‘The Testaments’: spin-off de ‘O Conto da Aia’ já é sucesso na Hulu

Spin-off de ‘O Conto da Aia’, ‘The Testaments’ estreou em 2º lugar no Top 10 da Hulu ao adotar perspectiva inédita: o olhar de quem nasceu em Gilead. Analisamos por que a mudança de foco — de opressão para formação — funciona e o que esperar da série.

Algo curioso aconteceu na Hulu nesta semana. Enquanto todos os olhos estavam voltados para o sucesso contínuo de ‘Paradise’ — a série pós-apocalíptica do criador de ‘This Is Us’ que já garante temporada 3 —, um novo habitante de Gilead escapuliu e subiu rápido no ranking. ‘The Testaments’, spin-off de ‘O Conto da Aia’, estreou discretamente em 5º lugar no Top 10 dos EUA. Dias depois? Já ocupa o 2º posto.

O dado mais interessante não é o número em si, mas a consistência internacional. Segundo o FlixPatrol, a série figura no Top 10 de países tão diversos quanto Argentina, Brasil, França e Alemanha. Para um spin-off que poderia facilmente sofrer com a sombra de sua antecessora — e com o cansaço natural do público em relação a narrativas distópicas —, a performance sugere que a decisão de expandir o universo de Gilead foi mais acertada do que muitos previam.

Por que a mudança de perspectiva muda tudo

Se ‘O Conto da Aia’ era o horror visto pelos olhos de uma mulher aprisionada, ‘The Testaments’ opta por um ângulo mais complexo: o ponto de vista de quem nasceu dentro do sistema. A série se passa mais de 15 anos após os eventos da trama original e acompanha uma nova geração de mulheres — especificamente Agnes, uma jovem criada na teocracia de Gilead, e Daisy, uma recém-chegada de fora. Onde a série original se concentrava na opressão, esta se volta para a formação. É uma história de coming-of-age distópica, o que muda fundamentalmente o tom.

A premissa é arriscada. Ao focar em adolescentes em treinamento para se tornarem ‘esposas’ em uma escola comandada pela Tia Lydia, a série corre o perigo de suavizar o horror de Gilead. Mas os primeiros episódios indicam que o criador Bruce Miller — o mesmo showrunner de ‘O Conto da Aia’ — sabe exatamente o que está fazendo. A gentileza superficial do ambiente escolar torna a violência institucional ainda mais perturbadora. Há algo particularmente assustador em ver jovens sendo doutrinadas para aceitar um destino que elas sequer questionam.

O elenco que sustenta a expansão do universo

Parte da ascensão rápida no ranking se deve a uma decisão inteligente de elenco. Ann Dowd retorna como Tia Lydia — e se você viu a série original, sabe que ela é, paradoxalmente, uma das atrizes mais fascinantes da televisão atual em um papel que causa calafrios. A presença dela não é um mero serviço aos fãs; é central para a trama, já que a escola de ‘formação’ é o palco principal da história.

Mas o verdadeiro teste era a nova geração. Chase Infiniti, que lidera o elenco como Agnes, carrega a série com uma performance que equilibra devoção ingênua e fissuras crescentes na fé. Há um momento no primeiro episódio em que ela observa uma execução pública — e a câmera se recusa a cortar. O rosto dela registra confusão, medo e algo que parece ser dúvida, tudo em questão de segundos, sem uma linha de diálogo. É o tipo de atuação que justifica por que Miller apostou em uma atriz relativamente desconhecida para o papel central.

E para quem se perguntava se Elisabeth Moss apareceria: sim, mas de forma contida. Ela reassoma June em uma participação especial e atua como produtora executiva. É o tipo de presença que conecta as duas séries sem sufocar a nova narrativa.

Visualmente mais contida, narrativamente mais insidiosa

Visualmente mais contida, narrativamente mais insidiosa

Uma diferença notável em relação à série original está na linguagem visual. Onde ‘O Conto da Aia’ abusava de closes sufocantes e paleta de cores saturada para os vermelhos das Aias, ‘The Testaments’ adota uma estética mais ‘limpa’ — quase escolar. A fotografia de Colin Watkinson, que assina os dois primeiros episódios, usa luz natural e enquadramentos simétricos que remetem a um colégio interno tradicional. É uma escolha deliberada: o horror aqui não está na violência explícita, mas na normalização de um sistema cruel. Quando a câmera se move, geralmente é para seguir Agnes em corredores longos e brancos — um detalhe visual que reforça a ideia de que ela está, literalmente, sendo conduzida.

O sucesso de ‘The Testaments’ chega em um momento curioso para a Hulu. A plataforma acabou de colher os frutos de ‘Paradise’, indicada a três Emmys, incluindo o de melhor ator para Sterling K. Brown. O catálogo de ficção científica distópica da plataforma está robusto. Mas o que explica a recepção tão positiva — 86% de aprovação no Rotten Tomatoes com base em 37 críticas — para uma série que poderia ser descartada como ‘mais do mesmo’?

Acredito que a resposta está na mudança de perspectiva. Depois de temporadas acompanhando o sofrimento de June em ‘O Conto da Aia’, o público pode estar pronto para algo diferente: não a opressão vista de fora, mas a insidiosa normalização do horror vista de dentro. Quando você cresce em Gilead, o sistema não parece cruel — parece normal. E essa é uma forma de terror mais silenciosa e, talvez, mais relevante para os tempos atuais.

Vale a pena para quem cansou de distopias?

Se você assistiu a ‘O Conto da Aia’ e sentiu que a série se alongou além da conta nas temporadas finais, ‘The Testaments’ pode ser o refresco necessário. Com 10 episódios, a primeira temporada promete uma narrativa mais contida e com foco narrativo diferente. Não é sobre sobreviver a Gilead — é sobre o que acontece quando você é formada por ele.

Para novos espectadores, a série funciona razoavelmente bem sozinha, embora o impacto completo dependa de conhecer o contexto do universo. A recomendação: se a ideia de uma história de formação em uma teocracia distópica soa intrigante — e não exaustiva —, vale a tentativa. Episódios inéditos estreiam às quartas-feiras na Hulu. No Brasil, a série deve chegar ao Star+ como sua antecessora.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Testaments’

Onde assistir ‘The Testaments’ no Brasil?

‘The Testaments’ é exibida na Hulu nos EUA. No Brasil, a tendência é que chegue ao Star+ (ou Disney+), mesma plataforma que exibiu ‘O Conto da Aia’ na região. Ainda não há data confirmada de estreia nacional.

Preciso assistir ‘O Conto da Aia’ para entender ‘The Testaments’?

Não é obrigatório, mas fortemente recomendado. A série funciona de forma relativamente independente, mas o impacto emocional e a compreensão do universo de Gilead são significativamente maiores para quem conhece a trama original.

Quantos episódios tem a primeira temporada de ‘The Testaments’?

A primeira temporada tem 10 episódios, lançados semanalmente às quartas-feiras na Hulu. A série se baseia no livro homônimo de Margaret Atwood, publicado em 2019.

June (Elisabeth Moss) aparece em ‘The Testaments’?

Sim, Elisabeth Moss faz uma participação especial como June Osborne e atua como produtora executiva da série. No entanto, a trama foca em novos personagens — June não é a protagonista.

‘The Testaments’ se passa em que momento em relação a ‘O Conto da Aia’?

A história se passa aproximadamente 15 anos após os eventos finais de ‘O Conto da Aia’. O foco é uma nova geração de mulheres que nasceu e cresceu dentro de Gilead, sem conhecer outro mundo.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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