‘The White Lotus’: como a HBO criou uma antologia eterna

Analisamos como ‘The White Lotus’ HBO subverteu o conceito de minissérie para criar uma estrutura de antologia eterna. Entenda como o DNA de reality show de Mike White e a escolha estratégica de locações transformaram a sátira social no produto mais renovável e lucrativo da emissora hoje.

Quando a HBO estreou ‘The White Lotus’ em 2021, o plano era simples: uma minissérie de seis episódios para preencher o vazio de programação deixado pela pandemia. O que ninguém esperava — talvez nem mesmo a emissora — é que a obra de Mike White se tornaria o modelo definitivo de ‘franquia de prestígio’.

Diferente de ‘Succession’ ou ‘The Sopranos’, que dependem de arcos de personagens de longo prazo, ‘The White Lotus’ HBO descobriu uma fórmula de renovação celular. Ao subverter o formato de antologia, a série não apenas sobreviveu ao fim de sua trama original, mas transformou o ‘cringe’ social em uma máquina narrativa que, teoricamente, pode rodar enquanto houver ultra-ricos e resorts de luxo no mundo.

O ‘DNA de Survivor’ na escrita de Mike White

O 'DNA de Survivor' na escrita de Mike White

Para entender por que a série funciona tão bem, é preciso olhar para o passado do seu criador. Mike White não é apenas um roteirista de elite; ele é um ex-participante do reality ‘Survivor’. Essa sensibilidade para dinâmicas de poder, alianças por conveniência e a micro-análise do comportamento humano sob pressão é o que dá à série sua textura única.

Diferente de outras antologias como ‘True Detective’, que mudam drasticamente de tom a cada ano, ‘The White Lotus’ mantém uma unidade estética e sonora absoluta. A trilha sonora de Cristobal Tapia de Veer, com seus gritos tribais e percussão ansiosa, atua como um tecido conjuntivo. Ela avisa ao espectador: ‘as locações mudaram, mas as regras do jogo social permanecem as mesmas’.

A geografia como motor de sátira social

Havaí, Sicília e agora a Tailândia na terceira temporada (com a França já no radar para a quarta). Mike White não escolhe cenários apenas pelo visual exuberante, mas pelo que eles representam no imaginário do colonizador moderno.

Na primeira temporada, o foco era o imperialismo casual dos americanos no Havaí. Na segunda, as lendas sicilianas sobre infidelidade (as cabeças de Testa di Moro espalhadas pelo hotel) serviram de presságio para a desintegração dos casais protagonistas. Essa profundidade temática impede que a série se torne apenas um ‘reality show com roteiro’. O cenário é o antagonista silencioso que expõe a vacuidade dos hóspedes.

O efeito Jennifer Coolidge e a rotatividade de prestígio

O efeito Jennifer Coolidge e a rotatividade de prestígio

A série resolveu um dos maiores problemas da TV atual: a fadiga de elenco. Ao adotar o modelo antológico, a HBO consegue atrair nomes como Aubrey Plaza, Michael Imperioli e Walton Goggins, que talvez não aceitassem contratos de cinco anos, mas adoram a ideia de uma ‘residência artística’ de luxo por alguns meses.

A exceção de Tanya McQuoid (Jennifer Coolidge) nas duas primeiras temporadas foi o golpe de mestre. Ela serviu de ponte emocional para o público enquanto a série ainda testava sua capacidade de sobrevivência sem um elenco fixo. Sua saída trágica no final da segunda temporada selou o destino da obra: agora, a verdadeira protagonista é a marca White Lotus, não os indivíduos.

Por que ‘The White Lotus’ é o trunfo renovável da HBO

Enquanto ‘House of the Dragon’ exige orçamentos colossais de CGI e ‘The Last of Us’ depende de uma narrativa linear finita, ‘The White Lotus’ é eficiente. É uma série baseada em diálogos, tensão de câmera e montagem rítmica — elementos muito mais baratos e sustentáveis a longo prazo.

O risco de qualquer antologia é a irregularidade (como vimos na queda de ‘American Horror Story’), mas o diferencial aqui é a visão singular de White, que escreve e dirige quase todos os episódios. É um produto de autor disfarçado de entretenimento de massa. Enquanto Mike White mantiver sua obsessão pela hipocrisia humana, a HBO terá seu ativo mais valioso: uma série que nunca precisa dizer adeus, apenas ‘até a próxima temporada’.

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Perguntas Frequentes sobre The White Lotus HBO

Onde se passa a 3ª temporada de The White Lotus?

A terceira temporada de ‘The White Lotus’ foi filmada na Tailândia, utilizando locações em Bangkok e nas ilhas de Koh Samui e Phuket. O tema central será uma visão satírica sobre espiritualidade e morte.

A série é baseada em hotéis reais?

Sim, a produção utiliza hotéis da rede Four Seasons como base. A primeira temporada foi no Four Seasons Resort Maui e a segunda no San Domenico Palace, na Sicília.

Preciso assistir as temporadas de The White Lotus em ordem?

Não necessariamente. Como é uma antologia, cada temporada apresenta uma história e elenco novos. A única conexão direta entre as temporadas 1 e 2 é a personagem Tanya (Jennifer Coolidge).

The White Lotus terá uma 4ª temporada?

Sim, a HBO já sinalizou o interesse na continuidade da série, e Mike White mencionou em entrevistas que já possui ideias para uma quarta temporada, possivelmente ambientada na França ou Austrália.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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