‘Toys in the Attic’: A genial paródia de ‘Alien’ em ‘Cowboy Bebop’

Analisamos como ‘Cowboy Bebop’ utilizou a gramática visual de Ridley Scott para criar ‘Toys in the Attic’. Entenda por que a paródia da lagosta mutante é uma aula de direção, subvertendo o terror de ‘Alien’ através do humor cotidiano e da estética Used Future.

Existe um tipo específico de episódio que separa animes bons de obras fundamentais: aquele que funciona como um curta-metragem perfeito, independente de você conhecer a mitologia da série ou não. ‘Toys in the Attic’ (Session #11), de ‘Cowboy Bebop’, é o exemplo definitivo dessa maestria. O que começa como um dia tedioso na nave se transforma na paródia mais inteligente de ‘Alien: O Oitavo Passageiro’ já feita.

A diferença entre referência e reverência: Onde ‘Bebop’ acerta

A diferença entre referência e reverência: Onde 'Bebop' acerta

Parodiar Ridley Scott é um terreno perigoso. A maioria das produções cai no erro de apenas replicar visualmente o Xenomorfo ou a cena do chest-burster. ‘Cowboy Bebop’, sob a direção de Shinichiro Watanabe, faz algo muito mais sofisticado: ele replica a gramática cinematográfica de ‘Alien’ para contar uma piada sobre higiene doméstica.

O episódio utiliza o isolamento espacial, a eliminação gradual da tripulação e a caçada nos dutos de ventilação com uma precisão técnica impressionante. A trilha sonora de Yoko Kanno, geralmente explosiva com o jazz da The Seatbelts, aqui se retrai. O silêncio e os sons diegéticos — o metal rangendo, a respiração pesada — evocam o terror claustrofóbico da Nostromo, mas o monstro, ironicamente, é um resto de comida esquecido.

Uma lagosta mutante no lugar de H.R. Giger

O setup é brilhante em sua banalidade. Não há vilões intergalácticos; há apenas o tédio de Spike, Jet, Faye e Ed. Quando a ‘criatura’ começa a atacar, a câmera assume ângulos baixos e distorcidos, típicos do cinema de horror dos anos 70. A tensão é real, o que torna a revelação final ainda mais hilária.

O ‘monstro’ não é um organismo perfeito vindo das estrelas, mas uma lagosta ganymede que Spike esqueceu na geladeira há um ano. Ao substituir o design biomecânico e fálico de H.R. Giger por uma gosma mutante nascida da negligência, o anime subverte o horror existencial pelo horror cotidiano. É o terror do desconhecido versus o terror de quem não limpa a própria casa.

O triunfo do episódio ‘Filler’

O triunfo do episódio 'Filler'

Muitos espectadores casuais tendem a pular episódios que não avançam a trama do Sindicato Red Dragon. É um erro crasso. É em momentos como ‘Toys in the Attic’ que a personalidade da tripulação se cristaliza. Confinados e sob pressão, vemos as dinâmicas de poder: Jet tentando ser o adulto racional (e falhando), Faye priorizando sua sobrevivência e Spike enfrentando o problema com uma metralhadora absurdamente desproporcional.

A estética Used Future (futuro usado), que ‘Cowboy Bebop’ compartilha com o filme de 1979, é o que ancora a paródia. Ambas as naves — a Bebop e a Nostromo — são ambientes de trabalho sujos e funcionais. Essa proximidade estética permite que o episódio transite entre o suspense genuíno e a comédia pastelão sem perder a coesão.

A lição moral (e o aviso para sua geladeira)

O encerramento com as ‘lições’ de cada personagem parodia as conclusões moralistas de desenhos ocidentais, mas o veredito final de Spike é o que ressoa: ‘Não deixe as coisas na geladeira’. É o anticlímax perfeito para uma jornada de tensão crescente.

‘Toys in the Attic’ prova que ‘Cowboy Bebop’ não era apenas um anime de ação, mas um exercício constante de gênero. Ao tratar uma lagosta estragada com a mesma seriedade cinematográfica que Scott tratou o Alien, a série elevou o nível do que uma paródia pode alcançar, transformando o mundano em algo lendário.

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Perguntas Frequentes sobre Cowboy Bebop e Alien

Qual o episódio de Cowboy Bebop que parodia Alien?

O episódio é o Session #11, intitulado ‘Toys in the Attic’ (Brinquedos no Sótão). É amplamente considerado um dos melhores episódios ‘standalone’ da série.

O que era o monstro no episódio ‘Toys in the Attic’?

O ‘monstro’ era uma lagosta de Ganymede que Spike Spiegel esqueceu em um frigobar nos fundos da nave por mais de um ano, gerando uma mutação biológica tóxica.

Preciso ver os episódios anteriores para entender este?

Não necessariamente. ‘Toys in the Attic’ é um episódio autocontido que foca na interação dos personagens e na atmosfera de suspense, sem depender da trama principal do Sindicato.

Quais são as referências diretas a Alien no episódio?

As principais referências são o uso de sensores de movimento, a caçada pelos dutos de ventilação, a iluminação expressionista e a eliminação sequencial dos membros da tripulação, espelhando a estrutura do filme de 1979.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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