‘The Sun Never Sets’: elenco revela desafios de filmar sob sol da meia-noite

Em ‘The Sun Never Sets’, Joe Swanberg filmou no Alasca sob sol da meia-noite — e o elenco sentiu o impacto psicológico. Dakota Fanning achou fascinante; Jake Johnson, perturbador. Entenda como a luz perpétua moldou o processo improvisacional do diretor.

Existem lugares no mundo onde o sol se recusa a ir embora. Em determinadas épocas do ano no Alasca, a escuridão simplesmente não chega — e filmar sob essa luz perpétua criou uma situação que o elenco de ‘The Sun Never Sets’ não esperava. Dakota Fanning achou fascinante. Jake Johnson? Não tanto.

O novo filme de Joe Swanberg, que estreou no SXSW em 13 de março de 2026, marca a primeira colaboração entre o diretor de mumblecore e Fanning — e coloca a atriz no centro de um triângulo amoroso ambientado em um dos lugares mais incomuns para uma história de relacionamentos. Mas o que poderia ser apenas mais um drama independente sobre amores perdidos e reencontrados se transforma em algo mais interessante quando você entende as condições sob as quais foi feito.

O sol da meia-noite como personagem invisível

O sol da meia-noite como personagem invisível

Quando o elenco chegou ao Alasca para as filmagens, encontrou algo que a maioria de nós nunca experimentou: dias que literalmente não terminam. Durante o verão ártico, o sol permanece visível até altas horas da noite, criando uma dissonância cognitiva que afeta o ritmo de vida de quem vive lá — e de quem está apenas de passagem.

Dakota Fanning, que interpreta Wendy, uma mulher em crise existencial após o namorado pedir um ‘tempo’, teve uma reação inesperadamente positiva à experiência. ‘Eu realmente gostei’, contou em entrevista durante o festival. ‘Achei interessante ver crianças brincando em um playground às 9h45 da noite.’ Para alguém acostumada a sets de Hollywood com horários rigidamente controlados, a luz natural infinita parecia uma bênção criativa.

Seus colegas de elenco viram a mesma cena e tiraram conclusões bem diferentes.

Quando o dia não termina, a mente também não descansa

Jake Johnson, colaborador frequente de Swanberg desde ‘Um Brinde à Amizade’, teve uma experiência mais perturbadora. ‘É selvagem’, resumiu. ‘Você vê crianças em um playground à meia-noite, enquanto também observa três pessoas usando drogas em um posto de gasolina. E está tão claro quanto agora.’ A luz constante elimina as demarcações naturais que nosso cérebro usa para organizar o tempo — e isso cria um ambiente social onde comportamentos que normalmente aconteceriam na escuridão ocorrem sob sol pleno.

Cory Michael Smith, que interpreta um piloto no filme, comparou a atmosfera a ‘The Walking Dead’ — pessoas bêbadas andando pelas ruas em horários que seu corpo insiste em dizer que são errados. ‘A cultura parece problemática’, observou. Não é um julgamento moral, mas um reconhecimento de como a geografia extrema molda comportamentos sociais de maneiras que quem vive em latitudes normais dificilmente compreende.

O contraste entre as reações revela algo sobre os próprios atores: Fanning conseguiu encontrar poesia na anormalidade, enquanto Johnson e Smith sentiram o desconforto de ter seus ritmos circadianos desafiados. Essa divisão de pers perspectivas curiosamente espelha o próprio filme, onde personagens reagem de formas opostas às mesmas situações emocionais.

O Alasca que ninguém vê nos documentários de natureza

O Alasca que ninguém vê nos documentários de natureza

A maioria de nós conhece o Alasca através de documentários de vida selvagem ou filmes de sobrevivência extrema. Swanberg escolheu algo diferente: o cotidiano de pessoas comuns em um lugar extraordinário. Wendy não está lutando contra ursos ou enfrentando tempestades de neve. Ela está navegando um término de relacionamento, reencontros inesperados com ex-namorados e a confusão de estar no meio de um triângulo emocional.

O que o diretor entendeu — e o elenco descobriu in loco — é que o Alasca real é habitado por pessoas normais lidando com problemas normais em circunstâncias anormais. Smith mencionou que os habitantes locais enfrentam ’23 horas de escuridão’ no inverno, o inverso do que o elenco experimentou. Essa dualidade extrema cria uma população adaptada a condições que visitantes acham desorientadoras.

‘Se tivéssemos filmado durante o inverno, teria sido muito mais difícil’, admitiu Fanning. Smith completou: ‘Nossa saúde mental ficou bem.’ Foi uma piada, mas com uma verdade subjacente: a luz constante do verão ártico é desafiadora, mas a escuridão perpétua do inverno seria um obstáculo psicológico significativamente maior para um elenco acostumado aos ciclos naturais de dia e noite.

O método Swanberg: improvisação sob condições extremas

Joe Swanberg é conhecido por um estilo de filmagem que privilegia a improvisação sobre roteiros rígidos. Seus filmes do movimento mumblecore — aquele cinema indie de baixo orçamento focado em diálogos naturais e relacionamentos reais — sempre dependeram de atores que conseguem criar momentos genuínos sem cada palavra estar escrita. Mas ‘The Sun Never Sets’ representa uma evolução.

Jake Johnson, que trabalhou com Swanberg em múltiplos projetos incluindo ‘Quem Procura Acha’ e ‘Apostando Tudo’, notou a diferença: ‘Em muitas das nossas colaborações anteriores, era realmente um processo coletivo. Desta vez, Joe tinha uma visão clara.’ A ausência de um roteiro tradicional permanece, mas o diretor agora guia os atores com mais intenção após os ensaios iniciais.

O processo de construção de personagens foi colaborativo, mas com Swanberg no comando. Johnson revelou que seu personagem Jack foi parcialmente inspirado em experiências reais do próprio diretor — uma história que os dois acharam engraçada o suficiente para transformar em filme. Quando Dakota Fanning entrou no projeto, os três sentaram para discutir: ‘O que essa mulher veria de atraente em um cara mais velho, com filhos, um pouco acima do peso?’ A resposta a essa pergunta construiu o personagem de Johnson de forma orgânica.

Dakota Fanning em terreno desconhecido

Dakota Fanning em terreno desconhecido

Para Fanning, o papel de Wendy exigiu um equilíbrio delicado. Ela descreveu o processo de Swanberg como inevitavelmente pessoal: ‘Quando um ator entra para interpretar um personagem, você acaba infiltrando um pouco de si mesmo.’ Wendy é mais aventureira e ‘ao ar livre’ do que Fanning se considera — uma diferença que a atriz abraçou como desafio. ‘Eu disse ao Joe logo de cara: não sou nada ao ar livre.’ Mas uma pessoa criada no Alasca teria que ser, por força das circunstâncias.

A construção da personagem também envolveu conversas sobre experiências reais de relacionamentos. Fanning trouxe suas próprias vivências para tornar Wendy crível. O resultado, segundo seus colegas, é uma das performances mais vulneráveis de sua carreira. Johnson não economizou elogios: ‘As pessoas vão ficar muito animadas para ver Dakota nesse papel. É uma performance impecável.’ Smith concordou: ‘Você realmente está com ela em cada passo do caminho.’

O filme que Swanberg considera seu melhor trabalho

Depois de mais de uma dúzia de filmes, Swanberg fez uma declaração que poucos diretores se atrevem a fazer: ‘É meu favorito que já fiz. Não mudaria um quadro.’ A afirmação carrega peso especialmente considerando que seus cinco primeiros longas todos estrearam no SXSW — o festival tem sido sua casa artística desde o início.

Johnson endossou a avaliação do diretor: ‘Acho que é o melhor filme dele. Como artista, ver seu amigo crescer… ele assumiu mais controle desta vez.’ O que antes era uma colaboração mais difusa agora tem a assinatura clara de um autor amadurecido. A improvisação continua sendo ferramenta, mas não mais desculpa para falta de visão.

Para Fanning, a experiência foi igualmente transformadora: ‘Foi uma das maiores experiências que já tive. Quando as pessoas assistirem, saibam que estávamos nos divertindo muito.’ Há algo sobre essa declaração que ressoa diferente de um press junket padrão — a sensação de que o processo de fazer o filme foi genuinamente memorável, não apenas o resultado.

Por que vale a pena acompanhar

‘The Sun Never Sets’ ainda está aguardando distribuição global após sua estreia no SXSW, o que é comum para filmes independentes desse porte. Mas os elementos estão todos ali: um diretor no auge de sua maturidade artística, um elenco que inclui nomes como Debby Ryan (‘Insaciável’), Anna Konkle (‘PEN15’) e Lamorne Morris (‘New Girl’), e uma premissa que usa geografia incomum para contar uma história universal sobre escolhas emocionais.

O que separa este filme de dramas relacionais genéricos é precisamente o que o tornou desafiador de fazer. O sol da meia-noite não é apenas cenário — ele cria um estado mental coletivo no elenco que transborda para a tela. Quando você assiste a Wendy navegando suas decisões amorosas, está vendo uma mulher em um lugar onde até o tempo funciona diferente. Isso faz com que suas escolhas, por mais confusas que pareçam, façam um tipo de sentido que só existe naquele contexto específico.

Swanberg encontrou sua voz mais clara, e o Alasca provou ser mais que cenário de sobrevivência — é um lugar onde a geografia dita a psicologia. Para quem busca cinema que oferece algo além de fórmulas testadas, este é um filme para colocar na lista.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Sun Never Sets’

Onde assistir ‘The Sun Never Sets’?

O filme estreou no SXSW em março de 2026 e ainda está aguardando distribuição global. Filmes independentes desse tipo geralmente encontram distribuidoras nos meses seguintes ao festival.

Quem está no elenco de ‘The Sun Never Sets’?

O elenco principal inclui Dakota Fanning como Wendy, Jake Johnson como Jack, e Cory Michael Smith como piloto. Também participam Debby Ryan (‘Insaciável’), Anna Konkle (‘PEN15’) e Lamorne Morris (‘New Girl’).

O que é mumblecore?

Mumblecore é um movimento de cinema independente americano caracterizado por baixo orçamento, diálogos improvisados e foco em relacionamentos reais. Joe Swanberg é um dos principais nomes do gênero.

Por que o sol da meia-noite afetou o elenco?

Durante o verão ártico no Alasca, o sol não se põe, eliminando a demarcação natural entre dia e noite. Isso desorienta os ritmos circadianos e cria um estado mental onde comportamentos sociais mudam — o elenco sentiu esse impacto de formas diferentes.

‘The Sun Never Sets’ tem roteiro tradicional?

Não. Swanberg usa improvisação guiada — não há roteiro tradicional, mas o diretor trabalhou com mais intenção e visão clara do que em filmes anteriores, segundo Jake Johnson.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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