‘Treta’: Como a melhor série da Netflix pode se reinventar e durar para sempre

Analisamos como ‘Treta’ pode adotar um modelo antológico inspirado em ‘The White Lotus’ para se reinventar sem perder qualidade. Entenda por que o formato de Lee Sung Jin tem potencial para durar décadas — e por que a segunda temporada com Oscar Isaac e Carey Mulligan pode funcionar.

Existe um tipo de série que chega anunciada como ‘limitada’ e, quando termina, deixa aquele vazio absurdo. Você sabe que acabou, aceita que acabou, mas secretamente torce para que alguém mude de ideia. ‘Treta’ foi exatamente isso em 2023: uma obra tão completa que parecia impossível replicar — até a Netflix anunciar que a segunda temporada está a caminho. E aqui está o paradoxo: a primeira temporada termina de forma tão perfeita que qualquer continuação soa como sacrilégio. Mas ao mesmo tempo, o formato que Lee Sung Jin criou tem potencial para durar décadas. Como ambas as coisas podem ser verdadeiras?

A resposta está no que ‘Treta’ realmente é — não uma história sobre dois motoristas furiosos, mas um estudo sobre como o conflito humano pode ser o motor narrativo mais potente da televisão. E isso, diferente de personagens específicos, é renovável infinitamente.

Por que a química entre Steven Yeun e Ali Wong transcende a premissa

À primeira vista, ‘Treta’ parece uma comédia de situação escrachada: dois desconhecidos se envolvem em uma briga de trânsito e a coisa escala para níveis de destruição mútua que nem os envolvidos previram. Danny (Steven Yeun) é um empreiteiro frustrado tentando sustentar uma família que não valoriza seus sacrifícios. Amy (Ali Wong) é uma empresária de sucesso cuja vida perfeita é fachada para um vazio existencial que ela mal consegue nomear. O incidente no estacionamento é apenas a faísca.

O que Lee Sung Jin entende — e isso separa ‘Treta’ de 99% das comédias de streaming — é que a raiva entre Danny e Amy não é sobre o incidente. É sobre solidão. A série constrói isso com uma paciência narrativa que raramente vemos em produções que se vendem como ‘dark comedy’. Há uma cena específica no quarto episódio, ‘Just Add Cream’, em que Amy, exausta de manter as aparências, desaba em frente ao marido George. A câmera de Larkin Seiple fixa nela. Não corta. Fica lá, em plano fechado desconfortável. O silêncio dura segundos que parecem horas. É nesse momento que você percebe: isso não é uma série sobre vingança. É sobre duas pessoas que encontraram uma válvula de escape uma na outra.

A química entre Yeun e Wong carrega o peso dessa dinâmica. Eles interpretam personagens que são, simultaneamente, detestáveis e profundamente humanos. Você quer que eles percam. Você quer que eles vençam. Você quer que eles se destruam e, de alguma forma, se salvem. Essa ambiguidade emocional é o tipo de coisa que roteiros de IA não conseguem replicar — exige um entendimento de psicologia humana que vai além de ‘personagem A faz X, personagem B reage com Y’. Os Emmys que ambos ganharam em 2024 — Ator e Atriz Principal em Série Limitada — foram reconhecimento merecido.

O modelo antológico que ‘The White Lotus’ provou que funciona

Aqui está onde a comparação se torna relevante. A série de Mike White na HBO provou algo que executivos de streaming demoraram a aceitar: o público não necessariamente quer seguir os mesmos personagens por temporadas infinitas. O que eles querem é uma sensação específica — um tipo de história contada de forma reconhecível, mesmo que com elenco e cenário novos a cada ano.

‘Treta’ tem exatamente essa estrutura. A primeira temporada funciona como obra fechada: não há fios soltos, não há cliffhangers artificiais, não há a sensação de que algo ficou inacabado. Os 98% no Rotten Tomatoes e as 13 indicações ao Emmy não são exagero. Mas aqui está o ponto crucial: tudo isso pode acontecer de novo, com personagens diferentes, em um contexto diferente.

O conceito de ‘Treta’ é simples o suficiente para ser replicado, mas profundo o suficiente para não se tornar repetitivo: duas pessoas entram em conflito, e esse conflito expõe feridas que elas nem sabiam que tinham. O cenário pode mudar. Os personagens podem mudar. As apostas podem mudar. O que permanece é a essência — a ideia de que o ser humano, quando confrontado com alguém que representa tudo o que ele rejeita, acaba confrontando a si mesmo.

O risco que a segunda temporada assume (e por que pode dar certo)

Vou ser direto: a segunda temporada de ‘Treta’ carrega um peso que poucas sequências carregam. Não é apenas a pressão de igualar a qualidade da primeira — é a pressão de justificar sua existência. Quando uma série é anunciada como ‘limitada’, existe um contrato implícito com o público: esta história tem começo, meio e fim definidos. Quebrar esse contrato exige mais do que apenas ‘mais episódios’. Exige uma razão narrativa.

O que sabemos até agora: a segunda temporada terá novo elenco, com Oscar Isaac e Carey Mulligan protagonizando. A premissa parece manter o núcleo — conflito entre dois indivíduos que escala para proporções catastróficas — mas com apostas diferentes. Isso é inteligente. Tentar replicar a dinâmica específica de Danny e Amy seria um erro. O que fez aqueles personagens funcionar não era apenas a escrita, mas a vulnerabilidade específica que Yeun e Wong trouxeram. Tentar forçar essa mesma química seria como tentar remontar ‘Pulp Fiction’ com elenco novo e esperar o mesmo resultado.

O que pode funcionar — e ‘The White Lotus’ provou com sua mudança de Sicília para Hawai — é manter a estrutura enquanto se renova o conteúdo. Mike White mudou de resort, mudou de elenco, mudou de dinâmicas específicas. Mas manteve o que faz a série ser reconhecível: a sátira de classe, o desconforto social, a tensão que ferve sob a superfície. ‘Treta’ pode fazer o mesmo.

Por que conflito é um recurso narrativo infinito

Existe uma razão pela qual séries sobre crimes, médicos e advogados dominam a televisão há décadas: profissões que lidam com conflito geram histórias infinitamente. ‘Treta’ encontrou algo similar, mas mais universal. Não é sobre profissão. É sobre raiva.

A raiva é um dos sentimentos mais acessíveis e menos explorados de forma inteligente na televisão mainstream. A maioria das séries trata raiva como obstáculo — algo que personagens precisam superar para chegar a um final feliz. ‘Treta’ faz o oposto: trata a raiva como ponto de partida, como lente através da qual os personagens se entendem. Danny e Amy não superam sua raiva. Eles a usam. E, no processo, descobrem que ela estava conectada a algo maior — uma solidão que ambos carregavam sem admitir.

Esse é o material que não envelhece. Formas específicas de conflito — briga de trânsito, disputa por vaga de estacionamento — são produtos de seu tempo. Mas a dinâmica subjacente, a forma como o conflito expõe quem realmente somos, isso é atemporal. Uma segunda temporada poderia explorar conflitos conjugais, conflitos profissionais, conflitos entre vizinhos. O formato permite.

Veredito: por que ‘Treta’ merece seu futuro

Nem toda série precisa durar para sempre. Na verdade, a maioria não deveria durar para sempre. Mas ‘Treta’ tem algo que a maioria não tem: um formato que se renova sem se trair. Se Lee Sung Jin conseguir manter o nível de escrita da primeira temporada — e a escolha de Oscar Isaac e Carey Mulligan sugere que a ambição permanece alta — estamos olhando para uma das poucas franquias de prestígio que pode justificar sua existência ano após ano.

Para quem ainda não viu: a primeira temporada de ‘Treta’ está na Netflix, completa, com 10 episódios de cerca de 30 minutos cada. Funciona como obra fechada. Você pode assistir, terminar, e seguir com sua vida. Mas se você for como a maioria dos espectadores que conheço, vai terminar o último episódio com uma pergunta na cabeça: ‘e agora?’ A resposta está chegando. E, pela primeira vez em muito tempo, tenho esperança de que uma continuação não seja apenas uma extensão comercial — mas uma expansão artística.

Se você curte narrativas que tratam o público como adulto, que fazem humor sem subestimar a inteligência, e que exploram emoções reais em vez de melodrama fabricado, ‘Treta’ é obrigatória. Se prefere histórias com final definido e sem compromisso com sequências, a primeira temporada funciona perfeitamente sozinha. A beleza do formato que Lee Sung Jin criou é que ambas as escolhas são válidas. E isso, no cenário atual de streaming, é raro o suficiente para ser celebrado.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Treta’

Onde assistir ‘Treta’?

‘Treta’ (Beef) é uma produção original Netflix, disponível exclusivamente na plataforma desde abril de 2023. A primeira temporada completa está disponível para assinantes.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘Treta’?

A primeira temporada tem 10 episódios, cada um com aproximadamente 30 minutos de duração. O total é cerca de 5 horas de conteúdo — ideal para maratonar em um fim de semana.

‘Treta’ tem segunda temporada?

Sim. A Netflix confirmou a segunda temporada com novo elenco: Oscar Isaac e Carey Mulligan nos papéis principais. A série adotará formato antológico, com nova história e personagens, mantendo a premissa de conflito humano como motor narrativo.

Quem são os protagonistas da primeira temporada de ‘Treta’?

Steven Yeun (de ‘Minari’ e ‘The Walking Dead’) interpreta Danny Cho, e Ali Wong (comediante stand-up e atriz de ‘Always Be My Maybe’) interpreta Amy Lau. Ambos ganharam Emmy 2024 por suas performances.

‘Treta’ é baseado em história real?

Não. A série é ficção original criada por Lee Sung Jin. Porém, o criador mencionou em entrevistas que se inspirou em experiências pessoais de road rage e em conversas com amigos sobre conflitos cotidianos que escalam desproporcionalmente.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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