‘Treta’ na Netflix: como a série evolui de comédia leve a drama profundo

A primeira temporada de ‘Treta’ (Beef) na Netflix é um estudo de como uma comédia sobre vingança mesquinha se transforma em drama existencial sobre solidão. Com 98% no Rotten Tomatoes e 8 Emmys, a série de Lee Sung Jin prova que personagens antipáticos podem se tornar profundamente humanos.

Há séries que começam de um jeito e terminam de outro completamente diferente — e essa não é uma falha, é uma conquista rara. Treta (título original: Beef) é exatamente isso: uma obra que se disfarça de comédia leve sobre vinganças mesquinhas para, pouco a pouco, revelar um estudo existencial sobre solidão e conexão humana. A transformação acontece organicamente, sem que você perceba que está sendo conduzido por um caminho cada vez mais profundo.

O que torna a primeira temporada de Treta tão fascinante é como ela subverte a expectativa criada pelo próprio marketing. Você chega pensando que vai assistir a uma briga de trânsito escalando para o absurdo — e de fato vai — mas sai dez episódios depois refletindo sobre ansiedade financeira, saúde mental negligenciada e a forma como machucamos os outros quando não conseguimos lidar com nossas próprias feridas. Para uma série que começa com dois adultos gritando um com o outro em plena rua, o destino é surpreendentemente íntimo.

Como a série constrói sua evolução silenciosa de tom

Ao longo de seus dez episódios, a série usa uma estrutura aparentemente simples: dois personagens com problemas de controle de raiva se cruzam em um incidente de trânsito e iniciam uma espiral de vinganças cada vez mais absurdas. Até aí, comédia de costumes com potencial para risadas nervosas. Mas o que o criador Lee Sung Jin — veterano de Silicon Valley e Tuca & Bertie — faz com essa premissa é uma escavação paciente.

Danny (Steven Yeun) e Amy (Ali Wong) começam como figuras quase caricatas de pessoas que não conseguem deixar nada passar. Mas conforme a série avança, ela visita o passado de cada um: as pressões familiares, as dívidas acumuladas, as expectativas não cumpridas e, crucialmente, a solidão que ambos carregam mesmo cercados de pessoas. Em algum momento, você percebe que não está mais torcendo para um derrotar o outro. Está torcendo para que ambos encontrem alguma paz.

A direção de fotografia acompanha essa transição. Os tons mais saturados e “cômicos” dos primeiros episódios dão lugar a uma paleta mais fria e introspectiva conforme a série mergulha no interior dos personagens. No quinto episódio, há uma sequência de crise doméstica em que a câmera se fixa em Amy por tempo suficiente para que você sinta o peso do silêncio — é aí que a série deixa explícito: isso não é mais sobre vingança. É sobre duas pessoas que não sabem como pedir ajuda.

O episódio que muda tudo

Se há um ponto de virada, é o nono episódio. Não vou estragar specifics, mas é aqui que Treta abandona qualquer pretensão de comédia convencional e se entrega completamente ao drama psicológico. A sequência envolvendo o personagem de David Choe e um incidente doméstico é filmada com uma tensão quase insuportável — o tipo de cena que você assiste entre os dedos. É corajoso da parte de Lee Sung Jin: ele arrisca alienar quem veio apenas para risadas em nome de algo mais ambicioso.

O detalhe é que essa sequência funciona porque a série passou oito episódios construindo essas pessoas. Quando o choque acontece, você não está assistindo a estranhos. Está vendo pessoas que você aprendeu a reconhecer, com todas as suas falhas e pequenas esperanças.

Por que a primeira temporada merece seus 98% no Rotten Tomatoes

Números como 98% de aprovação costumam gerar desconfiança. Mas Treta entrega algo que poucas séries conseguem: cada episódio adiciona uma camada significativa à narrativa. Não há episódios de preenchimento. Cada cena, cada revelação, cada aparente digressão serve ao propósito de construir uma compreensão mais profunda de quem são Danny e Amy.

O elenco é fundamental. Steven Yeun, que em Minari (2020) provou saber carregar o peso de personagens interiormente dilacerados, traz uma vulnerabilidade física para Danny — você lê a frustração dele nos ombros curvados, no jeito como ele segura o volante. Ali Wong, conhecida pelo stand-up afiado, revela uma dramaticidade que surpreende. A Amy dela começa como caricatura de empresária bem-sucedida mas vazia, e termina como uma mulher que você reconhece — talvez veja reflexos dela em alguém que conhece.

Os oito Emmys conquistados pela série — incluindo melhor série limitada ou antológica e os prêmios de atuação para Yeun e Wong — não são apenas reconhecimento técnico. São reconhecimento de que Treta fez algo que a televisão raramente consegue: transformar personagens inicialmente antipáticos em figuras profundamente humanas, sem nunca trair o que eles são.

O desafio da segunda temporada com Oscar Isaac e Carey Mulligan

Aqui está o problema de uma série antológica que atingiu a perfeição em sua primeira temporada: como seguir? Treta tem final conclusivo — Danny e Amy encerram suas jornadas de forma que faz sentido narrativo e emocional. A segunda temporada, marcada para 16 de abril de 2026 na Netflix, terá que construir tudo do zero.

Mas há motivos para otimismo. Oscar Isaac, que carregou a complexidade psicológica de Moon Knight e a melancolia de Inside Llewyn Davis, tem o tipo de presença que faz você torcer por um personagem mesmo quando ele está sendo objetivamente terrível. Carey Mulligan, por sua vez, tem em seu currículo — de Promising Young Woman a An Education — provas de que consegue habitar mulheres que escondem abismos por trás de aparências controladas.

A aposta parece ser a mesma: um incidente relativamente trivial que escala para uma batalha de vinganças, que por sua vez se revela como porta de entrada para um estudo de personagem. Se funcionar, Treta se estabelece não como uma série sobre vingança, mas como uma série sobre como pequenos conflitos cotidianos expõem as rachaduras que carregamos dentro de nós.

Para quem é (e para quem não é)

Se você aprecia séries que respeitam a inteligência do espectador, que constroem personagens em vez de arquétipos, que usam o humor como ferramenta para acessar verdades desconfortáveis — Treta é obrigatória. A primeira temporada funciona como um mapa completo de como uma série pode evoluir de “dois idiotas brigando” para “meditação sobre a solidão moderna”.

Aviso justo: quem busca comédia pura pode se frustrar a partir do meio. Treta não quer apenas fazer rir — quer fazer sentir. E isso inclui desconforto. A série tem momentos de violência emocional genuinamente difíceis de assistir. Se você está em um momento vulnerável, vale considerar isso antes de iniciar.

A segunda temporada terá seu próprio mérito a conquistar. Mas a primeira já deixou um legado: provou que televisão pode ser simultaneamente acessível e profunda, engraçada e devastadora, pequena em escala e enorme em ambição.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Treta’ na Netflix

Qual o nome original da série ‘Treta’ na Netflix?

O título original é Beef, que em inglês significa tanto ‘carne’ quanto ‘rivalidade’ ou ‘treta’ no sentido de conflito. No Brasil, a Netflix optou por traduzir diretamente para ‘Treta’.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘Treta’?

A primeira temporada tem 10 episódios, cada um com aproximadamente 30-35 minutos. A série foi lançada integralmente em 6 de abril de 2023 na Netflix.

A segunda temporada de ‘Treta’ continua a mesma história?

Não. ‘Treta’ é uma série antológica — cada temporada conta uma história independente com personagens novos. A segunda temporada, prevista para 16 de abril de 2026, terá Oscar Isaac e Carey Mulligan como protagonistas.

Preciso assistir à primeira temporada para entender a segunda?

Não precisa. Por ser antológica, cada temporada funciona sozinha. Porém, assistir à primeira ajuda a entender o estilo narrativo da série e por que ela foi tão aclamada — além de ser uma experiência completa em si mesma.

Qual a classificação indicativa de ‘Treta’?

A série tem classificação 16 anos. Contém linguagem forte, violência, uso de drogas e temas intensos sobre saúde mental. Não é recomendada para públicos sensíveis a esses temas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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