‘Torso’ na Netflix: noir de Bendis ganha diretor de ‘Barbarian’

Após duas décadas em limbo de desenvolvimento — com Fincher, Greengrass e Matt Damon envolvidos em diferentes momentos — a adaptação do graphic novel noir de Bendis sobre o serial killer de Cleveland finalmente avança. Explicamos por que Zach Cregger é a escolha certa e o que torna este projeto diferente.

Alguns projetos de Hollywood parecem amaldiçoados. Passam décadas pulando de estúdio em estúdio, acumulando diretores de prestígio que entram e saem, roteiros reescritos e datas de lançamento que nunca chegam. A adaptação de ‘Torso’ para a Netflix finalmente quebrou essa maldição — e o nome por trás disso explica por que desta vez pode ser diferente.

O graphic novel de Brian Michael Bendis e Marc Andreyko, publicado em 1998, conta a história real do Assassino do Torso de Cleveland, um serial killer que aterrorizou a cidade natal de Bendis nos anos 1930. No centro da trama está Eliot Ness — sim, o mesmo que derrubou Al Capone — liderando uma força-tarefa secreta chamada “Unknowns” para caçar um fantasma que a polícia nunca conseguiu identificar.

Agora, com Zach Cregger na direção e Netflix bancando a produção, ‘Torso’ finalmente tem o que faltou em todas as tentativas anteriores: um estúdio disposto a assumir o risco.

Por que ‘Torso’ nunca saiu do papel (até agora)

A história dessa adaptação é quase tão tortuosa quanto o caso que ela retrata. No início dos anos 2000, David Fincher estava escalado para dirigir, com Matt Damon como Eliot Ness e roteiro de Ehren Kruger. Parecia inevitável: Fincher, vindo de ‘Se7en’ e ‘Zodiac’, era o diretor perfeito para um noir de serial killer ambientado na Grande Depressão. A Paramount tinha tudo alinhado.

E então, nada.

O problema era previsível: um filme de época, estilizado, com classificação R, exige orçamento alto e retorno incerto. Estúdios tradicionais ficam nervosos com essa combinação. A Paramount desistiu. A Miramax considerou e também recuou. Em 2013, David Lowery (que depois faria ‘A Ghost Story’) foi contratado para escrever e dirigir. Em 2017, Paul Greengrass assumiu um projeto rebatizado de ‘Ness’. Em 2018, a Paramount abandonou de vez.

Quase vinte anos de desenvolvimento. Três diretores de primeira linha. Zero filmes.

Zach Cregger não é escolha óbvia — e é exatamente por isso que faz sentido

Se você esperava que ‘Torso’ finalmente acontecesse nas mãos de um veterano do gênero, Cregger pode parecer uma surpresa. Ele construiu carreira em comédia, como parte do grupo de humor Whitest Kids U’ Know. Seu primeiro filme como diretor solo foi ‘Barbarian’ (2022), um terror de baixo orçamento que virou fenômeno de bilheteria e crítica.

Mas é justamente ‘Barbarian’ que explica a escolha. Cregger demonstrou algo raro: a capacidade de construir tensão atmosférica com recursos limitados, subvertendo expectativas de gênero sem perder o público. ‘Barbarian’ funciona porque você nunca sabe para onde a história vai — e quando descobre, já é tarde demais.

‘Torso’ exige exatamente isso. O graphic novel de Bendis não é um procedural policial convencional. É uma descida ao desespero, onde o detetive mais famoso da América enfrenta um caso que destrói sua reputação e sua sanidade. A estética noir de Bendis e Andreyko — preto e branco brutal, sombras que engolem rostos — precisa de um diretor que entenda que o horror está no que você não vê.

O que torna ‘Torso’ diferente de outros noirs de serial killer

Histórias de serial killers reais viraram subgênero próprio. De ‘Zodiac’ a ‘Mindhunter’, de ‘Dahmer’ a dezenas de documentários true crime, o público já viu muita coisa. O que ‘Torso’ oferece de diferente?

Primeiro, o protagonista. Eliot Ness não é um detetive qualquer — é uma lenda americana, o homem que prendeu Al Capone. Mas em Cleveland, depois de Chicago, Ness encontrou um adversário que não podia ser derrotado com investigação tradicional. O Assassino do Torso nunca foi identificado. Os corpos apareciam desmembrados, sem cabeça, impossíveis de reconhecer. Ness perseguiu um fantasma até sua carreira desmoronar.

Segundo, a abordagem visual. Bendis e Andreyko criaram uma obra que usa a linguagem dos quadrinhos de forma cinematográfica — enquadramentos que lembram film noir clássico, silêncios que ocupam páginas inteiras, uma Cleveland industrial que parece um personagem. Adaptar isso exige mais do que filmar a história; exige traduzir uma estética.

Terceiro, o final. Ou melhor, a ausência dele. O caso nunca foi resolvido. ‘Torso’ não oferece a catarse de ver o assassino capturado. Oferece algo mais perturbador: a realidade de que alguns monstros escapam.

Netflix como o estúdio que Hollywood não quis ser

Há uma ironia em ‘Torso’ finalmente acontecer na Netflix. Durante duas décadas, estúdios tradicionais reconheceram o potencial do projeto — Fincher, Damon, Greengrass não se envolvem em qualquer coisa — mas nenhum teve coragem de bancar.

A Netflix opera com outra lógica. Não precisa de bilheteria de fim de semana. Pode absorver projetos de nicho que encontram público ao longo de meses, não dias. Um noir de época sobre um serial killer não identificado dos anos 1930, com classificação R e visual estilizado, é exatamente o tipo de aposta que streamings podem fazer e estúdios tradicionais evitam.

A equipe de produção reforça a seriedade do projeto. Nick Antosca (criador de ‘Brand New Cherry Flavor’ e ‘The Act’) e Roy Lee (produtor de ‘Se7en’, ‘O Chamado’ e ‘Barbarian’) trazem experiência em horror e suspense. Bendis e Andreyko como produtores executivos garantem que os criadores originais têm voz no resultado.

Bendis antes de ser Bendis

Bendis antes de ser Bendis

Para quem conhece Brian Michael Bendis apenas pelo trabalho na Marvel — ‘O Espetacular Homem-Aranha’, ‘Os Vingadores’, ‘Jessica Jones’ — ‘Torso’ é uma oportunidade de descobrir de onde ele veio. A série de seis edições, lançada em 1998, ganhou o Eisner Award e estabeleceu Bendis como um contador de histórias de primeira linha antes de ele tocar em qualquer super-herói.

O estilo que ele desenvolveria na Marvel — diálogos naturalistas, ritmo que alterna entre longas conversas e explosões de ação, personagens definidos por suas falhas — já está presente em ‘Torso’. A diferença é o tom: sem poderes, sem fantasia, apenas um homem contra o pior que a humanidade pode produzir.

Adaptar ‘Torso’ não é apenas fazer mais um filme de serial killer. É trazer ao público mainstream a obra que lançou uma das carreiras mais influentes dos quadrinhos contemporâneos.

O que esperar da adaptação

Ainda não há data de lançamento ou informações sobre elenco. O projeto foi anunciado recentemente, e produções desse porte levam tempo para se materializar. Mas alguns elementos parecem prováveis.

Cregger provavelmente vai priorizar atmosfera sobre gore. ‘Barbarian’ mostrou que ele sabe quando mostrar e quando sugerir. ‘Torso’ pede contenção — o horror está na impotência de Ness, não nos detalhes dos crimes.

A ambientação em Cleveland dos anos 1930 oferece possibilidades visuais que Hollywood raramente explora. A Grande Depressão, a indústria em colapso, uma cidade que parece estar se decompondo junto com os corpos que aparecem. Se a produção capturar a estética do graphic novel, teremos algo visualmente distinto de qualquer coisa no catálogo da Netflix.

E há a questão do final. Um filme que não resolve seu mistério central é uma aposta. O público de true crime está acostumado a respostas, mesmo que fabricadas. ‘Torso’ oferece algo mais honesto e mais frustrante: a verdade de que nem tudo se resolve.

Depois de duas décadas de quase-aconteceu, ‘Torso’ finalmente encontrou um lar. Se Cregger entregar metade do que ‘Barbarian’ prometeu, e se a Netflix der liberdade criativa à equipe, podemos ter não apenas uma boa adaptação de quadrinhos, mas um dos melhores noirs de serial killer em anos. O Assassino do Torso escapou da justiça em 1938. Talvez, quase um século depois, ele finalmente encontre seu filme.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Torso’ na Netflix

Quando ‘Torso’ será lançado na Netflix?

Ainda não há data de lançamento confirmada. O projeto foi anunciado recentemente e está em fase inicial de produção. Filmes desse porte costumam levar de 2 a 3 anos entre anúncio e estreia.

‘Torso’ é baseado em história real?

Sim. O graphic novel de Brian Michael Bendis e Marc Andreyko é baseado no caso real do Assassino do Torso de Cleveland, um serial killer que atuou entre 1935 e 1938. O caso nunca foi solucionado, e Eliot Ness — famoso por prender Al Capone — liderou a investigação sem sucesso.

Quem é Zach Cregger, o diretor de ‘Torso’?

Zach Cregger é o diretor e roteirista de ‘Barbarian’ (2022), terror de baixo orçamento que se tornou sucesso de crítica e bilheteria. Antes disso, era conhecido por trabalhos em comédia como membro do grupo Whitest Kids U’ Know.

David Fincher chegou a dirigir ‘Torso’?

Não. Fincher esteve ligado ao projeto no início dos anos 2000, com Matt Damon escalado como Eliot Ness, mas a produção nunca avançou. O projeto passou por vários diretores — incluindo David Lowery e Paul Greengrass — antes de chegar a Zach Cregger.

Onde ler o graphic novel ‘Torso’ original?

O graphic novel de Brian Michael Bendis e Marc Andreyko foi publicado originalmente em 1998 pela Image Comics. Está disponível em edição encadernada em inglês pela Image e pode ser encontrado em lojas especializadas em quadrinhos ou plataformas como Amazon e Comixology.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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