‘The White Lotus’: por que a série envelhece como um vinho fino

Quatro anos após estrear, ‘The White Lotus’ parece mais profecia que sátira. Explicamos por que a série de Mike White melhora com o tempo e detalhamos o que esperar da 4ª temporada em Saint-Tropez.

Quase cinco anos depois de sua estreia, The White Lotus se transformou em algo raro na televisão contemporânea: uma série que parece mais relevante hoje do que quando debuted. Não é nostalgia — é profecia. Mike White criou um retrato da classe privilegiada que, mês a mês, se torna menos sátira e mais documentário.

Reassistir a primeira temporada agora é uma experiência perturbadora. Em 2021, ríamos dos Mossbacher e sua riqueza performática enquanto o mundo ainda respirava por aparelhos. Hoje, quando bilionários circulam em ilhas privadas com frequência suspeita, o riso vira um nó na garganta. White não só antecipou o zeitgeist — ele o diagnosticou antes de sabermos que estávamos doentes.

Por que The White Lotus melhora com o tempo

Por que The White Lotus melhora com o tempo

A resposta está no que a série se recusa a ser. The White Lotus poderia ter sido apenas mais um “whodunit” de luxo, no estilo Agatha Christie com drinks de coco. White tinha todos os ingredientes: cenário paradisíaco, elenco estelar, um cadáver misterioso. Mas ele escolheu usar o assassinato como isca para algo mais ambicioso — um exame cirúrgico de como o dinheiro corrompe relações humanas básicas.

A primeira temporada já deixava isso claro com a família Mossbacher. Connie Britton como Nicole, a executiva de tecnologia que mal consegue fingir interesse pela própria filha, enquanto seu marido Mark (Murray Bartlett, em performance que mistura comédia física e desespero existencial) enfrenta câncer e crise de masculinidade. Sydney Sweeney como Olivia, a filha universitária que prega justiça social enquanto se beneficia do sistema que critica. Todos hipócritas, todos reconhecíveis, todos profundamente humanos em sua feiura.

O que torna a série atemporal é que White nunca simplifica. Seus ricos não são vilões de cartolina — são pessoas que genuinamente acreditam estar fazendo o certo, mesmo quando exploram, manipulam ou destruem quem está ao redor. A gerente do hotel em Maui, Armond, interpretado por Bartlett, é tão vítima quanto agressor. Sua espiral autodestrutiva não é justificativa para seu comportamento tóxico, mas é compreensível. Essa nuance é o que separa The White Lotus de sátiras mais pesadas e menos inteligentes.

O formato antológico como segredo da longevidade

Cada temporada de The White Lotus muda de continente, elenco e tom — mas mantém o DNA intacto. A Sicília da segunda temporada trouxe uma paleta mais escura, tanto visual quanto moralmente. A fotografia de Xavier Grobet trocou os azuis havaianos por amarelos e terracotas que remetem ao cinema italiano dos anos 60. Jennifer Coolidge, a única ponte entre temporadas, teve seu arco encerrado de forma tragicômica em um mar que parecia extraído de La Dolce Vita. A referência a Fellini não era acidental: White sabe que o diretor expôs a decadência da aristocracia italiana da mesma forma que ele agora expõe a nova elite global.

A terceira temporada, ambientada na Tailândia, elevou ainda mais a aposta. O budismo como pano de fundo para ocidentais perdidos buscando significado em retiros de luxo — o turismo espiritual como mais uma forma de consumismo disfarçado. Walton Goggins como Rick Hatchett, um homem carregando trauma não processado, e Aimee Lou Wood como Chelsea, sua namorada mais jovem que vê através dele. A série encontrou na Ásia um novo terreno para a mesma crítica: ricos tentando comprar o que dinheiro não dá.

Esse formato permite que The White Lotus se reinvente continuamente sem perder identidade. É raro em televisão — a maioria das séries ou estagna ou se repete até a exaustão. White encontrou o ponto ideal: estrutura familiar o suficiente para ser reconhecível, flexível o suficiente para surpreender.

O que esperar da 4ª temporada na Riviera Francesa

O que esperar da 4ª temporada na Riviera Francesa

A próxima temporada marca uma mudança significativa: pela primeira vez, The White Lotus não se passará em uma ilha. Saint-Tropez, na Riviera Francesa, será o cenário — e a escolha é simbólica. Hollywood sempre amou essa região, de Brigitte Bardot a George Clooney. É onde celebridades vão para serem vistas sendo ricas, o que oferece um terreno novo para a sátira de White.

O elenco confirmado até agora inclui Steve Coogan, Helena Bonham Carter e Sandra Bernhard — nomes que sugerem uma temporada focada no mundo do entretenimento. Coogan tem histórico impecável em papéis que misturam comédia e desconforto, de Alan Partridge a Philomena. Bonham Carter traz a aura do cinema de autor britânico, enquanto Bernhard carrega o legado do comedy underground americano. Juntos, formam um trio que promete explorar diferentes facetas da fama e seus disfarces.

As filmagens começam em abril de 2026 e devem se estender até outubro, o que coloca a estreia provavelmente no primeiro semestre de 2027. A expectativa é que a temporada seja “mais sombria e letal” que a terceira — segundo relatos da produção. Dado que a temporada tailandesa já lidou com morte, trauma e consequências morais, a promessa sugere que White está disposto a ir ainda mais longe.

Uma série que merece ser assistida — e reassistida

O grande teste para qualquer obra que aspira à atemporalidade é o rewatch. The White Lotus passa nesse teste com distinção. A segunda vez que você assiste, os detalhes saltam: a forma como a câmera demora em um rosto que mente, a trilha de Cristobal Tapia de Veer que mistura serenidade tropical com dissonância orquestral, os diálogos que revelam mais sobre o que não é dito do que sobre o que é.

White escreve como alguém que estudou humanos em cativeiro. Suas cenas de jantar são aulas de tensão social — cada garfada carrega subtexto, cada silêncio pesa. A cena em que Tanya (Coolidge) descobre a verdade sobre seus “amigos” no iate siciliano é construída com a precisão de Hitchcock: sabemos mais que ela, e isso torna tudo mais angustiante.

No fim, The White Lotus envelhece como vinho fino porque seu tema central — a corrosão da alma pelo dinheiro — é atemporal. Mas é também porque White se recusa a descansar nos louros. Cada temporada reinventa, cada elenco traz novas camadas, cada cenário revela uma faceta diferente do mesmo problema. A 4ª temporada na Riviera Francesa promete continuar essa tradição.

Para quem ainda não viu: comece pelo início — as três temporadas estão disponíveis na HBO/Max. Para quem já viu: vale a pena voltar. O mundo mudou desde 2021, e The White Lotus mudou junto — sempre um passo à frente, esperando que a realidade alcance sua sátira.

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Perguntas Frequentes sobre The White Lotus

Onde assistir The White Lotus?

As três temporadas de The White Lotus estão disponíveis na HBO/Max. No Brasil, a plataforma oferece todas as temporadas completas com legendas em português.

Quantas temporadas tem The White Lotus?

Atualmente, The White Lotus tem 3 temporadas completas (Havaí, Sicília e Tailândia). A 4ª temporada está confirmada para 2027, ambientada na Riviera Francesa.

Precisa assistir The White Lotus em ordem?

Cada temporada é uma história independente com elenco diferente. A única conexão é Jennifer Coolidge, que aparece nas temporadas 1 e 2. Você pode assistir separadamente, mas recomenda-se a ordem cronológica para acompanhar a evolução do estilo de Mike White.

Quando estreia a 4ª temporada de The White Lotus?

A 4ª temporada deve estrear no primeiro semestre de 2027. As filmagens começam em abril de 2026 e seguem até outubro, com locações em Saint-Tropez, na Riviera Francesa.

The White Lotus tem conexão entre temporadas?

As temporadas são independentes, mas compartilham o mesmo universo temático. A única conexão direta entre elencos foi Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge), presente nas temporadas 1 e 2. A série mantém o mesmo hotel fictício como cenário, mas em locações diferentes.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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