testemunhar um evento traumático. Enquanto ‘John Wick’ é um mestre da competência física, ‘Uma Batalha Após a Outra’ opera no campo do ilusionismo cinematográfico puro, onde a técnica desaparece para que a emoção — e o medo — assumam o controle.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Uma Batalha Após a Outra’

Leonardo DiCaprio fez suas próprias acrobacias em ‘Uma Batalha Após a Outra’?

Não totalmente. O filme utiliza uma técnica avançada de ‘stitching’ digital que funde a performance de DiCaprio com dublês profissionais. O ator realiza o início e o fim da cena, mas as quedas mais perigosas são feitas por especialistas e unidas de forma invisível na pós-produção.

Quem é o diretor de fotografia do filme?

O diretor de fotografia é Michael Bauman, colaborador frequente de Paul Thomas Anderson. Ele foi indicado ao Oscar por seu trabalho no filme, sendo elogiado especialmente pelo uso de luz e sombras para esconder as transições de efeitos visuais.

Por que a cena é comparada a John Wick?

A comparação surgiu após especialistas em VFX notarem que ‘Uma Batalha Após a Outra’ conseguiu realizar quedas de altura com transições mais fluidas e realistas do que as vistas em ‘John Wick 3’, onde os cortes entre ator e dublê são mais perceptíveis para olhos treinados.

O filme recebeu indicação ao Oscar de Melhores Efeitos Visuais?

Curiosamente, não. Apesar de ter 13 indicações em outras categorias, o filme foi ignorado em VFX, provavelmente porque seus efeitos são ‘invisíveis’ e focados no realismo, enquanto a Academia costuma premiar filmes com efeitos mais fantasiosos.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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